A semana que terminou na sexta-feira (31) marcou a primeira leva no calendário de balanços de empresas brasileiras. Nos últimos dias, nomes de peso como Vale, Petrobras, Bradesco e Santander divulgaram seus resultados financeiros do segundo trimestre e mexeram com o mercado. O desempenho dessas empresas é uma boa base para as perspectivas sobre a duração da crise econômica causada pelo coronavírus.

Commodities sofreram menos

Vale e Petrobras, que correspondem a aproximadamente 20% da composição do Ibovespa, reportaram resultados melhores que o esperado. A mineradora registrou um lucro líquido de aproximadamente R$ 5 bilhões no segundo trimestre, impulsionada pelos preços elevados do minério de ferro no mercado externo pela demanda da China, cuja economia já está de volta à normalidade.

“Quase 90% das exportações da Petrobras foram para a China. A empresa nunca tinha vendido tanto assim para o país”, diz Henrique Esteter, analista de renda variável da corretora Guide Investimentos. Ele afirma que essa demanda chinesa está beneficiando as empresas exportadoras, especialmente as de commodities.

A estatal brasileira de petróleo registrou um prejuízo de R$ 2,7 bilhões entre abril e junho, um resultado negativo, mas bem melhor que o do primeiro trimestre, quando o prejuízo foi de R$ 48 bilhões. “No início do trimestre tivemos aquela enorme crise do petróleo, com o barril cotado abaixo dos US$ 20 dólares, o que afetou os resultados”, lembra Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa Investimentos.

Ele disse que apesar de as receitas terem sido mais fracas, a Petrobras registrou um avanço nos custos de produção. No segundo trimestre a estatal focou sua produção no pré-sal, que alcançou 61% de todo o óleo extraído no período. O custo de produção ficou abaixo dos US$ 5. “Isso mostra que mesmo em momentos de muito estresse no mercado, o pré-sal continua viável”, diz Arbetman.

As ações ordinárias da Petrobras (negociadas com o tíquer PETR3) caíram 2,1% no dia em que o balanço foi divulgado. Já os papéis preferenciais (PETR4) caíram 1,5%. As ações da Vale (VALE3) caíram 2,7% após a divulgação do balanço. É importante dizer que os papéis da Vale estão em um nível maior do que antes da pandemia do coronavírus, impulsionados pela cotação do minério de ferro.

Bancos em baixa

Quem até agora saiu bastante chamuscado da divulgação dos balanços foram os bancos. O Santander reportou seus resultados na quarta-feira (29) e revelou uma queda de 40% no lucro. Além disso, o banco, que tinha provisionado um volume bem menor que seus concorrentes no primeiro trimestre, precisou fazer uma reserva maior para os calotes. No total, o valor provisionado entre abril e junho chegou a R$ 3,2 bilhões — o dobro registrado no mesmo período do ano passado.

O Bradesco também viu uma queda no lucro da ordem de 40% e fez provisões extras. Mais R$ 3,8 bilhões foram separados para cobrir a inadimplência, além dos R$ 2,7 bilhões que já tinham sido provisionados no primeiro trimestre.

Os balanços dos bancos indicam que o pior da queda econômica pode ainda estar por vir, com um aumento no desemprego e recuo da renda após o fim do pagamento do auxílio emergencial. Esteter, da Guide, lembra que as ações dos bancos não tiveram o mesmo ritmo de recuperação que o Ibovespa, pois os investidores estão bastante pessimistas com os efeitos da crise sobre o setor financeiro.

“A perspectiva de retomada não foi corroborada por esses resultados. Os bancos devem continuar para trás”, diz ele. As ações do Bradesco caíram 3,5% depois da divulgação do balanço, e as do Santander recuaram 1,5%.

Consumo doméstico

Apesar de nenhuma varejista ter divulgado seus resultados ainda, o desempenho de algumas empresas indicam o rumo do consumo doméstico. A principal delas foi a Cielo, e as notícias não foram nada boas. A empresa de pagamentos registrou um prejuízo de R$ 75 milhões entre abril e junho — o primeiro resultado trimestral negativo da história.

“A Cielo é um bom termômetro, porque ela tem grande correspondência com o setor de serviços”, diz Arbetman, da Ativa. Ele diz que a queda no volume transacionado e a diminuição na base de clientes mostram o estrago que o fechamento de comércios causou no setor. As ações da Cielo caíram 3,5% após a divulgação dos resultados.

o GPA, dono das marcas Pão de Açúcar, Extra e Assaí, registrou uma receita fortíssima no Brasil — quando incluídos os resultados de Colômbia, Argentina e Uruguai, o lucro caiu pela metade. A receita bruta consolidada do GPA saltou 61,1% no segundo trimestre, para R$ 22,9 bilhões, dos quais R$ 17,1 bilhões vieram da unidade brasileira.

Com desempenho ainda melhor que o principal concorrente, o Carrefour Brasil teve alta de quase 75% no lucro do segundo trimestre, impulsionado pela aceleração das vendas em meio à pandemia e pelo controle de despesas. O lucro chegou a R$ 713 milhões, ante R$ 408 milhões em igual período de 2019.

“Esses resultados mostram que o setor de supermercados foi bem resistente. Houve uma estocagem de produtos em abril, e depois uma consolidação do consumo”, diz Arbetman, da Ativa.

Transporte

A Gol multiplicou seu prejuízo por 10 em relação ao ano passado, e registrou um rombo de quase R$ 2 bilhões. Afetada pelo fechamento das fronteiras aéreas, a companhia até reduziu suas despesas, mas continua com problemas operacionais. As ações da Gol caíram 3,5%. Ela foi a primeira empresa do setor a divulgar resultados no Brasil, e deu um bom indicativo sobre como as companhias aéreas foram atingidas pela pandemia.

Por fim, a Localiza, maior locadora de carros do Brasil, até conseguiu ter lucro no segundo trimestre, mas apenas metade do resultado alcançado no mesmo período de 2019. A empresa teve lucro líquido de R$ 89,9 milhões de abril a junho, queda anual de 53%. Os investidores receberam bem o fato de a empresa ter ficado no positivo, e as ações da Localiza saltaram 10% após a divulgação do balanço.

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