Não é só a bolsa e os fundos imobiliários que estão sendo penalizados nessa crise. Ao contrário do que o nome sugere, os investimentos em renda fixa estão enfrentando alta volatilidade e, em alguns casos, uma desvalorização digna de renda variável.

Os títulos mais longos do Tesouro Direto, por exemplo, acumulam queda de dois dígitos nos últimos 30 dias. E o CDI, que referencia o rendimento dos CDBs, LCIs, LCAs e outros está acumulando rendimento real de cerca de 0,5% no ano. É pouco, principalmente considerando que há, ainda, desconto tributário sobre o retorno de alguns desses investimentos. Quem contratou um título com uma taxa inferior a 100% do CDI pode estar vivendo do zero a zero.

Com receio desse cenário, vários investidores têm voltado casas no tabuleiro, colocando o dinheiro na poupança. Em março a caderneta registrou captação recorde mensal: mais de R$ 12 bilhões foram aplicados na modalidade. Vale lembrar que a iniciativa do Banco Central de cortar juros para estimular a economia em tempos de pandemia tende a reduzir o rendimento da caderneta e de outros investimentos atrelados ao CDI.

A taxa básica de juros está em 3,75% ao ano e pode cair um pouco mais, caso os efeitos do coronavírus no PIB sejam maiores. De acordo com o relatório Focus, que reúne as expectativas de economistas, a Selic deve terminar o ano em 3%. O chamado Top 5 (grupo composto pelos economistas que mais acertam as previsões) acham que a taxa básica ficará ainda mais baixa, em 2,5%.

Como driblar esse cenário? Bancos e emissores de títulos de renda fixa estão mudando o cálculo de retorno, para tentar atrair liquidez. A crise tem feito com que bancos médios busquem ferramentas de funding para dar continuidade a projetos já iniciados e para sobreviver a uma possível alta na inadimplência.

“Os bancos estão pagando taxas extremamente competitivas, pra criarem uma gordura de liquidez. São taxas que não víamos há muito tempo. Apesar de o CDI estar baixo, o retorno é convidativo”, diz Fabio Macedo, diretor comercial da corretora Easynvest.

Como exemplo, ele cita CDBs de curto prazo pagando cerca de 150% do CDI e outros pagando taxas pré-fixadas bastante atrativas. Veja alguns exemplos:

  • CDB do Banco Máxima ou do banco Luso Brasileiro com vencimento em 1 ano e remuneração de 149% do CDI.
  • CDB do banco NBC com vencimento em 1 ano e remuneração pré-fixada de 6,8% ao ano.
  • CDB do Banco Máxima com vencimento em 3 anos e remuneração pré-fixada de 9% ao ano.
  • LCI do Banco Máxima com vencimento em 1 ano e remuneração pré-fixada de 4,41% ao ano (lembrando que esse tipo de investimento é isento de Imposto de Renda, então o rendimento é líquido).
  • LCI do Banco Pine com vencimento em 1 ano e remuneração de 108% do CDI.
  • LCA do Banco Original com vencimento em 1 ano e remuneração de 110% do CDI (assim como o LCI, esses títulos não têm o rendimento tributado).

Como eram essas taxas antes da crise? Antes de o coronavírus ser uma realidade no mundo todo, o Brasil já vinha reduzindo juros. Analistas acreditavam que a taxa estacionaria nos 4,25% ao ano e depois subiria gradualmente, mas em médio prazo. Por isso, as perspectivas para a renda fixa não eram as melhores, mas havia alguma expectativa de alta nos próximos meses.

Antes da crise, o padrão normal do mercado eram títulos de curto prazo pagando entre 90% e 120% do CDI, no máximo. Como os juros estavam um pouco mais altos (e consequentemente o CDI também), as taxas acabavam se equiparando às vistas atualmente. Lembrando que 150% de uma taxa menor continua sendo pouco.

O que mudou o jogo, no entanto, foram os títulos pré-fixados. Pela perspectiva de queda nos juros (e consequente queda na rentabilidade futura) essas aplicações podem ter condições bastante atrativas. Caso opte por essa condição de retorno, o investidor deve se atentar ao risco dos títulos.

“Debêntures concorrem com os CDBs, e por isso os emissores estão readequando a curva inteira de retorno. A diferença é que, no caso dos CDBs, o investidor usufrui da garantia do FGC“, lembra Macedo, da Easynvest.

No caso das debêntures, é preciso ainda considerar que a crise tende a atingir todas as empresas, mas que alguns negócios estarão mais expostos. Setores como o de aviação, varejo e imóveis podem ser afetados mais profundamente. Além disso, empresas médias podem perder o acesso ao mercado de crédito, perdendo também a capacidade de se financiar e de honrar os pagamentos dessas debêntures.

“É fundamental que o investidor entenda para qual instituição está concedendo crédito, e entender que mesmo as informações que estão disponíveis se referem ao que está no retrovisor, antes de a crise do coronavírus chegar”, alerta o diretor comercial da corretora.

Mas mesmo no campo em que há proteção do FGC o investidor deve ter atenção com alguns pontos. Bancos pequenos e médios costumam parar um prêmio maior sobre seus títulos justamente porque oferecem mais riscos. Nesse caso, o investidor deve se atentar ao índice de Basiléia do banco. Esse indicador mede a solvência de determinada instituição financeira, e pode ser conferido nos portais de comparação como o Yubb.

Quanto maior esse percentual, mais sólido é o banco. No Brasil, esse índice deve ser de no mínimo 11,5%, para os grandes bancos, e de 10,5%, para os bancos pequenos e médios.

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