A partir de setembro, o pequeno investidor brasileiro ampliará bastante o seu leque de opções de investimentos em renda variável. Através da B3, as pessoas físicas com menos de R$ 1 milhão aplicados estarão liberadas para comprar, em reais, papéis que acompanham o preço de empresas listadas no exterior.

Atualmente, são negociados na Bolsa mais de 550 BDRs, os Brazilian Depositary Receipts, que são certificados que representam ações de companhias negociadas lá fora, como Amazon, Apple, Netflix e Google, entre outras estrelas do mercado americano.

A decisão de abrir esse mercado para o varejo foi tomada nesta terça-feira (dia 11) pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em resposta a um pedido antigo de entidades do mercado, inclusive da própria Bolsa.

O xerife do mercado também decidiu que companhias brasileiras que só possuem ações no exterior, como a plataforma de investimentos XP e as empresas de pagamento Stone e PagSeguro, também poderão lançar BDRs na B3, o que até então era proibido.

“Essa decisão abre um universo para que o investidor brasileiro possa diversificar mais seu portfólio”, avalia Paloma Brum, economista da Toro Investimentos.

O 6 Minutos preparou um guia para você entender tudo sobre esse assunto.

Como funciona esse investimento? Em primeiro lugar, é importante saber que o investidor não estará investindo diretamente nas ações das empresas listadas no exterior, mas sim nos tais BDRs.

Esse nome complicado define certificados que representam papéis de empresas listadas em bolsas de outros países, e que ganham ou perdem valor de acordo com a movimentação nas suas bolsas de origem.

Eles são vendidos em lotes mínimos de 10 BDRs –o investidor não consegue adquirir menos do que isso.

Isso quer dizer que não estou investindo de verdade na empresa? Indiretamente, você está investindo na empresa, apesar de não ter a posse direta da ação.

Ao adquirir um BDR, você está comprando um recibo lastreado com ações da empresa.

Tanto que o  emissor do certificado (que pode ser a própria companhia ou uma instituição financeira autorizada por ela) faz uma reserva de papéis para garantir o equivalente ao seu investimento.

Como esse mercado funcionava? Até agora, essas aplicações eram liberadas apenas para investidores com mais de R$ 1 milhão aplicados ou com conhecimentos avançados no mercado financeiro (e que possuem certificados comprovando isso, como analistas de investimento ou planejadores financeiros).

A decisão da CVM ampliou esse acesso também a pequenos investidores.

Veja abaixo os BDRs mais negociados na B3 em 2020:

A valorização ou desvalorização dos BDRs reflete exatamente o que acontece com a ação no exterior? Mais ou menos. A BDR acompanha exatamente a variação do preço daquela ação, mas é importante ter em mente que existe a diferença do câmbio.

Se estamos falando de uma empresa americana, por exemplo, uma variação para cima ou para baixo do dólar impactará no valor que o investidor vai ganhar ou perder no final do dia.

“Se você manda US$ 100 para aplicar lá fora, aqui está comprando R$ 530. Se o dólar for para R$ 540, você tem um ganho no câmbio independentemente do que acontece com a ação. Ou vice-versa, você pode perder com a variação cambial”, explica Luis Sales, analista da Guide Investimentos.

Por que a CVM proibia o pequeno investidor de aplicar nesses papeis? A entidade barrava o acesso por temer que o pequeno não tivesse informação suficiente para entender no que está investindo.

As BDRs nível 1 (aquelas  que não precisam ter registro na CVM) não precisam sequer traduzir suas informações financeiras ao mandá-las à B3, por exemplo.

“Como elas não precisam ter registro aqui, nem apresentar suas demonstrações financeiras no Brasil, a CVM considerava que poderiam ser arriscadas para os investidores de menor conhecimento do mercado”, explica Brum, da Toro Investimentos.

Nos últimos anos, com o acesso à informação bastante ampliado, ganhou força o apelo do mercado para essa liberação.

Quais os cuidados a tomar? Especialistas nesse mercado aconselham que o pequeno investidor deve redobrar todos os cuidados tradicionais de quando o assunto é aplicação em ações: se informar bastante sobre a empresa e também sobre a economia do país onde ela está.

“Se o investidor não tem tempo para estudar essas empresas, se não tem conhecimento para escolher os papeis, é interesse que se referencie em profissionais qualificados, como casas de análise, corretoras e bancos”, aconselha Brum.

Outro ponto importante é a liquidez: os volumes negociados de BDRs são muito menores.

“O mercado de ações lá fora é muito mais líquido. Então, um alerta que pode ser feito é que, na hora de tentar vender, o investidor talvez não encontre o preço justo no mercado brasileiro. Mas para quem negocia volumes baixos esse não é um grande problema”, diz a especialista.

Esses investimentos estarão disponíveis diretamente no meu home broker? Sim, essas aplicações devem aparecer no home broker de todas as corretoras a partir de setembro.

“Assim como as ações, os BDRs têm códigos”, explica Brum. O da Amazon, por exemplo, é AMZO34, o da Apple, AAPL34.

A CVM liberou essas negociações a partir do dia 1º do mês que vem. Segundo Sales, da Guide, do lado das corretoras essa liberação será relativamente simples. “Mas o processo vai depender também da B3. A Bolsa não garantiu que a data será exatamente 1º de setembro”, afirma.

Os BDRs também pagam dividendos e juros sobre capital próprio? Como funciona a tributação? Sim, o investidor brasileiro em BDRs recebe dividendos e juros sobre capital próprio pagos pelas ações. Nesses casos, a tributação é feita no país de origem da ação e já chega aqui líquida de impostos.

Da mesma forma como acontece com ações brasileiras, o valor ganho com a valorização dos papeis é sujeito à tributação local, de 15% para valores de venda acima de R$ 20 mil.

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