O mercado acionário nos EUA parecia imune à pandemia. Enquanto as empresas quebravam e o PIB despencava mundo afora, os papéis de grandes empresas de tecnologia estabeleciam marcas históricas. No caso do índice da Nasdaq, que mede especificamente o desempenho das empresas do setor, foram mais de 30 pregões recordes só em 2020.

Mas nos últimos dias, algo mudou. O índice Nasdaq, que concentra gigantes como Amazon, Apple, Tesla e Alphabet, encolheu quase 5% nos últimos dias e registrou o terceiro pregão consecutivo no vermelho. A Tesla, queridinha dos investidores em 2020, perdeu mais de 20% do seu valor somente nesta terça-feira (8).

Por trás do movimento de correção de preços e realização de lucros está o Softbank, gestora japonesa que investe em empresas de tecnologia e inovação. Um jogada arriscada executada pela empresa rendeu um lucro que pode ter chegado a US$ 4 bilhões — e balançou as bolsas de valores mundo afora.

A “baleia” de Wall Street

O que o Softbank pode ter feito de tão grandioso para frear a euforia dos mercados? De forma silenciosa, a gestora japonesa decidiu executar uma estratégia que envolve uma técnica cuja explicação é árida até mesmo para os investidores mais experientes.

Como foi essa estratégia? Quando o mercado começou a subir, o Softbank comprou um volume significativo de opções de compra de ações das grandes empresas de tecnologia, como Tesla, Apple e Netflix, ao mesmo tempo em que comprava as ações tradicionais dessas mesmas empresas. As opções são certificados que o investidor adquire e que garantem o direito de compra de uma ação, caso ela chegue a um determinado valor.

Ou seja: o Softbank estava apostando duplamente na valorização dos papeis.

O volume de opções negociadas começou a ganhar tração, o que chamou a atenção do mercado. Observando esse fenômeno, muitos outros investidores institucionais e milhares de pessoas físicas também começaram a apostar que as empresas de tecnologia só tinham a ganhar no cenário de pandemia, em que as pessoas, confinadas em casa, estariam mais conectadas e dependentes da tecnologia.

O fato de a estratégia do Softbank ter ajudado a ditar o ritmo do mercado fez com que a empresa fosse chamada de “baleia de Wall Street”. O paralelo com o maior mamífero do mar se dá porque, ao mesmo tempo em que a gestora ditou o ritmo da maré, ela incentivou milhares de pequenos investidores, chamados de “sardinhas”, a segui-la.

“Eles tentaram puxar fluxo de compra, trazer junto as ‘sardinhas’ para o investimento nesse tipo de ativo e, com isso, ganhar com a especulação”, explica William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora americana Avenue.

Os bancos entram no cardume

Essa foi só a primeira parte da estratégia arriscada. A segunda parte, e que foi justamente a que mudou o jogo para o Softbank, tem a ver com o próprio funcionamento das opções. As empresas que vendem esses ativos, chamadas de dealers, precisam se preparar para o cenário em que os compradores vão exercer a garantia das opções e convertê-las em ações das empresas.

Para isso, os dealers, que muitas vezes são bancos, acabam tendo que comprar as ações atreladas às opções, para garantir que, caso o investidor realmente exerça o direito de compra, não haja risco de esses papéis faltarem.

“Quando vendem as opções, os dealers não necessariamente precisam ter as ações correspondentes. Mas conforme o vencimento ou o valor estipulado como meta se aproximam, eles têm que comprar o ativo para não ficar exposto ao risco de não ter o que entregar ao investidor”, explica o estrategista da Avenue.

Sendo assim, além do próprio Softbank e das “sardinhas”, os bancos também passaram a comprar ações das empresas de tecnologia, impulsionando ainda mais as cotações dos papéis.

Resumo da ópera

No final da semana, quando ficou claro que o Softbank havia estimulado o aumento atípico do volume de negociação de opções e que, por consequência, a estratégia da gestora tinha inflado o rali de ações, os investidores começaram a se desfazer dos papéis, com medo de que o castelo de cartas ruísse. Foi aí que as cotações começaram a despencar.

“Se a ação cai e fica longe do preço em que a opção seria exercida, os dealers não precisam mais ficar com um caminhão de papéis prontos a serem entregues para o investidor. Então os bancos começaram a vender as ações de tecnologia, e as cotações caíram ainda mais”, explica Castro Alves, da Avenue.

Henrique Esteter, analista da corretora Guide Investimentos, disse que mesmo os investidores otimistas, que apostavam em uma alta desenfreada das ações de tecnologia durante a pandemia, foram escaldados pelo episódio. “Até quem achava que a pandemia foi um divisor de águas para as empresas de tecnologia passou a ter um olhar de cautela, porque percebeu que a alta recente foi um movimento foi de trade, sem fundamento”, diz ele.

O Softbank fez tudo sozinho? Dificilmente. Levou um tempo até que o mercado percebesse que o protagonista dessa história era a gestora japonesa, porque essas operações são pulverizadas — ou seja, a compra das opções é feita em várias corretoras, o que torna difícil identificar a fonte. É possível que outras gestoras tenham embarcado na mesma estratégia, embora não dê ainda para confirmar a tese.

Com a queda das ações, o Softbank não foi prejudicado? A tese dos analistas é que a gestora japonesa pulou fora antes de o mercado começar a cair, reduzindo as posições em opções e ações e embolsando o lucro enquanto as cotações estavam no pico. A estimativa é que o Softbank lucrou cerca de US$ 4 bilhões só nessa jogada.

Apesar do saldo positivo, a estratégia foi arriscadíssima. A jogada poderia ter sido kamikaze, caso o timing para a venda dos ativos fosse errado.

E agora? As ações de tecnologia vão cair mais?

A história é impressionante, mas o ponto é que toda a lógica por trás do efeito Softbank sobre as ações de empresas de tecnologia é técnica. Não se trata de um fator que atingiu o mercado de forma estrutural. Por isso, a expectativa é que as cotações caiam um pouco mais nos próximos dias, mas que a turbulência se dissipe aos poucos depois disso.

“No auge, a Tesla chegou a valer mais do que todas as outras montadoras de carro juntas. Faz sentido isso? Pra mim, a correção de agora acaba sendo algo saudável, que traz os investidores de volta para a realidade”, diz o estrategista da Avenue.

Para Esteter, da Guide, agora os investidores americanos devem distribuir o risco entre outros setores, voltando a alocar parte das aplicações em segmentos mais cíclicos, como os bancos, empresas de energia e produtoras de commodities.

E como fica o Ibovespa?

Enquanto as bolsas americanas estiverem chacoalhando nos Estados Unidos, a bolsa brasileira vai continuar sofrendo. “O comportamento dos índices nos últimos meses mostrou que quando as bolsas americanas sobem, não necessariamente o Ibovespa vai subir. Mas quando elas caem, os investidores podem se preparar para um dia ruim aqui no Brasil”, diz Esteter, da Guide.

O estrategista da Avenue pondera que os indicadores econômicos brasileiros têm demonstrado que a recuperação pós-pandemia pode vir mais rápido que o esperado. “Se a economia está melhorando, as ações das empresas deveriam subir na bolsa, mas não é isso que tem acontecido. O Ibovespa tem se mantido na casa dos 100 mil pontos, e pode ser que os ativos brasileiros estejam ficando baratos”, diz ele. Se essa lógica se confirmar, o índice brasileiro ainda teria espaço para subir até o final do ano.

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