O setor de academias demorou para entrar na Bolsa. Mas, poucos meses após a estreia da Smart Fit, mais um nome do segmento fitness já se prepara para abrir capital. Trata-se da Blue Fit, que agendou seu IPO para o dia 28 de setembro, com reservas até esta quinta-feira (23). Ela vai distribuir 32,7 milhões de ações ordinárias, com a possibilidade de emitir um lote adicional de 6,5 milhões e outro suplementar de 4,9 milhões de ações.

O preço da ação será fixado na sexta, dia 24 de setembro – a faixa indicativa foi determinada entre R$ 12,25 e R$ 15,25 por ação. Se ficar apenas nos 32,7 milhões de ações inicialmente pretendidos e conseguir R$ 13,75 por ação, que é exatamente o preço médio da faixa indicativa, a oferta inicial da rede de academias poderá captar R$ 450 milhões. A captação líquida, já descontadas as despesas do IPO (como advogados, contadores, auditores, impostos e custas), será de cerca de R$ 409,4 milhões.

Para analisar o IPO da Blue Fit, a Suno Research examinou aspectos que vão do modelo de negócios da empresa às perspectivas do setor. Veja quais são os pontos mais importantes trazidos pela casa de análises.

Quem é a Blue Fit? A rede de academias é a segunda maior do país no formato low-cost. Nascida em Santo André (SP) em 2015, chegou a 7 unidades no ano seguinte e hoje tem 102 filiais em operação, além de outras 33 com contratos assinados. Ela tem uma base de 200 mil alunos, distribuídos por mais de 50 cidades de 16 Estados das cinco regiões do país.

A expansão se deu por um modelo misto que combina unidades próprias e franquias. Os pontos são abertos em centros urbanos com pelo menos 200 mil habitantes, em bairros verticalizados, de densidade populacional alta.

Os espaços, em média com 1.300 m², têm um layout padronizado, possui equipamentos de musculação e cardio e oferece aulas coletivas de ginástica, danças e artes marciais. Há dois planos, Blue e Gold, com mensalidades entre R$ 99,90 e R$ 119,90.

“A Blue Fit busca se posicionar como um ‘value service‘. Isso significa que sua qualidade relativa – tanto pelas estruturas como pela oferta de diversas atividades coletivas – é superior à da maioria dos concorrentes, ao mesmo tempo que o preço cobrado costuma ser menor“, escreve a Suno.

O que ela pretende fazer com o dinheiro do IPO? A oferta é 100% primária, ou seja, os recursos levantados vão apenas para o próprio caixa da companhia. O foco do IPO é financiar a expansão da rede, tanto por meio do crescimento orgânico, com a abertura de novas unidades (55,6% do capital) como inorgânico, com a compra de outras franquias (44,4% dos recursos).

Não haverá oferta secundária, ou seja, nenhuma parte dos recursos vai para sócios que queiram vender ações. Isso pode ser entendido como um sinal de confiança no negócio.

Como está o mercado de academias no país? “A Blue Fit busca capturar a oportunidade de estar em um mercado crescente e ainda pouco penetrado no Brasil, que apresenta poucos usuários de academia, se levarmos em conta o tamanho do mercado endereçável”, pondera a Suno.

Há 29,5 mil academias no país, mas esse mercado é muito pulverizado, com certo grau de amadorismo em termos de gestão e qualidade dos serviços. Ao mesmo tempo, os brasileiros estão cada vez mais preocupados em cuidar do corpo e da saúde. Assim, há muito espaço para a expansão do modelo low-cost, com aparelhos modernos, serviços simplificados e mensalidades acessíveis, modelo esse que se expande também nos Estados Unidos e no Reino Unido.

“Portanto, a tese é de consolidação em um mercado que apresenta características de fragmentação, subpenetração e tendências sólidas de crescimento – um forte conjunto de vetores favoráveis à Blue Fit”, afirma a casa de análises.

Quais são os riscos a se considerar? A concorrência do segmento low-cost tem tudo para ficar cada vez mais acirrada. A Blue Fit tem a segunda maior operação do país, atrás apenas da Smart Fit, mas nada impede que outras redes repliquem esse modelo. “Nesse contexto, o negócio pode passar por dificuldades para atrair e reter clientes, bem como para negociar os pontos, tão importantes e cada vez mais disputados”, pondera a Suno. “E a Smart Fit largou na frente e hoje tem escala e digital mais robustos.”

Os franqueados, que conduzem 38% das unidades da rede, têm independência em termos de gerência e administração das operações. E isso pode gerar conflitos com a padronização de qualidade que é premissa do modelo da Blue Fit e gerar danos de imagem e reputação para a marca, nos casos em que esses padrões não forem cumpridos.

Vale a pena entrar no IPO? Apesar de enxergar que há muito potencial no setor, já que uma adesão maior da população pode trazer novas avenidas de crescimento ao negócio, a Suno Research vê o IPO com ressalvas.

Ela projeta que a Blue Fit conseguirá em 2030 a mesma base de 780 mil clientes que a Smart Fit já tem hoje. E que o capital necessário para financiar essa expansão é considerável.

“Parece sobrar pouco dinheiro para o acionista. Quem comprar a ação pagará por um crescimento que pode não se concretizar, tendo em vista os desafios concorrenciais em um segmento que cresce muito (e atrai outras empresas replicando seu modelo de negócio)”, alerta a casa de análises. “Por isso, recomendamos não aderir à oferta da Blue Fit.”

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