A ameaça de mudar ou furar o teto de gastos já mexeu com as projeções para o dólar deste ano. A tensão com o risco fiscal ganhou força nos últimos dias depois de o governo anunciar que pretende elevar o valor do Auxílio Brasil para R$ 400.

Até o fim da semana passada, a maioria das instituições e casas de análise estimavam que a moeda americana chegaria ao fim do ano sendo vendida por R$ 5. Agora, algumas revisões foram feitas elevando a projeção para R$ 5,55 – e há quem diga que a divisa pode bater os R$ 6. Nesta quinta (21), o dólar à vista fechou em alta de 1,90%, a R$ 5,6683 na venda, maior patamar para fechamento desde 14 de abril. Com isso, já acumula alta de 4,1% em outubro e 7,01% no ano.

“Com a declaração sobre o teto de gastos do ministro Paulo Guedes, acho perfeitamente possível a moeda chegar a R$ 6. Há uns dois meses, diria que seria muito difícil isso acontecer. Hoje, já não acho. O governo ainda não furou o teto de gastos, mas só o aviso já deu uma alta boa na cotação da moeda. Se isso se concretizar, a tendência é que suba ainda mais e pode chegar na casa dos R$ 6″, afirma Zeller Bernardino, especialista em câmbio da Valor Investimentos.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizou na quarta-feira que o governo pode furar o teto de gastos, em R$ 30 bilhões, para custear o Auxílio Brasil, que começa a ser pago em novembro.

“Guedes era o ponto forte do governo, em linha com o mercado. Quando ele dá uma declaração dessas, os investidores enxergam muito mal. O mercado já não tem a confiança toda que tinha antes nele, mas ainda o considerava como uma âncora dentro do governo”, afirma Bernardino.

Para João Augusto Salles, economista da Senso Corretora, o dólar pode chegar mais próximo dos R$ 6, mas que cravar neste valor é um exagero. “A moeda pode beliscar os R$ 6, mas é muita especulação. Se o teto de gastos for respeitado, o dólar cai. Se tiver a ruptura, aí sim pode chegar aos R$ 5,80.”

No ano passado, a moeda fechou a R$ 5,18. Das instituições que fazem projeções para o dólar, só a Nécton, por enquanto, elevou sua sua estimativa para R$ 5,55.

InstituiçãoProjeção atualProjeção anterior
BradescoR$ 5,15R$ 5,00
BTG PactualR$ 5,30R$ 5,00
ItaúR$ 5,25R$ 5,00
NectonR$ 5,55R$ 5,40
Óramaentre R$ 5,30 e R$ 5,40entre R$ 5,20 e R$ 5,30
SantanderR$ 5,25R$ 5,05
XPR$ 5,20R$ 4,90

Por que a projeção está cada vez mais alta? Bernardino diz que o valor do câmbio oscila baseado na execução da política fiscal e monetária. Hoje, o BC tem atuado para aumentar os juros e controlar a inflação, além de injetar dólares no mercado futuro por meio de swaps para segurar o valor do câmbio. No entanto, o que resolve, no longo prazo, é uma política fiscal bem executada.

“Mesmo em dias que o Banco Central coloca moeda no mercado, não tem sido suficiente. Esse tipo de medida tem efeito imediato, mas é mais de curto prazo. O que traz efeito no longo prazo é uma boa política fiscal em conjunto com a monetária. As medidas fiscais estão mais distantes, até porque temos eleição no próximo ano. Isso faz com que muitas casas elevem as projeções de dólar”, afirma Bernardino.

A aprovação de reformas, por exemplo, entra no pacote de medidas fiscais citadas pelo especialistas.

Estimativas pré-tensão fiscal

Antes mesmo da tensão fiscal se acirrar, as instituições já haviam revisado para cima a estimativa de dólar para o final do ano. O BTG Pactual, por exemplo, aumentou a projeção de R$ 5 para R$ 5,30, afirmando que os próximos meses devem ser mais desafiadores ao país.

“A Reforma do Imposto de Renda e os gastos com precatórios, que estão ligados diretamente à discussão de reformulação do Bolsa Família, podem mudar a percepção do mercado em relação às contas públicas, considerando que a paralisação no Congresso dos temas que citamos pode resultar em novos benefícios sociais capitalizados através de crédito extraordinário, ou seja, maior pressão fiscal e, por consequência, alta no prêmio de risco da economia brasileira”, afirma o BTG.

O Itaú havia elevado a projeção em R$ 0,25, para R$ 5,25, motivado pelo aumento das incertezas globais e domésticas. “A elevação da taxa Selic, no entanto, compensa, pelo menos parcialmente, tais efeitos, contribuindo para alguma apreciação da moeda em relação aos patamares atuais, porém, menos intensa do que esperávamos”, afirma relatório.

Hoje, a Selic está em 6,25% e o Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne mais duas vezes neste ano para ajustar a taxa básica de juros.

Ontem, a Órama aumentou as projeções, mediante ao novo cenário fiscal. Antes, esperavam que a moeda ficasse entre R$ 5,20 a R$ 5,30 e agora, entre R$ 5,30 e R$ 5,40. Apesar da moeda ter chegado a patamares ainda mais altos, a casa entende que os leilões do BC devem ajudar a conter a alta, assim como o aumento da taxa de juros brasileira e nos Estados Unidos.

O Bradesco aumentou a projeção em R$ 0,15 e o Santander, em R$ 0,20.

Já a Necton figura entre uma das instituições mais pessimistas e espera que o dólar chegue a R$ 5,55 no final deste ano. “Está suficientemente claro que o governo deve de fato romper o teto de gastos, e esta é uma nova informação que deve ser incorporada às percepções do mercado”, disse o economista-chefe da corretora, André Perfeito, em comentário divulgado a imprensa.

Além do cenário doméstico, as instituições também consideram um aumento de risco no exterior, com a resolução do teto da dívida do governo dos Estados Unidos, adiada para dezembro, as sinalizações do Fed (Federal Reserve) a respeito da política monetária e o ritmo da economia chinesa, que desacelerou no terceiro trimestre deste ano.

Preço atual do dólar x projeção

Na sessão desta quinta, o dólar fechou cotado a R$ 5,66, valor ainda distante da projeção das instituições.

“Temos visto que a questão política deve se intensificar e o investidor, de um modo geral, está vendo isso. Com um cenário mais arriscado, a tendência é que o dólar suba. Caso haja menos conflito, reformas andando e um cenário externo mais controlado, devemos perceber uma queda na cotação”, afirma Bernardino.

Com o aumento do risco, os investidores estrangeiros tendem a tirar dinheiro do Brasil e passa a valer a lei da oferta e da procura: quando menor a quantidade de dólares no mercado, maior o seu valor. “O que interessa para o investidor é a questão fiscal. Precisamos resolver esse grande gargalo do Brasil, que já existe desde o início do governo Dilma e piorou com a pandemia. Um país que não honra os compromissos não atrai investidores”, afirma.

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