Bolsa em alta, dólar em baixa. Em maio, com uma bateria de bons balanços do primeiro trimestre e uma retomada mais forte que o esperado da economia, os mercados conseguiram driblar a tradição de pessimismo com o mês e apresentaram um bom desempenho, apesar da correção para baixo verificada nos preços das empresas ligadas a commodities, que vinham subindo ao longo do ano.

No mês em que a bolsa conseguiu bater o seu recorde histórico, ultrapassando os 126 mil pontos e registrando alta de 6,16%, os grandes ganhadores foram o setor imobiliário (shoppings e incorporadoras), bancos e empresas ligadas ao consumo, como varejistas. É real oficial: o ditado “sell in May and go away” (venda em maio e vá embora) foi oficialmente suspenso em 2021.

O Imob (Indice Imobiliário) registrou expansão de 7,14%, o Índice Financeiro subiu 6,87%, e o Índice de Consumo, 6,51%. Na outra ponta, perderam valor principalmente os índices de BDRs (papéis que replicam o comportamento de ações gringas), com queda de 3,85%, e o Imat (materiais básicos, como commodities), que caiu 3,27%.

Os dois índices foram afetados pela queda do dólar, que fechou o mês em queda de 3,79%, a R$ 5,22. Isso ajudou na correção de preços das ações de exportadoras, que sofreram com as indicações da China que as cotações estão subindo de forma excessiva. E afetou diretamente os BDRs.

Maio ainda foi o mês que ficou marcado pela forte queda na cotação do bitcoin, que tombou 62,3% após o presidente-executivo da Tesla, Elon Musk, fazer críticas à moeda digital. 

Realização de lucros e compra de ações que “ficaram para trás”

Os setores campeões da Bolsa foram beneficiados por uma espécie de mini rotação de carteiras no quinto mês do ano. Quem estava muito posicionado em ações ligadas à exportação de matérias primeiras realizou lucros, e se voltou para papéis que “ficaram para trás” ao longo do ano.

“O setor imobiliário e os bancos estavam bem espremidos, descorrelacionados em relação a outros setores”, aponta Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos. “As commodities e o petróleo vinham subindo, mas chega uma hora que o mercado fala: está na hora de realizar lucros de curto prazo. Aí acabam indo atrás de ações interessantes que ficaram para trás”.

A divulgação de bons balanços do primeiro trimestre, em especial no caso do setor imobiliário, surpreendeu e estimulou esse movimento. “O mercado estava um pouco receoso, mas a maioria das construtoras veio com resultados bons”, avalia o analista da Toro. “Isso foi um movimento meio generalizado. Mais da metade das empresas do Ibovespa reportou resultados acima da expectativa, o que fez os investidores projetarem tendência altista para o Ibovespa”.

É a mesma avaliação de Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos.  “Construção civil vinha performando abaixo do Ibovespa desde o começo do ano, apesar dos juros tão baixos fazerem a demanda por crédito imobiliário subir muito”, explica. “Os bancos, nos últimos 12 meses, ficaram bem atrás do índice, mas os resultados mostraram perspectivas não tão negativas”.

Atividade econômica reagiu além do que era esperado

Essa melhoria também tem a ver com a reação da atividade econômica, que vem sendo melhor do que a esperada. Semana a semana, analistas vêm reajustando para cima suas projeções para o desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021, e na semana passada o Itaú Unibanco, por exemplo, elevou sua previsão de alta de crescimento de 4% para 5%.

“Com a retomada da economia, as varejistas foram bem”, lembra Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo, apontando que os resultados trimestrais também ajudaram essas empresas. “É uma combinação de resultados corporativos bons com a retomada da economia. Isso também aconteceu nos Estados Unidos”.

A alta na atividade e a inflação, entretanto, vem fazendo o mercado apostar cada vez mais também na alta dos juros básicos. Foi esse fator que penalizou o Ifix, índice de fundos imobiliários, que foi o terceiro que mais caiu no mês. “A alta nos juros não é uma novidade, mas vem impactando os fundos imobiliários. O receio é que esse aumento faça a demanda por imóveis se reduzir”, lembra Panonko.

E como vem junho?

Os especialistas são unânimes em avaliar que a vacinação será um dos fatores importantes para determinar o desempenho do Ibovespa em junho. “É um dos triggers [gatilhos], já que era esperado que a vacinação se intensificasse ao longo de maio, o que não aconteceu. Se a velocidade de imunização aumentar nas próximas semanas, o mercado pode reagir positivamente”, analisa Oliveira, da Valor.

Outros pontos que serão acompanhados com atenção no mercado interno serão as cotações das commodities, a CPI da Covid e o andamento das reformas. Lá fora, os olhos estarão voltados para os dados de inflação nos Estados Unidos. Uma alta de preços muito expressiva pode levar o Fed (banco central dos EUA) a aumentar juros, reduzindo o fluxo de recursos para emergentes como o Brasil.

De qualquer forma, a maior parte dos analistas está otimista. “A tendência para a Bolsa é positiva, está batendo recorde. A grande preocupação é inflação, risco do setor hídrico, mas de forma geral o ambiente externo tem favorecido o Ibovespa”, afirma Knudsen, da Vitreo.

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