A coisa não está boa para os grandes bancos. Um relatório do JPMorgan mostrou que as 5 maiores instituições financeiras do país (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander) estão perdendo cotistas de fundos para as gestoras independentes. De 2013 a 2017, os “bancões” foram responsáveis por captar 85% dos recursos aplicados em fundos de investimentos. A mudança foi drástica e rápida: nos últimos dois anos, a equação inverteu, e as gestoras captaram 88%, enquanto os bancos ficaram com apenas 12%.

“Historicamente, o serviço de gestão de ativos era predominantemente oferecido por grandes bancos de varejo no Brasil. As plataformas de open banking e a redução da taxa de juros, no entanto, parecem estar mudando a dinâmica da competição”, observa o relatório do JPMorgan, elaborado e assinado pelos analistas Domingos Falavina, Yuri R. Fernandes, Guilherme Grespan e Marlon Medina Robles.

E como está o bolo dos ativos sob gestão? Não é só na captação que os grandes bancos estão perdendo feio. É verdade que as cinco maiores instituições financeiras ainda detêm sob gestão 58% de todos os recursos da indústria de fundos. Mas esse percentual era maior em um passado recente: em 2016, os bancos estavam com 65% desse mercado em mãos. Parece pouco? Os analistas do JPMorgan observam que essa perda de 7 pontos percentuais equivale a nada menos que R$ 380 bilhões.

Ok, e qual é o impacto disso para os bancos? Quanto mais ativos e clientes, mais os bancos ganham com a cobrança de taxas. Se a captação é menor, e o patrimônio dos fundos está indo para as mãos de outras gestoras, os bancos perdem parte da receita com as taxas de administração e de performance.

O JPMorgan analisou quais instituições estão mais expostas a esse problema. O Banco do Brasil é o campeão: as taxas cobradas dos fundos de investimento representam 22% de toda a receita com tarifas e serviços do banco. Em seguida vem o Itaú, com 13%, o Bradesco, com 12%, e o Santander, com 6%.

Esse efeito afeta a todos da mesma forma? Não. O relatório observou que quem mais perdeu espaço foram os bancos privados — principalmente o Bradesco. Já os bancos públicos, como a Caixa e o Banco do Brasil, acabaram preservando seu espaço, por terem grande participação em fundos de previdência.

A maior administradora de fundos de previdência do país, a BrasilPrev, tem como acionista principal o Banco do Brasil, por exemplo.

Os bancos estão condenados? Não é bem assim. Há outro fator que deve amenizar a perda dos bancos. Os analistas do JP Morgan esperam que a indústria de fundos crescerá a um ritmo médio de 8% ao ano nos próximos 5 anos. Isso considerando que os fundos de previdência (que representam 80% do balanço dos grandes bancos) vão crescer na mesma média da taxa Selic (entre 4% e 5%), enquanto os fundos de renda variável vão crescer 20% ao ano.

O cálculo leva em conta o crescimento de captações somado ao rendimento dos fundos. Sendo assim, o bolo de todos vai crescer — o dos bancos, no entanto, não vai crescer tanto quanto o das gestoras independentes.

Mas por que essa mudança está acontecendo? Assim como quase todas as revoluções que estão acontecendo no mundo das finanças, a nova realidade dos fundos foi impulsionada pela queda na taxa básica de juros, a Selic.

Lembrando: ela despencou de 14,25% no final de 2016 para apenas 5% atualmente. Como serve de referência para o rendimento dos títulos de renda fixa, a Selic também está comprimindo o lucro dos investidores que dedicaram seu patrimônio somente a produtos com risco baixo.

E isso está acontecendo da seguinte forma, de acordo com os autores do relatório do JPMorgan:

  • A queda dos juros está alimentando o crescimento dos fundos de renda variável, em detrimento dos que aplicam somente em renda fixa;

Explicamos: embora 40% dos recursos da indústria de fundos esteja alocado em ativos de renda variável, essa fatia é bem menor nos fundos administrados por bancos. O Itaú possui apenas 14% dos ativos aplicados em produtos que não são os de renda fixa; o Bradesco possui 8%, e o Banco do Brasil, míseros 2%.

Ou seja, sendo a indústria da renda variável a que mais cresce, os bancos têm muito a perder.

  • Está pressionando os fundos que cobram taxas de administração exageradas;

Explicamos: a menor rentabilidade de fundos de renda fixa vai dificultar a vida de quem cobra taxas de administração altas. Isso porque a diferença entre a rentabilidade e a inflação está diminuindo, e se os bancos insistirem em cobrar 1%, 2%, 3% em taxas de administração nesses fundos, o investidor pode colher um rendimento real negativo.

Em outras palavras: seu dinheiro pode passar a diminuir, em vez de se multiplicar.

  • Mudando o modelo de negócios para distribuição + gestão do patrimônio para apenas distribuição.

Explicamos: quando se fala em gestão, estamos tratando dos administradores dos fundos (que podem ser os bancos ou as gestoras independentes). Já a distribuição fica a cargo de quem oferece o fundo para o investidor final (que podem ser as corretoras ou os bancos). Sendo assim, os bancos estão perdendo na gestão, mas preservam, de certa forma, a distribuição.

A má notícia é que essas taxas de distribuição, que parecem invisíveis aos olhos do investidor por não incidirem diretamente sobre o total aplicado, acabam corroendo a rentabilidade do fundo. Os gestores do fundo descontam essas taxas da rentabilidade e pagam para o distribuidor. As taxas de distribuição (conhecidas no mercado como rebate) podem ficar com até 40% da rentabilidade, como observa o relatório.

Em outras palavras: menos dinheiro indo para o bolso do investidor.

Por isso, na hora de escolher um fundo, atente-se a todas as variáveis (taxa de administração, taxa de performance, perfil das aplicações do fundo, gestores etc.) e veja se vale a pena continuar apostando no seu “bancão” ou se é melhor migrar para uma gestora, pensando na perspectiva de rendimento e na liquidez.

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