O Ibovespa fechou com declínio discreto nesta quinta-feira (5), por receios com os cenários político e fiscal no país e pela queda de Vale, que ofuscou a disparada de Petrobras após resultado acima das expectativas e antecipação de dividendos.

O índice de referência da bolsa brasileira cedeu 0,14%, a 121.632,98 pontos.

Já o dólar fechou em alta de 0,57%, cotado a R$ 5,216.

O que aconteceu com a Bolsa? Pela manhã, o céu era de brigadeiro, com o índice disparando no embalo da Petrobras, cujos papéis chegaram a ter ganhos superiores a 10% após a divulgação do balanço da empresa. A petrolífera superou com folga expectativas no mercado, com lucro de R$ 42,86 bilhões no segundo trimestre. A empresa também anunciou que aprovou antecipação de dividendos de R$ 31,6 bilhões.

Mas isso não foi suficiente para garantir um dia tranquilo. As perdas da Vale e de siderúrgicas começaram a pesar, assim como o receio fiscal, turbinado pelo comunicado “duro” do Copom na véspera.

O Comitê garantiu pelo menos mais um aumento de 1% para a próxima reunião e, pelas sinalizações dadas, passou a ser conservador apostar que a Selic chegará em 7,25% ainda este ano — o que fez a parte curta da curva de juros inclinar ainda mais e já mirar a casa de 8% no ano que vem.

“Para ajudar na inclinação da curva, que por si só reduz o apetite por risco e pressiona setores como construção e varejo, existem muitas dúvidas sobre o rumo do fiscal após Bolsonaro confirmar ontem um aumento de 50% para o novo Bolsa Família sem uma contrapartida clara de receita”, diz Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

A equipe da XP Investimentos destacou que a sinalização de aceleração no ritmo de novas altas para a taxa Selic é ligeiramente negativa para a bolsa, uma vez que o custo de capital das empresas deve subir mais depressa que o esperado.

Ainda no radar doméstico estão desdobramentos do ambiente político do país e riscos fiscais, em meio à tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) e planos do governo de parcelar o pagamento de precatórios.

Entre os destaques do pregão, Braskem recuou 4,17% mesmo tendo reportado um lucro multibilionário no segundo trimestre, de R$ 7,424 bilhões, refletindo a combinação de melhores preços para seus produtos químicos e o efeito da alta do real contra o dólar.

Vale caiu 3,19%, em sessão negativa para o setor de mineração e siderurgia como um todo no Ibovespa, com CSN tendo perda de 3,96%. Os futuros do minério de ferro na China terminaram em queda de quase 5% nesta sessão, na mínima em quase quatro meses.

O que aconteceu com o dólar? O alívio pós-Copom durou pouco, e o dólar fechou em alta nesta quinta-feira, acima dos R$ 5,20, puxado por forte estresse no mercado de juros futuros em decorrência da escalada de tensões fiscais e políticas no país.

O dólar à vista subiu 0,57%, a R$ 5,216 na venda. O real saiu do melhor desempenho global entre as principais moedas na sessão para figurar entre os piores.

O BC elevou a taxa Selic em 1 ponto percentual na quarta-feira, a 5,25% ao ano, indicando que deve repetir a dose em setembro diante das pressões inflacionárias. Para domá-las, o BC também apontou que a necessidade agora é de uma taxa básica de juros acima do patamar neutro, ou seja, em nível suficiente para desaquecer a economia.

Um maior diferencial de juros entre o Brasil e países de economias avançadas tende a beneficiar o real, principalmente devido a estratégias de “carry trade”. Elas consistem na tomada de empréstimos em moeda de país de juro baixo e compra de contratos futuros de uma divisa de juro maior (como o real), de forma que o investidor ganha com a diferença de taxas.

Embora deva receber apoio do Banco Central mais hawkish, ou duro com a inflação, o real ainda pode ser pressionado pelo cenário fiscal doméstico, agitado recentemente pela intenção do governo de alterar a dinâmica de pagamento de precatórios.

Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para parcelamento dos precatórios irá prever a constituição de um fundo alimentado com recursos que terão destinação carimbada e ficarão fora do teto de gastos.

Críticos avaliam que ela representa uma maneira criativa de o governo aumentar substancialmente os gastos em ano eleitoral ao adotar uma espécie de calote para o pagamento de dívidas – visão que a equipe econômica rechaça.

Maiores altas:

Petrobras ON (+9,36%)
Petrobras PN (+7,88%)
Magazine Luiza (+2,51%)

Maiores baixas:

Bradespar (-5,11%)
Braskem (-4,17%)
CSN (-3,96%)

Com a Reuters

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