Quem vê a queda rápida do dólar frente ao real pode imaginar que o Brasil está fazendo as pazes com os investidores estrangeiros – a moeda americana saiu de R$ 5,46 no final de junho para R$ 5,17 ontem, dia 29. Mas não é bem assim. Embora a moeda dos Estados Unidos esteja em trajetória da desvalorização, esse efeito não está necessariamente relacionado a uma melhora nas condições econômicas brasileiras. O dólar está enfraquecido no mundo todo.

O índice DXY mede o valor da moeda americana frente a outras moedas fortes, como o euro, a libra e o iene. Depois de alcançar o pico em março, o índice vem caindo consecutivamente, e já encolheu quase 10%. O mesmo aconteceu com moedas mais fracas. O indicador MSCI EM, que acompanha o valor de moedas emergentes (inclusive o real) frente ao dólar, subiu 40% desde março. Apesar disso, pelo menos em relação ao real, a moeda americana guarda uma valorização de quase 30%.

“Quando a crise do coronavírus se agravou, ainda em fevereiro, as coisas começaram a ficar mais nebulosas, e aí houve uma corrida para o dólar. Mas agora moeda está enfraquecendo globalmente, principalmente contra o euro”, diz Thomas Gibertoni, especialista em investimentos da gestora Portofino.

E por que isso está acontecendo? O enfraquecimento do dólar tem a ver com a piora das condições fiscais nos Estados Unidos. Gibertoni lembra que o saldo negativo nas contas públicas do país já alcançou os US$ 2,8 trilhões, o que significa um déficit primário de aproximadamente 15%. Para se ter uma ideia, antes da crise do coronavírus o governo americano havia aprovado uma projeção de déficit quatro vezes menor que a atual.

“E tem mais um pacote de estímulos de US$ 1 trilhão que será votado no Congresso nos próximos dias”, lembra o especialista da Portofino.

O endividamento mexe com o valor da moeda local, pois interfere na disponibilidade de liquidez. Explicando de forma bem simples, os Estados Unidos estão imprimindo mais moeda para estimular as empresas e consumidores locais. Como o número de dólares em circulação está aumentando, a moeda passa a valer menos que antes.

Tá bom, mas como isso afeta a nossa vida? A pergunta que muita gente tem se feito é se o real vai continuar se valorizando, fazendo com que o dólar volte a ficar abaixo dos R$ 5. Para Gibertoni, a probabilidade de isso acontecer é pequena.

“Os investidores não estão vendendo dólares e comprando outras moedas. Antigamente era assim, mas agora essa migração está sendo em grande parte para o ouro“, explica ele. A cotação do ouro, aliás, chegou ao maior valor da história nesta semana, reforçando a imagem do metal como porto-seguro no momento de crise.

A expectativa dos economistas ouvidos pelo boletim Focus é de que o dólar fique na casa dos R$ 5,20 no final do ano, o que indicaria que a moeda americana não tem grande tendência de queda em relação ao patamar atual. Nesta quarta-feira (29), o dólar fechou cotado a R$ 5,17.

Inflação e juros

Como muitos dos produtos que consumimos são influenciados pela cotação do dólar, a variação da moeda americana é observada atentamente pelo Banco Central para a elaboração da política de juros. No entanto, os produtos dolarizados não têm encarecido como o esperado, e isso tem a ver com a fraca demanda econômica. A gente explica melhor esse assunto em outra matéria.

O repasse cambial costuma ser calculado da seguinte forma: a cada repique de 10% no dólar, a inflação pode subir 0,5 ponto percentual. A valorização do dólar no ano está próxima de 30%, o que levaria a um aumento de 1,5% na inflação — isso só em razão da moeda. No entanto, o IPCA acumulado entre janeiro e junho foi de apenas 0,1%.

“Vemos que o BC não está se preocupando muito com a desvalorização cambial, tendo em vista que o repasse para a inflação está mínimo”, diz Gibertoni, da Portofino.

Em relatório, Alejandro Ortiz Cruceno, analista da corretora Guide, atribuiu essa falta de sintonia do dólar com a inflação como principal razão para a espera por um novo corte na Selic, a taxa básica de juros. Os economistas acreditam que o BC vai reduzir a Selic em 0,5 ponto percentual na próxima reunião, levando a taxa para 2% ao ano.

Comércio exterior

Embora esteja perdendo força agora, é importante lembrar que o dólar continua em um patamar mais elevado do que o de antes da pandemia. Que o real fraco ajuda nas exportações não é novidade, mas o momento é bastante atípico. Como o Brasil vende principalmente commodities para o exterior, e como essa demanda não diminuiu significativamente, por causa da volta da normalidade na China, as exportações estão em um quadro muito favorável.

Por outro lado, o dólar alto penaliza as importações, que são compostas principalmente por itens de maior valor agregado. A questão é que a economia local está paralisada, e por isso a demanda por esses produtos também caiu. Isso tem criado superávits comerciais consistentes.

“No segmento de máquinas, por exemplo, as empresas não estão trazendo novos equipamentos, pois a capacidade produtiva está ociosa”, lembra Gibertoni.

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