Se em janeiro o mercado esperava que o Ibovespa se recuperasse dos percalços de 2020, a realidade veio bem diferente da expectativa. O principal indicador da bolsa brasileira fechou o último pregão do ano com alta de 0,69%, a 104.822 pontos, mas acumulou perda anual de 11,8%.

A última vez que a bolsa tinha fechado um ano no vermelho foi na recessão de 2015, quando o Ibovespa acumulou perda de 13,3%. Em 2020, mesmo em meio à pandemia, conseguiu fechar o ano com alta de 2,92%.

“Iniciamos o ano de 2021 com o Ibovespa puxado pela euforia de final de ano, com o fluxo positivo da recuperação das economias mundiais com o avanço da vacinação. Em fevereiro, o mercado passou a ter mais volatilidade, com a eleição dos novos presidentes do Congresso. Na metade do ano, o STF determinou o pagamento dos precatórios e foi aí que a situação começou a degringolar”, afirma Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

A questão fiscal foi pauta presente em praticamente todo segundo semestre, aumentando a aversão ao risco por parte dos investidores. “A questão dos precatórios acendeu a luz amarela. Quando começamos a ver uma os poderes batendo cabeça e a questão fiscal ficou mais visível ao mercado, passamos a nos descolar do resto do mundo”, afirma Moliterno.

De acordo com dados enviados pela Economatica, as ações que mais subiram em 2021 foram Embraer, Braskem e JBS. Em contrapartida, as maiores quedas ficaram com Magazine Luiza, Via e Pão de Açúcar.

O setor de commodities foi o grande destaque em 2021. “O ano foi positivo para as commodities, o que segurou o Ibovespa e fez com que subissem muito no início de 2021. Tivemos um boom do minério de ferro, do petróleo. Os setores com maiores altas são de commodities e proteínas. Na outra ponta, os destaques negativos ficaram com varejo e construção civil”, afirma Thales Nóbrega, sócio da Marco Investimentos.

Para Nóbrega, a incerteza marcou muitos pregões e justifica a maior volatilidade da bolsa. Em junho de 2021, por exemplo, o Ibovespa bateu o recorde e chegou a marca de 130 mil pontos.

“O mercado financeiro gosta de previsibilidade. Sem entrar no mérito político, uma das grandes quedas de braço entre o mercado e o governo de Jair Bolsonaro é o fato do presidente Bolsonaro passa muita imprevisibilidade ao mercado. A incerteza faz com que as empresas não consigam prever os próximos passos para se ajustar”, afirma Nóbrega.

Maiores altas do ano no Ibovespa:

  1. Embraer (EMBR3): +180,45%
  2. Braskem (BRKM5): +176,29%
  3. JBS (JBSS3): +75,75%
  4. Marfrig (MRFG3): +73,04%
  5. Petrorio (PRIO3): +47,24%
  6. Petrobras (PETR3): +30,37%
  7. Méliuz (CASH3): +29,66%
  8. Gerdau (GGBR4): +25,32%
  9. Gerdau Met. (GOAU4): +23,69%
  10. Petrobras (PETR4): +23,51%

Apesar do ano ter sido duro para as companhias do setor aéreo, principalmente no final do ano com o avanço da ômicron, a Embraer foi o grande destaque, com alta de 180,45% no ano. A resposta para a alta é simples: a empresa se uniu com companhias internacionais para lançar o eVTOLs, sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical.

“A Embraer está vindo com essa nova empresa que vai se associar para desenvolver o carro voador. Em cima disso, a ação teve uma performance excepcional. No ano passado, a empresa também sofreu bastante no preço das ações, já que, por causa da pandemia, o número de encomendas de aeronaves caiu. Então a base de comparação era baixa”, afirma Moliterno.

A Braskem também teve forte valorização, subindo 144,51% em 2021. Hoje, a companhia é uma joint venture da Odebrecht e da Petrobras e os papéis foram bastante penalizados por questões políticas envolvendo as empresas.

“A Braskem tem um pouco a ver com sua questão societária. Esse ano teve uma movimentação de ajustar as perdas anteriores. A Odebrecht vai sair da empresa assim como a Petrobras, ajudando a valorização. Além disso, houve uma recuperação no preço do petróleo”, afirma Moliterno.

JBS e Marfrig, do setor de frigoríficos, também aparecem na lista. Como são empresas bem posicionadas no exterior, foram beneficiadas pelo aumento do preço da carne e pela alta demanda pelo produto.

“Por causa da gripe suína, que dizimou os rebanhos na Ásia, os mercados precisaram buscar o ocidente para se abastecer, aumentando a demanda da proteína. O setor também foi beneficiado pela questão cambial”, afirma Moliterno.

A lista deixa claro que esse foi o ano das empresas de commodities na bolsa, com altas no preço do petróleo, do minério de ferro e da carne.

“As empresas de commodities e de proteína são do setor de exportadores. A alta do dólar acabou ajudando essas companhias, porque tivemos um consumo alto no mundo como um todo, seja por comida, seja de itens para construção de infraestrutura, com o minério de ferro e o petróleo”, afirma Nóbrega.

Maiores baixas do ano no Ibovespa:

  1. Magazine Luiza (MGLU3): -71,04%
  2. Via (VIIA3): -67,51%
  3. Pão de Açúcar (PCAR3): -62,77%
  4. Americanas (AMER3): -58,23%
  5. Eztec (EZTC3): -51,71%
  6. Natura (NTCO3): -51,56%
  7. IRB Brasil (IRBR3): -50,86%
  8. Qualicorp (QUAL3): -47,71%
  9. Cogna Educação (COGN3): -46,87%
  10. Lojas Americanas (LAME4): -45,35%

As varejistas apareceram no noticiário do mercado com certa frequência, muitas vezes figurando entre as maiores baixas do Ibovespa. Magazine Luiza, Via e Americanas estão entre as maiores baixas do indicador. São muitas questões que motivam as grandes quedas: o aumento da inflação e dos juros, da concorrência na bolsa de valores e as altas valorizações em 2020, aumentando a base de comparação.

“Em 2020, as pessoas começaram a conhecer mais o e-commerce. As empresas surfaram na alta e foram destaque de alta no ano passado. Quando a inflação dispara e tira poder de compra do consumidor, somada ao aumento de juros, as empresas são impactadas. Os juros altos também são ruins para o nível de endividamento da empresa, porque as varejistas usam muitos financiamentos para continuar a operação, encarecendo o crédito”, afirma Moliterno.

O setor de construção civil tem um movimento parecido com as varejistas. Com a inflação e juros mais altos, os consumidores ficam receosos de investirem em um bem tão caro quanto um imóvel, além de encarecer os custos de financiamentos imobiliários.

“A Eztec, como todas empresas do setor, teve uma queda acentuada, que vai na mesma linha do varejo e na insegurança da economia. O setor é dependente de uma estabilidade para que as pessoas consumam os produtos ofertados”, afirma Moliterno, que salienta que empresas focadas em classe média alta e alta não sentem tanto os impactos da crise como companhias que apostam em imóveis destinados a classes mais baixas e classe média.

A alta do preço dos insumos também é parte da explicação, já que diminui a margem de lucro das empresas. Os preços do aço e do concreto, por exemplo, dispararam, matérias essenciais para construções.

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