Muito se disse sobre a quantidade recorde de IPOs que foram realizados em 2021. Uma série de fatores contribuíram para que diversas empresas tomassem a decisão de abrir o capital para financiar projetos e alavancar seu crescimento. Entre eles, estavam o otimismo com a retomada da economia e o ambiente de juros ainda baixos, que favorecia o investimento em Bolsa, atraindo o interesse da pessoa física. Foram 45 estreias no ano até agora.

Mas o IPO é apenas o início de uma jornada, tanto para a companhia como para seus investidores. E, depois de uma estreia muitas vezes carregada de expectativas, é nos meses seguintes que as novatas da Bolsa começam a mostrar os resultados que são capazes de apresentar. Para quem apostou nelas, o resultado esperado é a valorização das ações, seguindo o roteiro esperado de que uma empresa é alçada a um novo patamar de valor depois do IPO.

O problema é que as coisas não estão saindo dentro desse roteiro para mais da metade das empresas que abriram capital em 2021. Um levantamento da Nord Research apurou que, das 45 estreantes, nada menos que 26, ou 57,7% das empresas, estão apresentando retorno negativo. Isso significa que suas ações estão sendo negociadas mais barato que no primeiro dia de comercialização na Bolsa.

Empresa e tickerValorização desde a data do IPO
Vamos Logística (VAMO3)+130,00%
Intelbras (INTB3)+97,90%
Boa Safra (SOJA3)+41,90%
GPS Participações (GGPS3)+40,70%
PetroRecôncavo (RECV3)+36,30%
Orizon (ORVR3)+26,60%
CBA (CBAV3)+24,80%
BR Partners (BRBI11)+22,80%
Armac (ARML3)+16,30%
Blau Farmacêutica (BLAU3)+14,00%
Jalles Machado (JALL3)+13,30%
Viveo (VVEO3)+13,00%
Smart Fit (SMFT3)+11,30%
Vittia Fertilizantes (VITT3)+11,30%
Infracommerce (IFCM3)+6,30%
Allied (ALLD3)+5,80%
Hospital Mater Dei (MATD3)+5,50%
Eletromidia (ELMD3)+4,50%
Desktop (DESK3)+3,80%
Kora Saúde (KRSA3)-1,39%
Raizen (RAIZ4)-4,10%
G2D Investimentos (G2DI33)-5,00%
ClearSale (CLSA3)-7,00%
Livetech (LVTC3)-13,80%
Banco Modal (MODL11)-14,40%
Caixa Seguridade (CXSE3)-14,50%
Espaço Laser (ESPA3)-16,30%
Brisanet (BRIT3)-22,10%
3Tentos (TTEN3)-22,40%
Focus Energia (POWE3)-23,40%
Bemobi (BMOB3)-24,50%
CSN Mineração (CMIN3)-25,10%
Unifique (FIQE3)-26,90%
HBR Realty (HBRE3)-30,80%
Oncoclinicas (ONCO3)-31,80%
Multilaser (MLAS3)-32,50%
TradersClub (TRAD3)-32,60%
Agrogalaxy (AGXY3)-38,20%
Mosaico (MOSI3)-41,40%
Getninjas (NINJ3)-43,00%
Dotz (DOTZ3)-43,10%
Cruzeiro do Sul (CSED3)-46,40%
Oceanpact (OPCT3)-65,00%
Westwing (WEST3)-65,90%
Mobly (MBLY3)-67,60%

“Os investidores se empolgaram com os IPOs e havia a impressão de que era possível entrar em qualquer um deles e ganhar dinheiro”, diz a analista Danielle Lopes, sócia da Nord Research e responsável pelo levantamento. “Muitas dessas empresas de fato subiram nos primeiros dias. Mas quem tivesse investido capital nelas hoje estaria perdendo dinheiro.”

O que está acontecendo?

Para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, o revés nos IPOs se deve principalmente a fatores conjunturais. O otimismo de alguns meses atrás deu lugar a uma mudança de humor do mercado, e hoje o mar não está mais para peixe.

“O ano está sendo muito negativo. Se você olhar os índices relacionados, o Brasil se descolou dos outros mercados. É um contexto muito desafiador para qualquer empresa que esteja abrindo capital”, afirma.

Cruz explica que empresas recém-entradas na Bolsa são investimentos arriscados por natureza. Muitas delas têm volume baixo de negociação, se tornam small caps e não recebem uma cobertura adequada por parte de bancos e casas de análise. Com isso, o mercado acaba não tendo um volume de informação que seja suficiente para endossar uma decisão de investimento.

“Os gestores só querem investir quando veem espaço para valorização. Ações com volume baixo são desafiadoras, é difícil até sair do papel e estabelecer um preço para a posição”, ele justifica. “O contexto está tão desfavorável que não se torna interessante colocar na carteira uma empresa recém-chegada. O gestor acaba preferindo papéis mais defensivos. É por isso que os frigoríficos estão bombando: o investidor já sabe o que esperar deles.”

Danielle concorda que o momento da Bolsa penaliza as novatas e diz que a escalada da taxa de juros pegou muitas dessas empresas de surpresa. “A Mosaico abriu capital fazendo grandes promessas, e agora sai a notícia de que ela foi adquirida pelo Banco Pan. Isso nos sugere que ela, sozinha, não iria conseguir crescer tanto quanto esperava”, diz.

Apesar de reconhecer que a conjuntura macroeconômica é negativa, a analista diz que também é preciso considerar as questões individuais de cada case. “Se olhássemos apenas para o macro, não faria sentido a Caixa Seguridade estar caindo, já que o aumento da taxa de juros amplia suas margens”, afirma. “E também não dá para colocar empresas na mesma caixa só porque são do mesmo setor. A Boa Safra e a Agrogalaxy são agro, mas a primeira vai bem e a segunda está lá embaixo na lista.”

A analista não enxerga um caminho fácil para as novatas por enquanto. “O mercado está mais seletivo e não compra mais qualquer empresa com o mesmo entusiasmo. Quando passou a empolgação, o mercado entendeu que o dinheiro é finito.”

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