Quem assistiu à sangria inclemente que os títulos do Tesouro Direto sofreram nos últimos meses deve ter se perguntado qual seria o fundo do poço para tantos prejuízos acumulados. Mas novembro veio com uma surpresa e tanto: depois de tantos meses com a tabela de rentabilidades quase inteira no vermelho, eis que nada menos que 25 dos 27 títulos negociados na plataforma apresentaram retornos positivos.

Alguns papéis praticamente renasceram das cinzas do fechamento de outubro para cá. O Prefixado 2026, por exemplo, caía -5,62% e agora sobe +0,38%. A rentabilidade do Prefixado 2031 com juros semestrais passou de -5,44% para +2%. Os títulos atrelados à inflação, que também têm um componente prefixado, seguiram o mesmo roteiro: o Tesouro IPCA 2055 com juros semestrais, por exemplo, despencava -8,69% e agora cresce +1,85%.

Mas nenhum outro papel teve uma reviravolta tão espetacular como a do Tesouro IPCA 2045: em outubro ele derretia -15,03% e agora salta +3,21%, no melhor resultado de toda a tabela. E, mesmo nos dois títulos que destoaram dos demais e caíram, os tombos foram pequenos: o Tesouro Prefixado 2023 recuou -0,09%, enquanto no Prefixado para o mesmo ano com pagamento de juros semestrais a perda foi ainda menor: -0,03%.

“Neste mês, vimos a ponta longa da curva de juros cedendo, o que gerou todas essas rentabilidades positivas no Tesouro Direto, principalmente nos papéis atrelados ao IPCA. Foi uma correção diante do exagero de prêmio de risco que estava sendo colocado nesses ativos”, explica Sandra Blanco, economista-chefe da Órama Investimentos. “O mercado está ajustando os papéis para patamares mais condizentes com as perspectivas do momento, em que já se vislumbra a taxa Selic terminal, com fim do ciclo de alta em 2022.”

TítuloRentabilidade bruta (%) novembro/2021Rentabilidade bruta (%) no anoRentabilidade bruta (%) últimos 12 meses
Tesouro Prefixado 20220,611,912,83
Tesouro Prefixado 2023-0,09-3,97-1,62
Tesouro Prefixado 2024-0,14--
Tesouro Prefixado 20250,09-11,58-6,35
Tesouro Prefixado 20260,38-14,59-8,41
T. Prefixado c/ Juros semestrais 2023-0,03-3,28-0,82
T. Prefixado c/ Juros semestrais 20250,28-9,79-4,79
T. Prefixado c/ Juros semestrais 20270,72-13,58-7,37
T. Prefixado c/ Juros semestrais 20291,44-16,48-9,90
T. Prefixado c/ Juros semestrais 20312,00-18,42-10,93
Tesouro Selic 20230,583,734,04
Tesouro Selic 20240,61--
Tesouro Selic 20250,623,664,20
Tesouro Selic 20270,64--
T. IGPM+ c/ Juros semestrais 20311,329,7910,72
Tesouro IPCA+ 20241,300,794,20
Tesouro IPCA+ 20261,32-2,152,99
Tesouro IPCA+ 20352,62-12,16-0,69
Tesouro IPCA+ 20453,21-26,95-11,16
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20241,311,734,84
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20261,30-0,603,91
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20301,77-4,741,94
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20352,11-7,231,35
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20401,96-7,950,54
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20451,85-8,360,15
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20501,57-10,51-1,46
T. IPCA+ c/ juros semestrais 20551,85-12,49-2,62

O que explica essa reviravolta nos papéis?

Não dá para dizer que o cenário mudou da água para o vinho, mas algumas variáveis trouxeram um certo alívio para o mercado. Uma delas é o encaminhamento da PEC dos Precatórios.

Embora não represente uma guinada rumo à austeridade, ela passou a ser vista como positiva, por reduzir a incerteza fiscal – na medida em que evita que o governo tente financiar o Auxílio Brasil com medidas ainda menos ortodoxas, que poderiam levar ao descontrole das contas públicas. “O mais provável é que a PEC defina travas para os gastos, o que dará algum arcabouço para a questão fiscal”, acredita Sandra.

A pressão inflacionária continua, tanto é que o boletim Focus desta semana elevou novamente a taxa esperada para 2022. Mas, considerando a magnitude que vinha sendo acrescentada nos últimos relatórios, há sinais de desaceleração. Além disso, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reforçou em várias oportunidades seu compromisso de levar a inflação para o centro da meta no ano que vem.

“Ainda que isso seja difícil, essa fala é importante para ancorar as expectativas. Do contrário, o mercado poderia entender que a alta dos preços está fora de controle e continuará se agravando. Com isso, o prêmio de risco exigido [que se reflete diretamente nas taxas dos títulos de renda fixa] seria ainda maior”, explica a economista.

Além disso, começa a tomar forma no mercado a percepção de que as taxas de juros futuras já estão elevadas demais. O horizonte de 2022 mostra perspectivas de crescimento ainda fracas e desemprego persistente, e nesse cenário juros tão altos não vão ajudar em nada. Isso acaba contribuindo para um ajuste para baixo nas taxas, o que, por sua vez, leva os preços de mercado dos papéis a subir, como se viu neste mês.

“No mês passado, a incerteza era tão grande que o comprador dos títulos não conseguia precificar o risco e colocava um prêmio elevado demais. Na outra ponta, quem queria vender topava qualquer preço”, lembra Sandra. “Em novembro, houve uma ponderação maior: quem quer comprar aceita taxas mais condizentes com o cenário e quem quer vender negocia taxas melhores, sem ‘queimar’ os papéis.”

O que o investidor deve fazer agora?

Mesmo com esses sinais de melhora, a volatilidade ainda está muito presente e continuará rondando o cenário em 2022. Por isso, a recomendação da especialista da Órama é que o investidor pessoa física continue preferindo os papéis mais curtos, que têm taxas ainda atraentes e trazem risco menor para o comprador. Ela cita o Tesouro Prefixado 2024 e o Tesouro IPCA para o mesmo ano como papéis com boas oportunidades de compra, em função dos retornos oferecidos.

Vencimentos mais longos também têm boas oportunidades, mas muita volatilidade, então só servem para quem realmente está olhando para horizontes mais longos, como a aposentadoria. São pessoas que pretendem carregar o título e utilizá-lo como um instrumento para a manutenção do poder de compra [no caso do Tesouro IPCA], aproveitando os juros reais ainda na casa dos 5%”, define.

Ela acrescenta que o portador poderá tanto levar os títulos até o vencimento como aguardar um momento vantajoso para resgatá-los antecipadamente, com lucro. É a chamada marcação a mercado positiva, que ocorre quando há melhora do cenário macroeconômico e redução das taxas de juros.

Essa melhora pode vir, por exemplo, com um desfecho tido como favorável para o impasse com o Auxílio Brasil, ou com um tom mais moderado por parte de algum candidato à sucessão presidencial. Além disso, é esperada uma trégua na alta dos preços para o próximo ano.

“O IGP-M de ontem foi praticamente zerado. Se outros índices mostrarem que a inflação já chegou ao pico e será controlada, haverá um novo ajuste nos papéis [com taxas menores e preços maiores]”, afirma Sandra. “Temos boas safras, reduzindo os preços dos alimentos, e chuvas mais generosas, enchendo os reservatórios e viabilizando a redução das tarifas de energia.”

Os títulos pós-fixados continuam sendo uma recomendação segura e, na opinião de Sandra, devem ser a base das alocações em Tesouro Direto, com os outros tipos complementando a carteira. “Não dá para colocar tudo em pré e IPCA, sempre há riscos. O Tesouro Selic tem alta liquidez [sem marcação a mercado na revenda] e, como ainda estamos em um ciclo de alta de juros, vai continuar subindo”, ela justifica.

Para os investidores que assistiam às altas das taxas oferecidas e esperavam o melhor momento para montar posição com a maior taxa possível, o recado da economista é: não esperem demais, porque os próximos aumentos podem não acontecer.

“Ainda teremos volatilidade e, por isso, haverá boas taxas para comprar e carregar, mas já estamos mais próximos de um cenário de estabilidade. O que é muito positivo. É isso que a gente espera do mercado de renda fixa: que ele seja estável e efetivamente entregue a taxa prometida no momento da compra”, conclui Sandra.

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