Com abertura de capital na Bolsa de Nova York prevista para 9 de dezembro, o Nubank espera conseguir uma avaliação de até US$ 51 bilhões, valor que o colocaria entre as 25 instituições financeiras mais valiosas da Dow Jones, à frente, inclusive, dos principais nomes do setor no Brasil: Itaú, Bradesco e Santander.

Embora a empresa já tenha atraído atenção de grandes investidores, como o CEO da Berkshire & Hathaway, Warren Buffett, parte do mercado vê com ceticismo o potencial de retorno sobre o capital investido e considera o preço das ações divulgado em prospecto elevado.

“O futuro do setor bancário está nas plataformas digitais. Neste sentido, o Nubank tem uma vantagem, porque largou na frente e tem uma base de usuários maior. O grande desafio é saber se esta diferença vale os mais de US$ 50 bilhões que eles estão pedindo. Acho que, se os grandes bancos estivessem dormindo, valeria. Mas não é este o caso”, argumenta o estrategista da Senso Investimentos João Augusto Frota.

Grandes bancos de varejo têm mirado o mercado dos serviços financeiros digitais. Além disso, o Nubank enfrenta a concorrência forte de outros bancos digitais que entraram depois no mercado.

Fundado em 2013, o Nubank acumula balanços deficitários, que não comprometeram a sustentabilidade do negócio devido à confiança dos investidores no caráter inovador do serviço. No primeiro trimestre deste ano, registrou o primeiro lucro, de R$ 76 milhões. Para Frota, no entanto, esta situação pode mudar rapidamente, caso a companhia deseje oferecer dividendos para acionistas.

“O Nubank tem um bom volume de caixa, mas utiliza tudo para investir na empresa e aproveitar benefícios tributários concedidos às empresas que registram prejuízos em seus balanços. Eles seriam capazes de ter bons lucros se fossem cobrados por isso. Nos Estados Unidos, os investidores lidam melhor com empresas que passam longos períodos de tempo sem distribuir dividendos. Essa é uma cultura que ainda está chegando no Brasil.”

Não é raro investidores individuais tomarem decisões com base na movimentação de grandes agentes do mercado de capitais, como Buffet, cujo fundo aportou US$ 500 milhões no Nubank em junho deste ano. No entanto, é preciso entender que as condições sob as quais o negócio será feito em dezembro são diferentes. Naquela rodada de captação, a avaliação da empresa era de US$ 30 bilhões, valor bem abaixo do pretendido no IPO.

“Quem optar por comprar participações neste momento precisa entender que tomará uma decisão diferente da que investidores que entraram antes no negócio tomaram. O Warren Buffet forma a opinião de muitas pessoas, mas ele comprou as participações dele por um valor bem mais baixo.”

Segundo estimativas do analista da Suno Alberto Amparo, para fazer valer o valor pretendido e gerar retorno de 10% ao ano aos investidores, o Nubank precisaria gerar US$ 5 bilhões de caixa anualmente. Para ele, a empresa ainda está distante de fluxos neste patamar, dado o histórico ainda incipiente dos resultados apresentados em balanço.

No entanto, Amparo, assim como Frota, acredita que parte dos investidores estrangeiros pode se interessar no negócio por conta da aceitação maior ao retorno de longo prazo e da conjuntura econômica dos Estados Unidos.

“Quem está vendendo quer sempre vender pelo maior preço possível. O Nubank tem um crescimento muito expressivo de clientes, mas não reporta lucros, então não acho que nada justifique o quanto vale hoje. Nos Estados Unidos, as taxas de juros são muito mais baixas. Um investidor que empresta dinheiro para o governo por 10 anos lá ganha 1,5% ao ano. Neste cenário, é muito mais justificável comprar uma empresa que só dará lucro daqui a dez anos.”

No Brasil, onde a taxa de juros atualmente é de 7,75% ao ano e tende a crescer nas próximas reuniões do Copom (Conselho de Política Monetária do Banco Central), a escolha por empresas com PLs mais elevados pode não ser tão vantajosa, devido ao custo de oportunidade maior, alerta o analista.

Frota acredita que as ações do Nubank devem se valorizar nos primeiros pregões após o IPO, mas que a empresa ainda precisará provar seu potencial como investimento de longo prazo. “Acho que muitas pessoas vão surfar a onda de um upside em um primeiro momento. Mas a grande questão é avaliar a qualidade do investimento em termos de resultados de longo prazo.”

 

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