Com o avanço da vacinação no Brasil, as ações ligadas ao consumo presencial, como shoppings centers, varejistas, turismo e concessionárias de rodovias vêm chamando cada vez mais a atenção dos investidores. A lógica é: no momento em que a demanda reprimida puder se realizar, a tendência é que esses papéis ganhem tração.

Há algumas dúvidas em torno desse raciocínio, entretanto. São elas: até que ponto esse momento já não foi antecipado pelo mercado e está refletido nas cotações atuais? E se ainda não foi precificado, como se diz no jargão do mercado financeiro, qual a razão? Quais os riscos que ainda temos pela frente, antes de uma ampla reabertura da economia?

Para entender esses pontos, o 6 Minutos conversou com alguns analistas. Veja abaixo o que descobrimos.

Afinal, quais as ações que mais sofreram com a pandemia? 

A Bolsa como um todo sofreu com o pico da pandemia, mas as mais afetadas foram as empresas que não tiveram como reagir de pronto ao isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus, que começou no final de março do ano passado.

Entre as ações mais afetadas no início da crise, estão as de companhias aéreas (Azul e Gol), fabricantes de aviões (Embraer), empresas de turismo (CVC), empresas de educação (como a Yduqs), varejistas (Hering) e petroleiras (Petrobras).

“Todas elas tiveram quedas em torno de 70% do valor de mercado”, aponta o economista Virgílio Lage, assessor da Valor Investimentos. “Isso vale até mesmo para a Hering, que fechou temporariamente 40% das suas lojas e cancelou a coleção de verão da época que seria lançada para evitar o excesso de estoque”.

Outros casos de papéis que sofreram bastante são concessionárias de rodovias, empresas de shoppings e os bancos.

E todas já voltaram? Quais ainda estão “descontadas”? 

Muitas dessas ações já recuperaram o patamar pré-pandemia e foram além –que o diga a própria Hering, que já subiu mais de 90% nos últimos 12 meses impulsionada não pela reabertura, mas pela fusão com o Grupo Soma.

Algumas, entretanto, ainda estão “descontadas”, e ainda não recuperaram totalmente o seu valor de antes da crise, como por exemplo a concessionária de rodovias CCR, a Yduqs, a administradora de shoppings brMalls, a empresa de biscoitos e massas M. Dias Branco e a CVC.

“Por outro lado, outras, como a B2W, a Natura e a Magazine Luiza, que já estavam à frente no comercio online e tiveram uma retomada expressiva após a crise, possuem hoje valores das suas ações acima de antes da covid”, aponta Lage, da Valor.

Para o presidente da casa de análises Ohmresearch, Roberto Attuch, os bancos também podem se beneficiar do processo de reabertura. “O problema é que o ambiente competitivo está bem complicado. Mesmo que as fintechs não estejam tendo tanto efeito assim sobre os números, estamos vendo investidores estrangeiros, como Warren Buffet e JP Morgan, se interessando pelo mercado brasileiro”.

Isso quer dizer que as que já recuperaram o valor pré-pandemia não tem potencial de subir mais? 

Não. Na avaliação dos analistas, mesmo algumas ações que recuperaram o valor do pré-pandemia podem ser consideradas atrasadas em relação ao Ibovespa, por exemplo, que subiu mais de 30% nos últimos 12 meses.

É por isso que parte do mercado vem cada vez mais considerando essas ações em seus portfólios. “Temos nos posicionado bem para a reabertura. Acho que o Brasil está seis meses atrás dos Estados Unidos, onde muita coisa já está operando acima do pré-pandemia. E acreditamos que o Brasil vai seguir os passos dos EUA e de alguns outros países que já passaram pelo pior da crise”, afirma Scott Hodgson, gerente de portfolio da Galapagos Capital.

Para ele, qualquer segmento que se beneficie da reabertura pode ser interessante. “Nos meses a seguir, essa vai continuar sendo a tendência, além de commodities e bancos”, avalia.

Outro ponto é que o crescimento da economia está sendo maior do que o esperado.

“De certa forma, a volta de muitas atividades já está precificada, muitas ações voltaram ao nível pré-pandemia. Mas como ainda teremos um crescimento forte neste ano, os resultados podem surpreender”, afirma Attuch. “O mercado é sempre otimista, mas ao mesmo tempo costuma errar para baixo quando estamos saindo de recessões grandes como a que tivemos no ano passado. Por isso tem espaço para algumas histórias individuais de sucesso”.

E quais os riscos? 

Na avaliação de analistas, existem dois tipos de perigo à frente: um é o chamado risco sistêmico, ou seja, de a Bolsa como um todo cair, seja por fatores externos, seja por fatores domésticos.

Isso vai depender principalmente dos próximos passados do Fed (banco central dos EUA) em relação à inflação americana e do clima político no Brasil. “O mercado está um pouco nervoso por causa da discussão sobre a inflação em um momento em que o crescimento americano chegou ao pico”, avalia Attuch.

O risco não sistêmico é de algumas empresas perderem lucratividade ao longo do tempo. “Empresas grandes podem ter impactos em certos momentos como essas crises, mas ao longo do tempo se provam duradouras e em bom crescimento. São essas as melhores para se investir a longo prazo”, diz Lage.

A recomendação é nunca limitar sua decisão de investimento simplesmente ao fato de uma empresa ter ou não condições de ganhar valor por causa da reabertura: essa é uma das variáveis a ser observada. “Tem que avaliar como que a empresa passou por essa crise, se consumiu caixa ou não”, avalia Attuch. “Saber se a empresa investiu mais em digitalização, que é uma tendência que veio para ficar, também é importante”.

 

 

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