A Boa Vista retomou os planos para fazer sua estreia na Bolsa de Valores, uma vez que a rápida expansão das consultas ao cadastro positivo fez o segundo maior bureau de informações de crédito do país mudar o foco para crescimento orgânico, em vez de aquisições para ampliar o leque de serviços.

A Boa Vista pediu registro para oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) no começo de março, mas suspendeu o pedido logo depois, à medida que a pandemia da Covid-19 provocou uma forte queda no mercados.

Por que a Boa Vista retomou os planos do IPO? Houve o crescimento acelerado das consultas ao cadastro positivo, o sistema que registra o histórico dos bons pagadores e permite a oferta de empréstimos mais baratos.

O cadastro positivo teve alta de 15% nas consultas de abril para maio na Boa Vista, afirmou o presidente do bureau, Dirceu Gardel, em entrevista à Reuters.

A importância dos dados da Boa Vista: Para o executivo da Boa Vista, a análise qualitativa dos dados de crédito, ao lado da ajuda emergencial do governo, deve ter papel crucial na retomada das atividades do varejo. Segundo ele, atualmente o ritmo das consultas totais na Boa Vista – considerando o cadastro positivo ou não – está em cerca de 80% da média anterior à crise.

Diante desse quadro de recuperação gradual da economia, a Boa Vista avalia voltar com os planos de IPO, embora ainda não tenha prazos definidos. 

Qual o contexto do aumento nas consultas? O aumento na demanda pelo cadastro positivo acontece em meio às previsões de um salto nos índices de inadimplência devido aos efeitos das medidas de isolamento social a partir de março para conter a pandemia e que devem fazer disparar o desemprego e o encerramento de pequenas empresas.

Ao divulgarem resultados do primeiro trimestre, os grandes bancos do país anunciaram um reforço significativo de suas provisões para perdas esperadas com calotes.

Como está a inadimplência? Dados preliminares, conta Gardel, mostram que o nível de atrasos em pagamentos medidos pela Boa Vista cresceu 5% em abril sobre um ano antes, bem menos do que se imaginava.

Mas um crescimento é esperado. “Os índices de inadimplência devem crescer mais depois, assim como os encerramentos de negócios.”

Como isso mexeu na organização da Boa Vista? A própria empresa ampliou o prazo de hibernação, período de atraso a partir do qual inclui no ‘cadastro negativo’ o CPF dos tomadores com dívida em atraso, de 15 para 40 dias. Além disso, governos municipais e estaduais interromperam o envio de títulos vencidos para protesto.

Com menor visibilidade sobre a situação de curto prazo, bancos de fintechs passaram a ser mais restritivos na concessão de novos empréstimos, exigindo scores de crédito maiores dos tomadores do que os de antes da crise, disse Gardel.

Assim, dados antes indisponíveis, como a adimplência no pagamento de contas de serviços públicos por parte de indivíduos não bancarizados, público estimado em cerca de 20 milhões de pessoas no Brasil, passaram a ser ainda mais valiosos.

Qual o tamanho da Boa Vista? Tendo como sócios o fundo TMG Capital e a norte-americana Equifax, além de entidades de lojistas de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Porto Alegre, a Boa Vista divide o mercado de informações de crédito no país com a líder Serasa Experian e a Quod, que pertence aos cinco maiores bancos brasileiros. O lucro líquido da Boa Vista em 2019 somou R$ 74,4 milhões, crescimento de 58% sobre o ano anterior.

Empresas como a Boa Vista recebem de bancos, varejistas e outras companhias que oferecem crédito e compras financiadas uma tarifa quando acessam e analisam dados de clientes, dando às informações um “score”, uma medida do risco do tomador. 

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.uol.com.br/whatsapp.