Após uma queda de quase 2% na sexta-feira (26), o Ibovespa acumulou a terceira semana consecutiva de perda, o que deixou fevereiro com o pior desempenho mensal em cinco meses e ampliou o declínio em 2021.

Neste último mês, a bolsa paulista viu as vendas de estrangeiros superarem as compras em quase 5 bilhões de reais até o dia 24, o que deve marcar uma quebra na sequência de saldos positivos mensais desde outubro do ano passado.

É verdade que o número não contempla as ofertas de ações (IPOs e follow-ons), que em fevereiro teve como destaque o IPO amplamente esperado da unidade de mineração da CSN, que movimentou R$ 5,2 bilhões.

Mas diferente de 2020, quando investidores locais garantiram a recuperação do Ibovespa após o tombo em março com a pandemia de Covid-19, receios fiscais e a percepção de aumento do risco político desanimaram compras no pregão brasileiro.

A primeira semana do mês até começou bem, embalada pela aposta positiva na agenda de reformas após as eleições no Congresso Nacional, com parlamentares mais próximos ao governo assumindo os comandos da Câmara dos Deputados e do Senado.

Mas não demorou muito para o Brasília adicionar volatilidade e preocupações, com a possibilidade de retomar o auxílio emergencial e ruídos relacionados aos preços dos combustíveis, com caminhoneiros mais uma vez ameaçando uma greve.

Após pressão de deputados e senadores, o governo confirmou, com algumas mudanças, a volta do benefício aos mais afetados pela crise econômica desencadeada pelo coronavírus, que foi interrompido no final do ano passado.

No caso dos combustíveis, a Petrobras sentiu a ojeriza de investidores à possibilidade de interferência política na gestão de estatais e sofreu perda de cerca de R$ 100 bilhões em valor de mercado em dois dias.

Depois de algumas ameaças, o presidente Jair Bolsonaro anunciou ao final de uma sexta-feira (19) a indicação do general Joaquim Silva e Luna no lugar de Roberto Castello Branco.

No mesmo fim de semana, ele sinalizou mais mudanças, prometendo ainda “meter o dedo na energia elétrica que é outro problema também”. No primeiro pregão após tais declarações, o Ibovespa derreteu quase 5%, na maior queda desde abril de 2020.

O governo buscou amenizar o prejuízo, entregando ao Congresso a medida provisória para a privatização da Eletrobras e o projeto para a desestatização dos Correios, bem como sancionou a autonomia do Banco Central.

O efeito, contudo, foi passageiro, com o presidente voltando a destacar o “papel social” das estatais apesar de ter sido eleito defendendo peso menor do Estado na economia. Enquanto isso, o adiamento da leitura do parecer da PEC Emergencial reforçou o ambiente de resistência a medidas de ajuste fiscal.

O último pregão do mês ainda terminou com ruídos envolvendo a permanência do ministro da Economia, Paulo Guedes, bem como do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, o que o banco estatal negou, além de dólar acima de R$ 5,60.

Nem a temporada de balanços com resultados bem avaliados no mercado, entre eles o lucro recorde da Petrobras no quarto trimestre, freou as vendas na bolsa paulista, que também sofreu mais no final do mês com apreensões relacionadas aos Treasuries.

Na última quinta-feira (25), o rendimento do título do Tesouro norte-americano de 10 anos, referência para vários investimentos em todo o mundo, bateu 1,614%, máxima em um ano, derrubando as bolsas em Wall Street e contaminando outros mercados.

Parte do movimento desses ativos reflete preocupações de que o Federal Reserve, banco central dos EUA, possa ter espaço para aumentar as taxas mais cedo do que se pensava, já que a economia está se recuperando.

Após tais desenvolvimentos, março começa com cautela, mas com chance também de alguma recuperação, em particular se houver uma melhora nos mercados no exterior e Brasília não adicionar novos ruídos.

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