O Banco Inter deu mais um passo em seu processo de migração da B3 brasileira para a Nasdaq norte-americana. A intenção de fazer esse movimento foi tornada pública pela companhia em maio, quando sua viabilidade ainda estava em estudo. Com a publicação de novo comunicado nesta quinta (7), os contornos da reorganização societária começam a ficar mais claros.

O primeiro passo será a incorporação de todas as ações do Inter por sua controladora direta, a Inter Holding Financeira. Em troca, a holding entregará ações resgatáveis emitidas por ela aos atuais acionistas.

Após a aprovação definitiva da incorporação em assembleia, a holding vai fazer o resgate dessas ações. Em seu lugar, os acionistas receberão BDRs que espelham ações classe A da Inter Platform na Bolsa americana ou, se preferirem, um montante em dinheiro correspondente ao valor econômico das ações do Inter que possuíam (é o chamado cash-out).

Uma vez concluído esse processo de reorganização, a base acionária do Inter brasileiro terá sido totalmente migrada para o “Inter americano”, que é a Inter Platform. As ações classe A da Inter Platform serão listadas na bolsa dos EUA, enquanto a B3 negociará no Brasil BDRs dessas ações – exatamente como os que os investidores atuais receberão. Os papéis atuais do Inter brasileiro (ações PN e units) deixam de existir.

Veja a seguir como fica a vida do investidor com essas mudanças e o que ele deve considerar antes de tomar sua decisão.

O anúncio da saída do Inter do Brasil tende a ser positivo ou negativo para as ações da empresa? O mercado recebeu a divulgação da melhor maneira possível: as ações preferenciais (BIDI4) saltaram 11,67% e as units (BIDI11), 12,06%. De acordo com os especialistas ouvidos pelo 6 Minutos, não se trata de empolgação passageira, já que a saída do Brasil será benéfica para a empresa de diversas maneiras.

Bruno Mansur, especialista da Valor Investimentos, diz que o ambiente da Nasdaq – que tem grande presença de empresas de tecnologia, como Amazon e Netflix – será muito favorável para a negociação dos papéis do Inter. “É uma Bolsa que vê esse tipo de fintech com olhos muito mais favoráveis. Essa exposição vai ter um reflexo muito positivo no valuation da empresa.”

Rafael Ragazi, sócio da Nord Research, pensa da mesma forma. “Essa queda de quase 50% no valor dos papéis do Inter de julho pra cá é um exemplo da falta de familiaridade que a B3 tem com esse tipo de ação, de tecnologia, de empresas em que o valor está muito mais concentrado no valor futuro que no atual. O mercado americano tem condições de fazer uma avaliação bem melhor.”

Ele acrescenta que a nova configuração societária vai trazer outras vantagens que, ao beneficiarem a empresa, farão suas ações se valorizarem. “O banco vai deixar de estar no controle e passar a ser o braço de uma holding. Isso vai tirar as amarras que existem sobre áreas que não estão sujeitas à regulação bancária, como o marketplace. Além disso, com as ações de classe B, que dão mais poder de voto aos controladores, a companhia terá mais facilidade para crescer.”

Em vez de receber os BDRs, posso optar por receber ações da Inter Platform nos EUA? O que compensa mais? Você pode, após ter recebido os BDRs, trocá-los na B3 pelas ações americanas que estão ali depositadas. “Assim como quem compra ADRs de uma empresa brasileira nos EUA pode transformá-los em ações brasileiras dessa empresa”, diz Mansur.

Como o BDR é um recibo brasileiro que representa a ação estrangeira, ele tem o mesmo comportamento e dá os mesmos direitos ao investidor, em termos de valorização e proventos. Mas existem algumas diferenças práticas entre eles, o que faz com que essa seja uma escolha pessoal de cada investidor. Para entender se é mais vantajoso para você ficar com os BDRs ou optar pelas ações americanas, leia esta reportagem do 6 Minutos, em que explicamos as vantagens de cada um dos caminhos.

“Para o pequeno investidor, ter ações lá fora pode não ser tão confortável. O Inter se propõe a ser simples, teríamos que ver se ele facilitaria a vida desse investidor, permitindo vender essas ações pelo aplicativo, por exemplo. Já o BDR dá mais comodidade, o investidor já vende em reais e não precisa ter medo de perder dinheiro na conversão de moedas”, compara Valéria Vieira, head de renda variável da RB Investimentos.

Mansur ressalta que tanto a ação americana como o seu BDR têm exposição cambial. Isso significa que a rentabilidade para o investidor é influenciada por duas variáveis: a variação da cotação do papel na Nasdaq e a oscilação do câmbio.

“Se a ação se valorizou 1% e o dólar subiu 1%, você terá um ganho de 2% no dia”, explica o especialista. “Mas há investidores que não vão querer ter na carteira a volatilidade que a exposição ao dólar traz. Para eles, será mais interessante receber [o valor das ações] em dinheiro.”

Se eu quiser receber a minha parte em dinheiro, como será feito o cálculo do valor econômico das ações que eu tenho hoje? Posso acabar sendo prejudicado? A ideia é permitir que, após a migração da base acionária para a Inter americana, cada acionista continue tendo a mesma participação sobre o capital social da empresa, sem nenhum prejuízo a ele. Como a companhia não pode obrigar o investidor a aceitar os novos papéis, é dada a opção do cash-out, em que o valor dessa participação é convertido em dinheiro.

Para isso, será feito um cálculo do valuation da empresa, por um avaliador independente, a ser indicado pelos membros independentes do conselho do Inter. O laudo de avaliação terá que ser aprovado pelo conselho e pela própria B3, que vai examinar as premissas e ver se não há distorções para cima ou para baixo nesse valuation.

“O laudo vai dizer que a empresa tem um valor X. Dividindo-se esse valor pelo número de ações, chega-se ao valor que será oferecido por ação para os investidores que optarem pelo cash-out”, explica Ragazi.

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