Apesar de o dólar ainda acumular uma alta de quase 40% em relação ao real em 2020, o recente processo de desvalorização global da divisa americana pode estar mascarando uma perda de valor ainda maior da moeda brasileira.

Prova disso é que hoje são necessários mais de R$ 6,50 para comprar um euro e impressionantes R$ 7,20 para adquirir uma libra, o maior patamar para essas moedas da série histórica.

No ranking das divisas que tiveram as maiores altas em relação ao real neste ano, a dos EUA aparece apenas na 13ª posição, com alta de 37%. Encabeçam a lista moedas como a coroa sueca, o euro, o franco suíço e o iene, entre outras.

O dólar perdendo força no mundo

Mas por que essa perda de valor ainda mais intensa da nossa moeda em relação a outras divisas que não o dólar?

A resposta está no fato de que a moeda americana, depois de subir para um recorde em março, vem “perdendo cartaz”, por assim dizer, nas últimas semanas.

O índice DXY, que calcula o comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de divisas fortes, já recuou mais de 4% do início de julho para cá, em uma virada rápida puxada pela preocupação com danos estruturais da pandemia de coronavírus à maior economia do mundo.

“O dólar se enfraqueceu muito de 30, 40 dias para cá, muito por causa do pacote de estímulo e o impacto fiscal que pode ter na economia americana”, afirma Thomás Gibertoni, especialista de investimentos da Portofino. “A Europa parece estar lidando com a crise um pouco melhor, e o diferencial que os Estados Unidos tinha em relação a essas economias está se perdendo”.

Não por acaso, é principalmente a moeda da zona do Euro que está ganhando força em relação ao dólar. “Se você olhar para as outras moedas, o comportamento não é tão diferente. É o euro mesmo que está ficando mais forte em relação ao dólar”, aponta Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas).

O fato de os EUA estarem em um ano de eleições presidenciais, que tornam o cenário mais instável, também colabora para esse cenário.

Causas da perda de valor do real

A fraqueza do real em relação a outras moedas pode ser explicada por um conjunto de fatores: a forte redução dos juros básicos no Brasil, a tendência de que a atividade econômica doméstica sofra mais que a internacional com a crise e as incertezas em torno da continuidade da nossa agenda de reformas fiscais.

Esse cenário já vinha ocorrendo desde 2016, quando o Banco Central começou a reduzir nossa taxa básica, hoje em 2% ao ano, e ganhou muita tração com a crise.

“Os emergentes estão se enfraquecendo em relação a economias estabelecidas porque, sobre eles, o impacto econômico e fiscal é muito maior. É só olhar o que aconteceu com a moeda sul africana, com a lira turca, o peso mexicano”, aponta Gibertoni, da Portofino.

Isso afetou todos os países em desenvolvimento, mas o Brasil foi especialmente prejudicado: o real foi a moeda que mais perdeu valor em 2020, com a exceção nada honrosa do bolívar da Venezuela.

“Para o Brasil, o prêmio é ainda maior, porque além do pacote econômico de auxílio emergencial representar 10% do nosso déficit, ainda estamos passando por um ajuste muito forte e de longo prazo nos nossos juros”, afirma.

Limites para a desvalorização

Para Marçal, da FGV, a tendência é que o real brasileiro interrompa esse processo de perda de valor por uma razão bastante simples: o câmbio desvalorizado acaba estimulando bons resultados na balança comercial.

“Quando a pandemia aconteceu foi um choque generalizado, que provocou uma corrida para o dólar, para o euro. No caso do Brasil, esse movimento foi muito forte, e isso puxou o câmbio para quase R$ 6. Mas quando os investidores perceberam que as exportações estavam crescendo e as importações se reduzindo, houve uma redução desse movimento”.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.uol.com.br/whatsapp.