O setor de varejo tem tomado o lugar da construção civil no posto de protagonista dos IPOs do ano. No total, a bolsa de valores deve ter oferta de ações de 18 empresas de segmentos relacionados ao comércio físico e online em 2020, frente a 20 construtoras ou incorporadoras. Apesar de serem mais numerosas, as ofertas do setor de habitação não têm brilhado tanto quanto as de empresas do varejo.

Prova desse destaque foi o IPO da Petz, loja de produtos para animais de estimação, realizado na semana passada. As ações da empresa registraram alta de mais de 20% no primeiro dia de negociação, e o valor movimentado foi o maior entre os IPOs do ano — R$ 3 bilhões.

O calendário de oferta de prevê ainda a estreia de empresas como Tok&Stok, Kalunga, Track&Field e Havan. A última pode ter o maior processo de abertura de capital do ano, com uma arrecadação de R$ 7 bilhões a 10 R$ 10 bilhões.

“Apesar de não termos os preços ainda desses IPOs, tudo indica que serão ofertas grandes. É possível que a abertura de capital de uma única dessas grandes varejistas seja maior que todas as ofertas das construtoras juntas”, opina Eduardo Guimarães, analista da casa de análise Levante.

Veja abaixo a lista das empresas do varejo que já estrearam ou que devem estrear na bolsa:

EmpresaSegmentoData do IPORecursos levantados no IPOVariação das ações desde a oferta
Grupo SomaModa31/07/2020R$ 1,8 bilhão3%
Farmácias D1000Farmácia10/08/2020R$ 400 milhões-32%
Lojas Quero-QueroMaterial de construção10/08/2020R$ 2,2 bilhões18,6%
Farmácia Pague MenosFarmácia02/09/2020R$ 747 milhões9,4%
PetzProdutos para animais de estimação11/09/2020R$ 3 bilhões8,7%
Tok&StokCasa e decoração-Até R$ 2 bilhões*-
Grupo MateusSupermercados-Até R$ 6,2 bilhões*-
KalungaPapelaria-Até R$ 2 bilhões*-
Farmácia NisseiFarmácias-Até R$ 1 bilhão*-
Wine.com.brVinhos-Até R$ 1 bilhão*-
MeliuzCupons e recompensas-Até R$ 800 milhões*-
Enjoei.com.brModa-Até R$ 1 bilhão*-
Lojas Le BiscuitDecoração e papelaria-Até R$ 1,5 bilhão*-
HavanCasa, decoração e eletros-Até R$ 10 bilhões*-
Track & FieldModa-Não informado-
CSD - Companhia Sulamericana de Distribuição Supermercados-Não informado-
PernambucanasModa-Não informado-
Supermercados Assaí Supermercados-Não informado-
*estimativa

O que esperar desses IPOs? O número de operações já garante o sucesso para as empresas que estão na fila da listagem da bolsa, mas é preciso avaliar se há boas oportunidades para o investidor. IPOs podem ser uma boa ocasião para embarcar em uma empresa promissora e tirar proveito da valorização que eventualmente vier depois, mas esse conceito está sob risco nesse momento em que os ativos de varejo da bolsa estão completamente descolados da economia real.

As ações das principais varejistas brasileiras (Magazine Luiza, B2W e Via Varejo) bateram o maior patamar da história, e estão acima da cotação registrada antes de a pandemia chegar, quando a expectativa de crescimento da economia era de mais de 2%. Mesmo com um PIB que deve cair em torno de 5% no ano, o valor dessas empresas não foi abalado.

A razão-chave para isso foi o crescimento das vendas digitais durante a quarentena, impulsionadas pelo fechamento do comércio físico. A expectativa do varejo é que esse salto dado nos últimos meses quebre paradigmas de consumo e sustente as vendas daqui para a frente.

“O e-commerce está crescendo 200%, mas no varejo como um todo ele representa só 5% das vendas.  O mercado foi à loucura com as vendas digitais, mesmo o varejo estando no olho do furacão da pandemia”, diz Bruce Barbosa, sócio da casa de análise Nord. Ele diz que mesmo as grandes varejistas, que têm grande presença no digital, tiveram os resultados impactados pela crise econômica, e que elas estão apertando as margens para tentar manter o consumo em pé.

Então os IPOs de varejo podem sair caros demais? Barbosa, da Nord, defende que algumas das empresas que serão listadas podem embarcar no sentimento de euforia que impulsionou as ações das grandes varejistas, chegando à bolsa por um valor mais alto. “Se você me perguntar se eu pagaria caro por empresas afetadas pela crise, eu diria que não. Principalmente por aquelas que têm uma exposição pequena ao e-commerce”, diz ele.

Já na visão de Bruno Komura, analista de ações da corretora Ouro Preto, é possível que as ofertas venham mais caras que o esperado, mas a leva de empresas que realizarão IPOs é boa. “As ofertas que estão no pipeline são, sim, mais focadas no varejo físico, mas são empresas diferentes, que não parecem com as que temos listadas na bolsa. Esse é um ponto positivo porque dá oportunidade para o investidor diversificar”, diz ele.

O caso da Havan é bastante emblemático, de acordo com Guimarães, da Levante. Ele diz que a empresa, apesar de ter uma estrutura física enorme, com mais de 100 lojas espalhadas em 17 Estados, é pouco competitiva no e-commerce. Por mais que o consumo em lojas físicas tenda a se recuperar nos próximos meses, o crescimento do desemprego deve deprimir o consumo, o que deixa o futuro da varejista mais nebuloso.

Como avaliar essas ofertas? O ponto principal é entender em quais segmentos a empresa atua, se ela foi beneficiada ou afetada pela pandemia, e qual a destinação do dinheiro levantado no IPO. “É importante olhar os múltiplos e comparar com empresas que já estão listadas. Estamos vendo ofertas novas saindo com múltiplos acima dos da Renner, por exemplo, que é vista como a melhor empresa de varejo de moda da bolsa”, diz Barbosa, da Nord.

O risco de investir em uma empresa cujo preço está alto é amargar uma correção pós-IPO. No caso da incorporadora Moura Dubeux, listada em fevereiro, as ações acumulam queda de mais de 50%. E ela não foi a única a derreter na bolsa: metade das empresas que estrearam em 2020 estão operando no vermelho.

“As incorporadoras estão em um contexto diferente. Como todas as grandes empresas estão capitalizadas, principalmente por ofertas na bolsa, os investidores estão mais criteriosos na hora de escolher onde investir”, diz Komura, da Ouro Preto.

Sobre o perfil das ofertas, Guimarães, chama atenção para o fato de muitas empresas estarem carregando a mão na proporção de ações secundárias ofertas. Os recursos levantados com esses papéis vão direto para o bolso dos antigos acionistas da empresa, e não necessariamente revertidos em investimentos e melhorias na empresa. Ou seja: é uma fatia do IPO que não gera valor para o negócio, e só para os antigos donos. “Isso não tem sido bem aceito. É sinal de que o investidor está alerta”, diz o analista

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