As incertezas em torno do Orçamento e a tendência de alta de juros no exterior devem fazer com que a turbulência para os títulos do Tesouro Direto se mantenha neste mês, segundo analistas especializados em renda fixa.

Em março, de 27 papéis, 25 ficaram no negativo. Como em meses anteriores, as principais vítimas foram títulos prefixados e aqueles atrelados à inflação. No acumulado do ano, o maior tombo é do Tesouro IPCA 2045, que é o papel vinculado à variação de preços de duração mais longa do mercado, que já afundou mais de 14%.

Veja abaixo os 20 papéis com maior queda no retorno em 2020 até agora (até 7 de abril).

TÍTULORENTABILIDADE NO ANO (em %)
Tesouro IPCA+-14,88
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais-13,17
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais-12,05
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-9,89
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais-9,81
Tesouro Prefixado-9,63
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-8,17
Tesouro Prefixado-7,77
Tesouro IPCA+-7,72
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais-7,19
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-6,57
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-6,52
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-6,04
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-5,92
Tesouro IPCA+-4,45
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais-3,5
Tesouro Prefixado-2,98
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais-2,73
Tesouro IPCA+-2,23
Fonte: Tesouro Nacional

De acordo com a analista de renda fixa da XP Investimentos, Camilla Dolle, essa volatilidade está relacionada principalmente com a aprovação do Orçamento de 2021, que foi votado com uma série de emendas que extrapolam muito a quantidade de despesas permitidas pelo teto de gastos.

“O que estamos vendo desde o ano passado é que o protagonista desses movimentos nos títulos continua sendo o risco fiscal. Antes, a principal discussão era sobre o auxílio emergencial, e agora está se discutindo bastante o orçamento”.

Até o final deste mês, o presidente Jair Bolsonaro deverá decidir sobre o Orçamento, e a expectativa é que parte dessas emendas seja vetada, reduzindo o impacto sobre as contas públicas.

“Estamos com a incerteza muito elevada, e sem perspectivas positivas para o curtíssimo prazo. O ministro Paulo Guedes vem falando em veto, mas ao mesmo tempo não sabemos se isso pode piorar a relação do governo com o Congresso, o que atrapalharia o andamento das reformas”, explica Guilherme Artmann, chefe de renda fixa da corretora Easynvest.

Além disso, já começa a se falar em tendência de alta de juros no exterior, o que ajuda a retirar a atratividade dos títulos de dívida brasileira.

Afinal, o que fazer se você tem títulos públicos com rentabilidade em queda na mão? 

De acordo com Artmann, tudo depende de em qual momento você comprou e do vencimento dos papeis.

“Quem entrou em março do ano passado, ainda tem gordura nessas taxas, então pode ficar tranquilo. Se comprou em dezembro de 2020, achando que o cenário ia melhorar, esse é um cara que está sofrendo bastante, porque a situação é bem diferente do que estava se projetando no final do ano passado”, explica.

Para ele, nesse caso pode ser interessante migrar de um prefixado com queda de retorno para um Tesouro Selic, por exemplo, que apesar de estar entregando um retorno muito baixo, é menos sujeito à volatilidade.

Para Dolle, da XP, o melhor caminho é se manter atento e observar as tendências de mercado neste mês. “A dica é entender bem o momento em que estamos e pensar o perfil e objetivos com o investimento. Não estamos vendo uma deterioração a ponto de recomendar a saída desses papeis”.

Os preços de muitos títulos estão baixos. É o momento de entrar? 

Para o chefe de renda fixa da Easynvest, pode até haver oportunidades de ganhar com essa queda nos preços dos títulos, mas essas chances acabam se restringindo a investidores profissionais, com um conhecimento aprofundado do mercado.

“No Brasil já estamos pensando em 2022, e, ao que tudo indica, a disputa vai ficar entre Bolsonaro e Lula, que é um cenário bastante ruim do ponto de vista dos investidores. Há uma pressão fiscal muito grande. Entrar agora em títulos prefixados ou atrelados à índices de preço é só para quem está muito atento e consegue entrar e sair com facilidade desses papeis”.

Os juros futuros e as projeções para a inflação estão subindo. Isso não deveria fazer a rentabilidade aumentar? Quando se fala de títulos prefixados e atrelados à inflação, o raciocínio é exatamente o contrário. Se o prêmio sobe, o título se desvaloriza.

Para entender a razão, vamos imaginar que você compra um título prefixado para 2024 que paga juros de 3%. Após alguns meses, as expectativas do mercado mudam, e os investidores passam a ver juros de 5% nesse período de tempo.

Como esses títulos são negociados com frequência, se você fosse vender teria que dar um “desconto” de 2 pontos percentuais para compensar essa diferença, já que quem compra hoje acredita que os juros estarão em 5%.

O mesmo raciocínio vale para títulos atrelados a índices de inflação, como o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e o IGPM (Índice Geral de Preços – Mercado).

Essa precificação constante de ativos é chamada de “marcação a mercado”.

 

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