A temporada de balanços financeiros está de volta. Ao longo das próximas semanas, as empresas divulgarão os seus resultados do terceiro trimestre de 2020. Enquanto a radiografia do segundo trimestre tratou do pior momento da pandemia do coronavírus, os resultados financeiros do período entre julho e setembro mostrarão se a atividade econômica voltou a se recuperar, e em qual passo isso tem acontecido.

Nesta semana, a divulgação de balanços será mais movimentada nos Estados Unidos. Por lá, alguns grandes bancos e as chamadas big techs vão reportar seus resultados, o que inevitavelmente mexerá com o mercado financeiro. Já aqui no Brasil, a temporada está só começando. Teremos os números de empresas do setor de energia, Fleury, Hypera, Marisa e WEG — empresa que, aliás, é a que mais se valorizou na bolsa de valores em 2020.

A expectativa dos analistas é grande, já que os números setoriais têm mostrado uma retomada gradual da indústria, serviços e comércio — tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Mas a alta nos casos de coronavírus na Europa cria uma sombra para as projeções de recuperação daqui pra frente.

Bancos

As instituições financeiras dos Estados Unidos começaram a divulgar seus resultados já na semana passada. A primeira leva de balanços mostrou um cenário melhor que o esperado, com os grandes bancos superando as projeções de lucro estabelecidas pelos analistas. Não só o lucro melhorou, como as provisões (valores reservados para cobrir eventuais calotes) caíram consideravelmente em relação ao trimestre anterior. Esse é um termômetro que costuma ser acompanhado de perto pelo mercado, pois as provisões dos bancos apontam para a situação futura de renda e consumo das famílias.

Entre os que já reportaram bons resultados estão o JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs e Morgan Stanley. Nesta semana, o banco UBS e outras instituições financeiras menores vão divulgar seus balanços, e o prognóstico é bastante positivo.

Embora o cenário dos Estados Unidos não esteja diretamente ligado ao do Brasil, os sinais de recuperação da maior economia do mundo são importantes. Além disso, a correlação entre as bolsas de valores americanas e brasileira está no maior patamar desde a crise de 2008 — sendo assim, o vento que sopra nas velas das ações americanas deve chegar, também, aos papéis brasileiros.

Big techs

Também nesta semana teremos os resultados de empresas de tecnologia dos EUA. Tesla, Netflix e IBM reportarão seus números nos próximos dias. As ações dessas empresas caíram nos últimos dias, o que indica que as expectativas não estão tão otimistas quanto as que nortearam os resultados dos bancos, por exemplo. A leitura dos analistas é que possivelmente o melhor momento para essas empresas ficou para trás, lá no começo da pandemia. Isso não significa, necessariamente, que devemos ver resultados ruins.

“Por mais que essas empresas não exerçam nenhum impacto direto no Brasil, em termos operacionais e de atividade econômica, caso os resultados venham sólidos o bom-humor pode contaminar o mercado brasileiro — e o inverso também é verdadeiro”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide Investimentos.

A questão-chave desse ponto é que as empresas de tecnologia exercem grande influência sobre o comportamento da Nasdaq. O desempenho do indicador foi afetado, em setembro, em razão de um movimento generalizado de venda de ações, depois que investidores descobriram que a valorização dos papéis dos meses anteriores havia sido estimulada por uma manobra da gestora japonesa Softbank (explicamos melhor essa história aqui).

Depois disso, o índice da Nasdaq caiu, e não voltou ainda para o pico registrado no começo do mês passado. Se os resultados financeiros das big techs vierem positivos, podemos ver um novo fôlego para a recuperação da bolsa de tecnologia.

WEG, empresas de energia, Fleury, Hypera e Marisa

No Brasil, a temporada de balanços está só esquentando. O resultado mais importante da semana deve ser o da WEG, empresa industrial que virou queridinha dos investidores, e cujas ações acumulam alta de nada menos que 130% só em 2020. A fabricante de componentes elétricos é vista como uma das mais bem administradas empresas do Ibovespa, e atua em um setor bastante promissor, o de energia renovável (falamos mais sobre a WEG nesta matéria).

“A WEG surpreendeu positivamente no resultado do 2º trimestre, mesmo com a pandemia no seu pior momento. No dia após o resultado, as ações chegaram a subir mais de 13%. Vamos ver como a empresa continua operando”, diz Esteter, da Guide.

A expectativa é que os resultados da WEG sejam impulsionados pelo crescimento das exportações, embora a empresa possa ter tido impacto negativo na produção local em razão do câmbio. Depois de uma esticada tão longa no preço, fica difícil saber qual o potencial de valorização das ações da WEG, mas os investidores vão acompanhar de perto os resultados.

Empresas de geração e distribuição de energia também divulgarão seus balanços na semana. No caso da Coelba e Neoenergia, cujo negócio está na venda de energia para consumidores finais, a atenção estará voltada aos números de inadimplência, que parecem ter voltado a subir com a redução do pagamento do auxílio emergencial. Já no caso da Paranapanema, dona de usinas hidrelétricas, o foco será relacionado aos dividendos distribuídos aos acionistas.

A rede de laboratórios Fleury deve ter um balanço melhor que o do segundo trimestre, em razão da retomada da realização de exames de rotina. Com a redução do número de casos diários de coronavírus no Brasil, os clientes voltaram gradualmente aos cuidados preventivos de saúde. Já o caso da Hypera, fabricante brasileira de medicamentos, um ponto interessante a ser observado será o impacto do acordo com o Corinthians de naming rights para rebatizar a Arena Corinthians como Neo Química Arena.

Por fim, o balanço das Lojas Marisa deve revelar o impacto positivo da reabertura das lojas em shoppings, embora o número de vendas deva continuar em baixa, em razão da redução do consumo de itens não-essenciais, como vestuário e calçados.

“Será interessante observar o desempenho de empresas com maior exposição às lojas físicas, tendo em vista que varejistas como a Marisa foram empresas altamente impactadas no 2º trimestre”, recomenda o analista da Guide.

Eleições nos EUA

A corrida presidencial dos Estados Unidos entra na sua reta final com o candidato democrata, Joe Biden, bem à frente do atual presidente, o republicano Donald Trump, nas pesquisas eleitorais. De acordo com a pesquisa feita pela BBC, Biden tem 52% das intenções de voto frente a 42% de Trump. A 16 dias da votação, o cenário da eleição do democrata parece cada vez mais sólido, embora reviravoltas nos 45 do segundo tempo não sejam incomuns nos Estados Unidos.

Conforme a data das eleições de aproxima, os analistas devem precificar a eleição de Biden com mais força. Comprometido a aumentar os impostos de empresas, o candidato democrata é visto de forma negativa pelo mercado financeiro, o que pode impactar as bolsas de valores americanas.

“Na quarta-feira também teremos o chamado o Livro Bege, que dará detalhes sobre como a economia norte-americana está caminhando. Mas o que deve impactar com mais profundidade é a discussão sobre o pacote de estímulo fiscal. Esse debate tem feito preço todo dia que sai uma notícia nova”, conta o analista da Guide.

Segunda onda de covid-19 na Europa

Países europeus que viveram situações de caos em março, em razão do alto número de casos de coronavírus, estão revivendo o pesadelo. Itália, Reino Unido e França já impuseram novas medidas de restrição para tentar conter a disseminação do vírus — o comércio não-essencial foi fechado, as aglomerações foram proibidas e algumas regiões estão sob toque de recolher.

Embora o número de casos seja até maior do que os registrados entre março e abril, o número de mortes não escalou na mesma proporção. Ainda é cedo para dizer, no entanto, se a segunda onda será mais branda do que a primeira.

“A situação da Europa vai continuar no radar, embora não dê ainda para dizer se vai haver grande impacto. Um novo fechamento de algumas economias importantes poderia, sim, contaminar os mercados dos EUA e Brasil”, afirma Esteter, da Guide.

Privatização dos Correios

Na semana passada, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, entregou ao governo a proposta de privatização dos Correios. Embora o processo deva só ser concluído no ano que vem, no melhor dos cenários, a venda da estatal de encomendas e correspondências já está mexendo com o mercado. Rumores tratam do possível interesse de diversas empresas, embora ninguém esteja, ainda, oficialmente no páreo.

Entre os possíveis candidatos a novo dono dos Correios estão a varejista Magazine Luiza, o e-commerce Mercado Livre e a empresa de logística JSL. Ainda que não haja nada de concreto nessa venda, pois a privatização depende de aval do Congresso, os rumores mexem com as cotações das empresas envolvidas.

Veja o calendário de resultados da semana

Segunda-feira (19 de outubro): Neoenergia, Coelba e IBM (nos EUA)

Terça-feira (20 de outubro): Netflix (nos EUA) e banco UBS (nos EUA)

Quarta-feira (21 de outubro): WEG e Tesla (nos EUA)

Quinta-feira (22 de outubro): Fleury, Lojas Marisa e Paranapanema

Sexta-feira (23 de outubro): Hypera

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