A cotação do dólar deu um susto em muita gente ao chegar ao nível recorde de R$ 4,26. Nos últimos dias, a moeda americana tem se estabilizado — na última sexta-feira (6), ela recuou e fechou em R$ 4,14. Esse padrão do dólar mais caro levou muitos investidores a buscar investimentos atrelados à moeda — seja para proteger parte dos seus rendimentos, diversificar a exposição da carteira ou até para tentar surfar na onda da valorização.

Os fundos cambiais, que ainda são vistos como complicados demais pelo investidor comum, começaram a cair nas graças de muita gente. Mas antes de sair colocando seu dinheiro em algum fundo dessa modalidade, é muito importante saber o que são, como funcionam e se são mesmo recomendados para o seu perfil de investidor.

O que são fundos cambiais? São fundos que aplicam pelo menos 80% do patrimônio em ativos ligados à moeda estrangeira — os outros 20% têm de ser aplicados em renda fixa. Fundos cambiais que investem em ativos cotados em dólares são os mais comuns, mas existem alguns ligados ao euro, ao iene e a outras moedas fortes.

Mas no que eles investem, exatamente? Podem ser aplicações diretas, em títulos negociados no exterior ou em derivativos. Os derivativos são aplicações que acompanham a variação de algum outro produto — pode ser uma moeda estrangeira, ações, juros e outros.

Quão populares são os fundos cambiais? Com o crescimento dos fundos de renda fixa, multimercados e de ações, os fundos cambiais foram colocados para escanteio. No ano, a captação líquida desses fundos está negativa em mais de R$ 700 milhões — ou seja, os investidores fizeram mais resgates do que aplicações.

A verdade é que, mesmo nos seus anos de glória (em anos de forte alta do dólar, por exemplo), os fundos cambiais captam bem menos que o restante dos fundos. Não é, portanto, uma escolha óbvia dos investidores. “Até pouco tempo atrás, esses fundos não eram acessíveis para os pequenos investidores, já que exigiam uma aplicação mínima de R$ 150 mil”, explica Rafael Panonko, analista-chefe da corretora Toro Investimentos.

A busca recente por fundos cambiais é bastante atípica, explica ele, e reflete o desejo dos investidores por rentabilidade maior. “Como a renda fixa está rendendo menos, essa busca por ativos que se destacam é bem comum”, diz Panonko. Com o dólar subindo, os olhos do investidor brilham para os ativos atrelados a ele.

Mas calma lá. Quais são os prós e contras de se investir em um fundo cambial? Os principais benefícios de ter alguma parte da carteira aplicada em fundos cambiais são a proteção contra as desvalorizações do real e a exposição a mercados externos — no sentido de não depender apenas do mercado doméstico.

A proteção contra as oscilações do câmbio é importante, pois os choques locais (como quadros inflacionários, juros negativos e problemas no mercado de ações) afetam menos o desempenho da carteira de investimentos. Além disso, o investidor pode surfar em bons momentos externos — nas últimas semanas, por exemplo, o S&P 500, um dos principais índices de ações do mercado americano, bateu sucessivos recordes.

Por outro lado, investir em fundos cambiais pensando em colher lucros no curto prazo não é uma boa ideia. Isso porque colocar todas as fichas na valorização ou na desvalorização do câmbio é quase um jogo de loteria. O desempenho do dólar nas últimas semanas é prova disso.

O investidor não deve entrar em um fundo cambial pensando em especulação. “Não tem isso de ‘vou entrar agora e sair daqui a duas semanas, quando o dólar subir’, porque o risco é muito grande”, aconselha Panonko, da Toro.

Cuidado redobrado com os altos e baixos na rentabilidade de fundos cambiais

Para quem os fundos cambiais são indicados, então? O mais aconselhável é que investidores conservadores não apliquem nesse tipo de fundo, por causa da elevada volatilidade (muitas variações no rendimento). E mesmo quem aceita um nível maior de risco deve aplicar no máximo 10% da carteira.

“Os fundos cambiais são uma boa alternativa, também, para quem vai viajar, no médio ou no longo prazo. Por exemplo, um estudante que vai fazer um intercâmbio fora daqui a dois anos”, conta Panonko. Se o dólar subir muito até lá, os planos desse estudante não ficam em risco.

Quais são as taxas e os tributos cobrados nos fundos cambiais? Há a incidência de Imposto de Renda sobre o rendimento, na forma de come-cotas. A tributação é a mesma aplicada em fundos de longo prazo: 22,5% para aplicações de até 180 dias, 20% para aplicações entre 181 e 360 dias; 17,5% para aplicações entre 361 e 720 dias; e 15% para aplicações com mais de 720 dias.

Em geral, as gestoras cobram taxas de administração e de performance nos fundos cambiais. A taxa de administração costuma ficar entre 1% e 3% — fundos de gestão ativa, que exigem do gestor a revisão periódica das estratégia, têm taxas de administração maiores. Já o padrão da taxa de performance é de 20% sobre o que exceder o benchmark (índice de referência, como o CDI ou o Ibovespa) estabelecido.

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