Tentar adivinhar qualquer coisa em relação às eleições dos Estados Unidos tem sido o caminho mais fácil para errar um palpite. Com o pleito sem um vencedor e com mais um dia de mercados financeiros operando no positivo, é natural perguntar-se o que, afinal, está acontecendo.

A contagem de votos continua, e não houve grande mudança de cenário ao longo desta quinta-feira (5). No entanto, as bolsas tiveram alta forte, com o Ibovespa avançando quase 3% no final do dia e recuperando os 100 mil pontos. Nos Estados Unidos, o cenário não foi diferente. Os principais índices de ações do país (S&P 500, Nasdaq e Dow Jones) avançaram 2%, em média.

Apesar de a contagem de cédulas estar andando a passos de formiga, os eventos fora da urna estão a todo vapor. O presidente Donald Trump continua batendo na tecla de fraude nas eleições e pedindo que os votos parem de ser contados, para que as cédulas enviadas pelos correios sejam desconsideradas. Para completar, os protestos começam a crescer — tanto do lado dos apoiadores do presidente quanto pelo lado de oposição.

O fato é que as chances de vitória do democrata Joe Biden continuam sendo maiores, e uma possível reversão do resultado na Justiça fica cada vez mais distante. Isso porque faltam elementos para que Trump consiga anular parte dos votos conquistados pelo opositor.

“Até o momento não vejo nada que possa justificar uma intervenção da Suprema Corte capaz de mudar as eleições. A estratégia de Trump tende a ser a de pedir a recontagem de votos e torcer para que na recontagem o resultado seja diferente”, diz Conrado Magalhães, analista político da corretora Guide.

Embora o republicano tenha fomentado a tese de que há votos favoráveis ao Biden sendo contabilizados em duplicidade e votos favoráveis a ele mesmo sendo jogados fora, não há nenhum indício concreto de fraude na contagem. “Na internet, tem vídeos de cédulas sendo queimadas, de pessoas sendo impedidas de votar, de eleitores usando caneta ao invés de marcador etc., mas é muito difícil discernir o que é teoria conspiratória e o que é verdadeiro”, afirma Magalhães.

Reedição de 2000?

Nas eleições presidenciais de 2000, a falta de padronização do “preenchimento” das cédulas fez com que a Suprema Corte dos EUA fosse envolvida em um processo de recontagem de votos na Flórida. No final das contas, a recontagem nunca foi efetivamente concluída, em razão da demora do processo e da urgência para declarar um presidente. Com clima de “tapetão”, o candidato republicano, George W. Bush, venceu o democrata Al Gore.

Uma reedição do episódio parece improvável, já que até agora não há nenhuma questão técnica envolvida — em 2000, as máquinas de preenchimento das cédulas apresentaram problemas, o que fez com que os votos precisassem ser contados manualmente.

Como a tese de Trump é que há votos irregulares, é muito difícil que a Suprema Corte analise qualquer questionamento sem que haja uma prova concreta de que alguma irregularidade ocorreu. Fora os vídeos conspiratórios que circulam na internet, a equipe do republicano ainda não apresentou nenhuma prova de depósito ou descarte irregular de votos. Conforme os dias passam e nenhuma prova desse tipo aparece, as chances de o atual presidente conseguir que qualquer questionamento seja analisado na Justiça diminuem.

Biden na presidência?

A reeleição do atual presidente já foi apontada como o cenário preferido dos investidores, mas as expectativas parecem ter se invertido. A tranquilidade das bolsas indica que a possível vitória de Biden é o cenário de maré calma para os ativos financeiros. “Até Trump apresentar alguma suspeita concreta de fraude de votos, ou até que ele vire o jogo nos votos do estado do Arizona, o mercado vai continuar trabalhando com cenário de eleição do Biden”, diz o analista político da Guide.

Ele diz que para retomar as chances de vencer, Trump teria que ganhar margem nos estados que ainda estão sendo contabilizados, ou teria que contar com uma recontagem de votos favorável em 5 ou 6 estados já apurados. A questão é que percentualmente a vitória de Biden nesses estados foi apertada, mas em número absoluto são dezenas ou centenas de milhares de votos de diferença.

Republicanos vão desembarcar do trem Trump?

Outra virada importante de jogo foi a provável preservação de maioria republicana no Senado. “A chamada ‘Onda Azul’ (como era chamada a possibilidade de os democratas ficarem com a presidência e as duas casas legislativas) está mais distante. O equilíbrio entre os dois partidos elimina os riscos especialmente de aumento de impostos o que é visto como positivo pelo mercado”, observa Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital.

Com a casa legislativa garantida, os membros do partido do atual presidente devem avaliar com mais cautela a campanha de Trump. “Acredito que com o passar do tempo os republicanos vão começar a desembarcar da narrativa de recontagem de votos. O próprio Senado tem interesse em uma decisão célere sobre quem será o próximo presidente”, diz Magalhães.

Ele explica que o discurso de Trump, realizado ainda na madrugada de quarta-feira (4), incomodou os republicanos mais moderados. Na ocasião, o atual presidente declarou-se vencedor, ainda que os votos não tivessem sido totalmente contados, e pediu que as cédulas dos correios deixassem de ser contadas.

“Cercear o direito de voto é algo muito sério nos Estados Unidos. Quanto mais as declarações de Trump tomarem um teor radical, mais o Senado vai se afastar dele”, prevê o analista político. Com o partido desembarcando e com pouca munição para levar a briga para a Justiça, Trump parece cada vez mais isolado e com poucas chances de preservar a faixa presidencial.

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