As exportadoras, que vêm sendo impulsionadas pelo dólar em patamar alto e forte demanda internacional por commodities, sustentaram o Ibovespa em abril, mês em que a bolsa chegou a recuperar os 120 mil pontos perdidos em meio à segunda onda de coronavírus.

O principal índice de ações brasileiros fechou o mês em alta de 1,9%, variando entre a Hering, que após proposta de compra da Arezzo e um anúncio de fusão com o grupo Soma viu seus papéis subirem mais de 70%, e a lanterninha BRF, que teve queda de mais de 17% após os analistas concluírem que a alta da inflação prejudicará os custos da empresa de alimentos.

“O setor varejista vem sofrendo bastante nos últimos meses, mas começamos a observar o movimento de empresas bem posicionadas, capitalizadas, dando início a um processo de consolidação”, aponta Romero Oliveira, head de renda variável da Valor Investimentos. “Além da Hering, vemos a Renner lançando mais ações”, aponta.

Apesar das empresas ligadas ao consumo atraírem atenções, as empresas que atuam com força nas exportações de commodities foram as ganhadoras incontestáveis no mês passado: a Braskem, a Usiminas e a CSN, todas pesos pesados, ganharam mais de 29% de valor no período.

“As cotações das commodities já estavam altas, mas em abril isso aumentou ainda mais. O minério de ferro está na máxima histórica, o petróleo se recuperou bem e o aço está explodindo. Contribuiu para isso o plano de infraestrutura do presidente americano, Joe Biden”, analisa Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos.

Outro destaque do mês foi a CVC, que subiu acima de 20%. Veja abaixo as ações que mais se destacaram em abril:

AçãoValorização mensal
Hering70,42%
Braskem32,28%
Usiminas31,29%
CSN29,79%
Pão de Açúcar22,75%
CVC Brasil21,55%
Vale11,28%
BTG11,03%
B2W10,81%
Gerdau10,81%
Fonte: Investing.com

Maldição de maio?

Para este mês, o mercado espera que a bolsa se mantenha no azul, talvez até acelerando o crescimento. Se isso se confirmar, o índice conseguirá driblar a chamada “maldição de maio”, que tem a ver com o fato de que nos Estados Unidos e na Europa muitos investidores tradicionalmente saem da bolsa no período, realizando seus lucros antes do verão e só voltando no outono.

Existe até um ditado que diz “sell in may and go away” (venda em maio e vá embora), que era usado por aristocratas e banqueiros do Reino Unido –em maio, eles saíam de Londres durante os meses quentes e só voltavam no outono para a capital.

Neste momento, entretanto, os EUA estão vivendo um processo de forte retomada, em meio a muitos estímulos dados pelo governo para que a economia cresça. Outro ponto que faz analistas apostarem em mais alta do índice é o fato de que a bolsa está abaixo do patamar dos mercados de outros países emergentes.

“Historicamente, abril é um mês de receio para o mercado. Não é à toa essa história de sell in may and go away. Mas tirando isso, quando você compara a bolsa brasileira com outros emergentes, ainda estamos bem para trás. Se nossa vacinação andar e houver indicadores de que o governo reduzirá gastos, esses são gatilhos para a bolsa andar e o dólar cair”, opina Oliveira, da Valor Investimentos. “Nossa bolsa tem fundamentos para se manter nesse patamar ou até mais forte. Os resultados das empresas estão vindo fortes, e a relação entre preço e lucro do Ibovespa está bem abaixo da média histórica”, reforça Esteter, da Guide.

Para Lucas Marins, analista da Investmind, as perspectivas continuam animadoras para as mineradoras e siderúrgicas, que possuem um peso importante no Ibovespa. “O minério de ferro chegou a US$ 193 a tonelada nesta semana, e a perspectiva segue animadora, com expectativas de forte crescimento global, em especial da China”, afirma. “Além disso, o cenário é bom para a demanda interna desse setor no Brasil”.

Na avaliação dos economistas, a maior ameaça a esse quadro otimista não vem do exterior, e sim de Brasília. “Não sabemos o que vai acontecer do ponto de vista político. Temos uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Covid que pode trazer burburinho. E não se sabe se a reforma tributária realmente vai andar”, aponta Esteter.

Na avaliação de Bruno Musa, economista e sócio da Acqua Investimentos, o cenário é positivo, mas pode-se esperar volatilidade exatamente pelas dificuldades de tramitação das reformas. “Vamos ver muitos altos e baixos no mês”, afirma. “Temos que ter precaução, diversificar carteiras, porque as bolsas estão em patamar recorde. Mas com o fluxo trilionário injetado pelo governo americano na economia devemos continuar a ter um fluxo positivo”, afirma.

 

 

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