Apesar das turbulências causadas pela guerra comercial, a bolsa de valores brasileira avançou 9% desde janeiro. Aos trancos e barrancos, o Ibovespa tem se preservado no campo positivo, principalmente pelos bons resultados das empresas listadas. Mas como nem tudo são flores, há aquelas que estão sendo penalizadas pelos investidores e acumulam desvalorização de dois dígitos.

6 Minutos ouviu especialistas para saber quais são essas empresas, por que elas estão sendo vistas com tanto pessimismo e se vale a pena aproveitar o momento de baixa para comprar as ações. (Spoiler: para uma delas, a resposta é sim). Veja abaixo:

Gafisa

A construtora passou por um período conturbado entre 2018 e 2019, quando a GWI, gestora do sul-coreano Mu Hak You, assumiu o controle. Entre as várias decisões contestáveis, a GWI usou o caixa da Gafisa para comprar ações da própria empresa. Como a cotação dos papéis continuou em queda, a operação resultou em prejuízo.

Em fevereiro, a GWI teve que repassar o controle para a corretora Planner, que se tornou a principal acionista individual da Gafisa. Desde então, a construtora tem tentado se reerguer, mas os resultados ainda são ruins. Isso justifica a queda de quase 70% no valor das ações desde o início do ano.

A receita líquida da Gafisa caiu quase 65% em relação ao ano passado, principalmente por causa do congelamento de novos projetos. “Os números não animam o investidor, e a empresa está retomando as discussões sobre como ficará a gestão”, analisa Luís Sales, analista da corretora Guide Investimentos. Ele diz que, neste momento, outras empresas de construção com o mesmo perfil têm resultados mais atrativos, como Cyrela, Eztec e Even.

Braskem

A empresa foi contaminada pelo pedido de recuperação judicial da Odebrecht. Embora a construtora não seja a única dona da Braskem (a Petrobras detém 36,1% das ações, e outros 25,5% estão pulverizados no mercado entre diversos acionistas), os papéis detidos pela Odebrecht foram dados como garantias em uma série de empréstimos. Desde janeiro, a cotação das ações despencou 44%.

Em julho, a Justiça de São Paulo concedeu liminar aos credores da construtora, permitindo que eles ficassem com as ações da Braskem que foram dadas como garantia. Antes disso, as tentativas de venda da empresa petroquímica para o grupo holandês LyondellBasell não foram bem-sucedidas. Diante desse cenário, não se sabe ainda quem será o futuro principal controlador da empresa.

Soma-se a isso a investigação do Ministério Público sobre o afundamento de um bairro de Maceió, em Alagoas. A exploração de sal-gema em uma mina da Braskem teria causado rachaduras e fissuras em casas da região, levando à remoção de mais de 600 famílias do local. É possível que a empresa seja chamada para indenizar as famílias e o governo.

Ultrapar

O grupo Ultra, dono dos postos Ipiranga, da empresa de gás Ultragaz, da química Oxiteno e da rede de farmácias Extrafarma, está vivendo uma tempestade perfeita. Os últimos resultados divulgados pela empresa mostram que ela perdeu participação de mercado no segmento de combustíveis para concorrentes como a Shell. “Foi um erro de estratégia de preço”, diz Sales, da Guide.

Ele acrescenta que a empresa está abrindo mão de caixa para financiar a expansão agressiva da rede da Extrafarma. Vale lembrar que o ramo farmacêutico é dominado por gigantes como Raia Drogasil e DPSP (dono das drogarias Pacheco e São Paulo) e que a briga com as concorrentes ainda é de Davi contra Golias.

Por fim, a Liquigás, principal concorrente da Ultragaz, deve ser vendida pela Petrobras e está sendo disputada por alguns grupos de investidores. A favorita é a Itaúsa, holding de negócios da família Setubal, também dona do Itaú. A Ultragaz chegou a tentar comprar a Liquigás, mas o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) barrou a fusão no ano passado.

Nas mãos de um grupo grande, a Liquigás deve receber uma injeção de recursos, o que tende a alimentar a competição do setor. Por todos esses fatores, as ações da Ultrapar registram queda de quase 40% no ano.

Suzano

Com a fusão da Suzano e da Fibria, no final do ano passado, as perspectivas eram muito otimistas –afinal, o negócio reunia as duas maiores empresas de celulose do país. Mas a guerra comercial entre Estados Unidos e China esfriou a produção da indústria no país asiático, o que derruba o consumo de derivados da celulose — como o papel, por exemplo.

Os estoques de celulose na China estão nos maiores níveis históricos, e a cotação está em queda. Para tentar evitar perdas maiores, a Suzano tem sido obrigada a reduzir a produção.

Com a imprevisibilidade dos desdobramentos da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo, os investidores estão fugindo dos papéis de empresas afetadas diretamente pela briga — a Suzano é uma das principais. As ações da empresa acumulam baixa de 26% desde o início do ano.

Mas para Sales, da Guide, ainda há uma luz no fim do túnel. “A questão da celulose é cíclica e deve se normalizar em um prazo de 6 a 9 meses”, diz.

Por ser uma empresa sólida, líder no setor em que atua, a Suzano pode representar uma boa oportunidade de compra — embora os papéis da empresa ainda possam se desvalorizar um pouco mais.

Usiminas

A Usiminas sofre, também, os efeitos da guerra comercial. Assim como a celulose, a cotação do minério de ferro está em baixa, pela expectativa de demanda menor da China. Não só a indústria chinesa está crescendo menos mas a construção civil — grande consumidora de aço e outros produtos do minério — esfriou.

A construção civil brasileira também está recuando. Dados do primeiro trimestre mostram que a construção civil caiu 2% em relação ao mesmo período do ano passado. As projeções mostram que o segundo trimestre também foi negativo — o que indica demanda interna também fraca.

Além disso, a Usiminas é grande produtora de aços longos, que têm como destino principal a indústria automotiva. Os números de vendas de automóveis no mercado doméstico estão em recuperação, com alta acumulada de 11%. Mas há um alto grau de incerteza no setor, principalmente por causa da crise Argentina, grande importadora de veículos brasileiros.

O mercado precificou todos esses problemas: no ano, as ações da Usiminas acumulam baixa de 21%.

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