O agravamento da crise econômica do país, evidenciada pela piora de indicadores como inflação e juros, tem levado muitas empresas a adiar planos de abertura de capital. De acordo com dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), 59 companhias cancelaram o processo de listagem de ações na B3 em 2021. O número é quase três vezes maior do que as 20 desistências contabilizadas em 2020.

O final de outubro, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou a taxa Selic para 7,75% ao ano, em uma tentativa de frear a escalada inflacionária. Uma nova alta, da mesma magnitude ou maior, deve ocorrer em dezembro.

Essa elevação da taxa de juros, um dos mecanismos de política monetária para o controle da inflação, tem reflexos no mercado de capitais. É que existe correlação negativa entre a remuneração de aplicações financeiras atreladas à Selic e o apetite do investidor, destaca o analista da Suno João Daronco.

“Quando aumenta a renda fixa, a gente vê uma fuga da renda variável. Isso torna o mercado menos favorável aos IPOs, porque existe menos disposição de correr riscos e as avaliações das empresas acabam se depreciando”, afirma Daronco.

Para o analista da Suno, a retomada dos IPOs só deve ocorrer quando os indicadores macroeconômicos do país derem sinais de melhora. “De uma forma geral, o desempenho macroeconômico está correlacionado com os IPOs. Se o Brasil vai bem macroeconomicamente, as empresas têm mais facilidade de fazer o IPO, porque vai ter mais investidor estrangeiro e mais disposição para pagar o valor pedido nas ofertas iniciais.”

Janela no primeiro trimestre de 2022?

O diretor executivo do grupo Stratus, Álvaro Gonçalves, vislumbra possibilidade de o primeiro trimestre de 2022 servir como uma janela de oportunidade para as empresas realizarem abertura de capital antes de os ruídos políticos associados à campanha eleitoral começarem. “Mesmo com a elevação da taxa de juros, ela ainda se encontra em patamares negativos em termos reais. O investimento em boas empresas do setor privado segue como a melhor opção para quem busca reservas de valor de qualidade. Isso ainda deve dar fôlego ao mercado.”

Daronco vê com pessimismo as perspectivas para os principais indicadores, que só devem apresentar resultados melhores com o avanço da agenda de reformas. Não é para este caminho que o governo tem apontado recentemente.

O governo apoia a mudança do teto e gastos para financiar um novo programa social, o Renda Brasil. O projeto é considerado peça chave na campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

“Historicamente, anos de eleição são muito conturbados, cheios de volatilidade, o inimigo principal de empresas que buscam IPO. As empresas que desejam fazer IPO geralmente ficam de fora em períodos como esse, porque os investidores não estão dispostos a correr nenhum risco adicional”, diz Daronco.

No entanto, ele lembra que os resultados divulgados pelas empresas nos balanços têm surpreendido positivamente o mercado e podem injetar ânimo nos investidores no início de 2022 e tornar o cenário mais favorável às aberturas de capital antes de o debate eleitoral se acirrar.

“Tudo que existe na Bolsa são ciclos. No início de 2021, víamos um otimismo exacerbado das pessoas. Seis meses depois, todos achavam que o país iria acabar. Eu acho que esses ciclos refletem o ânimo do mercado. Eu não ficaria surpreso se esse ânimo melhorasse à medida que as empresas apresentarem seus resultados. O desempenho delas tem sido bem superior ao que se esperava. Nesse sentido, ter uma janela no início do ano que vem é possível”, afirma.

 

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).