Sejamos honestos: confiança é peça-chave na hora de fazer qualquer investimento. Ninguém aplica seu dinheiro suado sem confiar no histórico de retorno, no gestor do fundo ou na segurança dos negócios de uma empresa. É esse o principal desafio da indústria de investimentos de impacto social: conquistar a confiança dos pequenos investidores e do mercado de capitais. Com pouco histórico que permita comparações, o segmento precisa de credibilidade para crescer.

Como esse desafio está sendo enfrentado? Por enquanto, a estratégia para gerar confiança e atrair investidores tem sido a mescla de filantropia, capital público e financiamento misto (blended finance).  “A filantropia atua como um colchão garantidor para o recurso financeiro”, explica Lelo Coelho, à frente do Programa Vivenda, que reforma casas na periferia da cidade de São Paulo. A empresa conseguiu R$ 5 milhões. Desses, 40%, vieram da filantropia e o restante, do mercado de capitais.

Pode explicar melhor? O capital filantrópico ou público, usado para fomentar o desenvolvimento, é alocado em uma empresa de impacto e atrai o capital tradicional, habituado a olhar apenas risco e retorno. “Cada R$ 1 de filantropia traz entre R$ 2 e R$ 3 de capital financeiro”, conta Marco Gorini, responsável por blended finance da Din4mo, aceleradora e estruturadora financeira de empresas de impacto social. Foi ela uma das  responsáveis pelas debêntures do Programa Vivenda.

Para dar mais segurança ao processo, a exemplo do que é feito nos investimentos convencionais, os gestores e as empresas que estruturam os produtos financeiros (debênture, participação acionária, título verde) analisam o plano de negócios das companhias de impacto. A Din4amo, por exemplo, só decide estruturar o financiamento de empresas que passaram por seu próprio programa de inovação e desenvolvimento. “Assim entendemos melhor o negócio e conseguimos ajudá-los no desenvolvimento e na redução do risco do investimento”, explica Gorini.

O exemplo da Vox Capital: A gestora tem uma plataforma de equity crowdfunding, nome dado ao investimento coletivo e online em empresas. Nocaso da Vox, entram na plataforma apenas startups que usam tecnologia para gerar impacto social. A companhia também investe nas startups disponíveis na plataforma, conta o co-fundador Daniel Izzo.

“Se a meta da rodada de investimento é R$ 1 milhão, a Vox entra com R$ 500 mil”, exemplifica Izzo. Ou seja, tanto projeto quanto o modelo de negócios da startup passaram pelo crivo da Vox. Em 2019, um projeto piloto de crowdfunding foi feito para a startup Diáspora Black, marketplace de turismo pela cultura afro-brasileira – 100% da meta foi alcançada. Novos negócios devem entrar na plataforma ao longo de 2020.

Saber o destino do dinheiro importa: Para André Melman, diretor-executivo da Trê Investidores com causa, que seleciona negócios de impacto social para ajudá-los a se financiar, outra fronteira para aumentar a confiança é permitir que o investidor saiba com precisão o destino do recurso. “Será importante comunicar os efeitos de impacto, seja com indicadores ou narrativa (storytelling) de como era e como está a área para a qual o dinheiro foi direcionado”, diz Melman. Aos poucos investidores deverão entender para onde o recurso está indo, e o que volta, além do retorno financeiro.

Esse será outro diferencial da indústria de investimento convencional. Hoje o investidor até consegue saber em que empresas os fundos de investimento faz aportes, mas com atraso de três meses e é o cotista que deve buscar a informação no site da CVM.

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