O receio da crise econômica causada pelo coronavírus e o auxílio emergencial farão com que o Brasil encerre 2020 com um saldo de poupança quase 30% maior do que o fechamento do ano passado, segundo dados do Banco Central.

Os números impressionam. Até o dia 22 deste mês, o total depositado na aplicação mais amada e odiada pelos brasileiros somava R$ 1,032 trilhão (sim, a caderneta superou a marca do R$ 1 trilhão neste ano!), R$ 234 bilhões a mais do que em dezembro de 2019.

É o maior volume da série histórica do BC, que tem início em 1995.

Esse dado não é apenas uma curiosidade estatística: a expectativa é que parte desse dinheiro guardado volte à economia em 2021 na forma de consumo, ajudando na retomada da atividade em um ano que promete ser particularmente desafiador.

Mas por quê, em plena pandemia, o total depositado na poupança cresceu tanto? Em primeiro lugar, a crise forçou o governo a conceder o auxílio emergencial de R$ 600 aos mais necessitados.

“O auxílio fez com que muitas pessoas abrissem contas bancárias pela primeira vez, e as famílias de baixa renda passaram a contar com um fluxo de caixa”, explica Ricardo Rocha, professor de Finanças do Insper.

Em muitos casos, o benefício foi sendo depositado diretamente nessas contas poupança abertas durante a crise.

Para se ter uma ideia do impacto do auxílio na bancarização, 12,1 milhões de novos CPFs passaram a ter relacionamentos ativos com os bancos neste ano, segundo dados do BC.

Essa foi a única razão? Não. Como vem acontecendo em outros países, o choque do coronavírus obrigou uma parcela da população brasileira –aqueles que possuem mais renda ou que não foram afetados por suspensão ou redução de salários– a poupar.

Seja pelo receio do que o futuro reserva, seja pela impossibilidade de gastar, por causa da quarentena imposta pela infecção, a situação fez com que uma parte da sociedade economizasse mais.

“Houve uma restrição de consumo. As pessoas ficaram em casa durante boa parte do ano, o que fez com que o consumo fosse muito baixo”, explica Rocha. “Além disso, o medo do desemprego cresceu com a crise, o que também refreou a aquisição de bens e serviços”.

Esses recursos poupados podem ajudar na retomada? A expectativa é que sim. O próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já afirmou que a expectativa da instituição é que a combinação de manutenção da massa salarial com a redução de aquisição de bens e serviços gere uma poupança que vai aliviar o efeito na economia da retirada do auxílio emergencial.

“Se a confiança voltar, primeiro do empresário e depois do trabalhador empregado, a tendência é que o consumo passe a crescer. A poupança é um combustível que move a economia, e pode ajudar na retomada”, afirma o professor do Insper. “Se a recuperação não for um voo de galinha, as pessoas voltarão a comprar, não apenas através de recursos poupados, mas também de crédito”.

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