Quem tinha a percepção de que o pior da crise do coronavírus já havia ficado para trás está percebendo que a realidade é mais dura do que parece. A escalada de novos casos da doença na Europa, principalmente no Reino Unido e na Espanha, foi um balde de água fria na retomada da economia, que parecia já estar em curso. O risco de novos lockdowns, que podem jogar a atividade econômica para baixo, também causou uma corrida por ativos seguros, o que estimulou a alta do dólar.

Veja abaixo algumas perguntas que devem começar a ser respondidas nesta semana:

O pior está de volta?

Em março, quando o número de casos diários de covid-19 bateu recorde na Europa, as bolsas de valores mundiais despencaram. Agora, com as novas infecções superando aquelas do primeiro trimestre, a grande dúvida é se a derrocada vai se repetir. “Naquela época, as bolsas derreteram porque os países resolveram fechar parte da economia, com o objetivo de conter a infecção. A dúvida é como isso seria feito agora”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide Investimentos.

Entretanto, já é consenso que novos lockdowns não devem se repetir, pelo menos não no modelo de fechamento total adotado no começo da pandemia — tanto por questões políticas quanto por sanitárias. Hoje, já se sabe mais sobre o vírus: como ele se espalha, a importância das máscaras para prevenção, e quais os protocolos de saúde são melhores neste momento em que ainda não temos nem um remédio e nem uma vacina comprovadamente eficazes.

“O próprio Boris Johnson (primeiro-ministro do Reino Unido) tem dito que não pretende fazer novos lockdowns nacionais, mas podemos ver comércios fechando mais cedo e outras restrições importantes, que certamente pesarão nos mercados europeus e que, por consequência, trarão mau- humor para outros países”, diz Esteter.

A previsão é, portanto, que não haja um novo desmoronamento de ações, mas qualquer movimento para trás é ruim, porque a maioria dos ativos não tinha conseguido se recuperar do primeiro tombo causado pela crise do coronavírus.

O dólar vai continuar subindo?

Tanta incerteza no cenário acaba incentivando a migração dos investidores para ativos de baixo risco. Depois de semanas em um caminho de desvalorização mundial, o dólar voltou a se fortalecer frente a outras moedas. Antes, o motivo para a baixa da cotação da moeda americana era a política de juros baixos do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), que reduzia a atratividade de investimentos do país.

Agora, com o risco subindo, os investidores voltam a aceitar um prêmio menor em troca de mais segurança — daí vem o fortalecimento do dólar nos últimos dias. Na sexta-feira (25), a moeda americana fechou a R$ 5,55, o maior valor em quase um mês.

“Em cenários em que ninguém sabe o que vai acontecer, é natural vermos ativos de risco perdendo força, enquanto ativos de mais segurança ganham valor”, explica o analista da Guide. Ele diz que as eleições nos Estados Unidos só adicionam mais instabilidade ao cenário, o que acelera a corrida pelo dólar.

O caminho da moeda americana daqui para a frente dependerá bastante da situação da pandemia na Europa. Outros pontos que podem causar tremores pontuais são a divulgação do PIB dos Estados Unidos, na quarta-feira (30). Embora o resultado seja um “jogo jogado”, pois é referente ao terceiro trimestre, as preocupações quanto à situação da economia nos últimos meses do ano são crescentes.

O banco Goldman Sachs cortou pela metade a previsão de crescimento do PIB norte-americano no último trimestre do ano, indicando que a situação da Europa vai contaminar a economia local.

O Brasil vai ser afetado?

Qualquer terremoto nos mercados externos inevitavelmente causará efeitos negativos no Brasil. Acompanhando as quedas registradas no exterior, o Ibovespa (principal índice da bolsa de valores brasileira) recuou para a casa dos 96 mil pontos, algo que não era visto desde o final de junho.

A possibilidade de recuperação dos preços das ações dependerá do cenário de risco externo, já que os ativos brasileiros são considerados de risco, e que portanto só têm a perder quando os investidores estão correndo para as aplicações mais “seguras”.

Prova dessa mudança de cenário tem sido o adiamento de novas listagens de empresas na bolsa brasileira. Os IPOs (como são chamadas as operações de estreia na bolsa) estavam aquecidos, por causa do fluxo de investidores buscando rentabilizar a carteira no momento de retomada, mas voltaram a arrefecer agora que o risco é indesejável. Duas empresas que fariam listagens nos próximos dias (Caixa Seguridade e BR Partners) desistiram da oferta.

Na semana, estão previstos ainda os IPOs da incorporadora Melnick Even, na segunda-feira (28), da empresa de energia Compass Gás e Energia, na quarta-feira (3o) e do birô de crédito Boa Vista SCPC, também na quarta-feira.

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