Não é segredo que a chegada da pandemia de coronavírus virou o mundo de cabeça para baixo, derrubando a atividade econômica e acelerando processos de transformação em diferentes setores. Como não poderia deixar de ser, essas mudanças se refletiram no Ibovespa, alterando os pesos das empresas na composição do principal índice brasileiro.

Segundo analistas, há dois movimentos principais que podem ser notados do primeiro trimestre de 2020 para cá: os bancos perderam quase um terço da sua fatia no índice, enquanto as mineradoras, com destaque para a Vale, passaram a responder por uma participação bem maior na bolsa.

A carteira do Ibovespa é montada com base no valor de mercado das empresas, e acaba funcionando como um termômetro do que está acontecendo no mercado de investimentos.

Além da perda de valor das instituições financeiras e do ganho de mineradoras e empresas de papel e celulose, os números mostram aumento de participação de varejistas como Magalu e Via Varejo, que são as mais conectadas com as mudanças do comércio digital.

Como esperado, refletem também o tombo das empresas com maior dependência da presença do consumidor, como companhias aéreas e administradoras de shoppings.

“As mudanças do índice refletem bem o que aconteceu com a bolsa nos últimos 12 meses. São um reflexo exato do que a pandemia provocou: de um lado, a alta das exportadoras, que se beneficiaram com a valorização do dólar e alta das commodities, e do outro, o aumento do risco Brasil, que prejudicou os bancos”, afirma Roberto Attuch, CEO da OhmResearch, plataforma de análises independentes.

Antes da crise, eram essas as fatias de cada setor na composição do índice, segundo dados da B3 referentes ao período entre janeiro e março de 2020:

A carteira registrada no último dia 12 de abril ilustra as mudanças registradas no índice um ano após a pandemia:

Crise beneficiou exportadoras e varejistas mais conectadas

O bom desempenho das empresas exportadoras está relacionado a duas razões. Em primeiro lugar, esse é um setor que ganha com a desvalorização do real, já que seu produtos ficam mais baratos para compradores de outros países.

No ano passado, a moeda americana se valorizou impressionantes 30% em relação ao real, que foi uma das moedas que mais se enfraqueceram no mundo por causa das preocupações fiscais –o Brasil já entrou na crise com um endividamento elevado — e pelos ruídos políticos no país.

Além disso, as cotações das commodities apresentam forte alta. De abril do ano passado para o início deste ano, as cotações em dólar das 19 principais matérias-primas agrícolas, metálicas e de energia subiram cerca de 40%, segundo o índice Commodity Research Bureau.

“Muitos países entraram em um cenário pós covid, com o petróleo, minério de ferro e a celulose subindo muito”, afirma Jean Malta, assessor e sócio da Valor Investimentos. “A demanda nesse pós crise da China por minério de ferro é impressionante. A cotação não para de subir e a China não para de comprar, independentemente do preço”.

Não por acaso, o setor de mineração viu seu peso no índice subir de 8,6% para 14,3%, de acordo com os dados da bolsa. Sozinha, a Vale tem 13,6% dessa participação atualmente, fatia que era de 8,1% no início de 2019.   Entre as exportadoras, ganharam também as empresas de papel e celulose (de 2% para 3,48% do Ibovespa) e as siderúrgicas (de 2% para 3,63%).

“Depois da eleição do democrata Joe Biden presidente dos EUA, com uma série de estímulos concedidos na maior economia do mundo, e a recuperação global sincronizada de vários países, não é de se espantar que as commodities estejam aumentando de preço”, lembra Attuch, da OhmResearch.

Já o varejo ganhou espaço no índice, puxado principalmente por estrelas do e-commerce, como Magalu e Via Varejo. A alta das ações das duas varejistas levou o setor a aumentar sua fatia no Ibovespa de 5,80% para 6,57%.

Bancos encolheram

Não se engane: as instituições financeiras ainda são o setor com maior peso no Ibovespa. Mas essa participação murchou durante a crise: de 25% no primeiro trimestre do ano passado para 17,75% agora.

Segundo analistas, há algumas razões para isso: o receio de uma explosão de inadimplência neste ano –apesar de isso já estar provisionado nos balanços dos bancos–, e a taxa básica de juros no menor patamar da história. Além disso, o ambiente no setor financeiro vai se tornando cada vez mais competitivo por causa do avanço da digitalização.

“É um setor que realmente sofreu com a pandemia, até mesmo os muito sólidos, por causa da perspectiva de falta de pagamentos e inadimplência por causa da crise”, aponta Malta, da Valor Investimentos. “Acredito que em 2021 poderemos ver uma retomada dos bancos na bolsa, até porque começam a sair balanços de instituições financeiras nos EUA que mostram uma retomada forte do setor”.

Quais setores mais sofreram (será que vão reverter?)

O isolamento social imposto pelo coronavírus prejudicou principalmente os setores que mais dependem da presença dos consumidores para vender seus produtos e serviços. Se destacam as ações do setor de transportes, onde estão as companhias aéreas, que caíram de uma participação de 3,53% para 2,64%. As administradoras de shoppings também tiveram redução importante, vendo seu peso cair quase pela metade no período (de 1,41% para 0,84%).

Mas afinal, como pode ser a recuperação das ações dessas empresas quando a pandemia melhorar no Brasil?

“São os setores que mais sofreram. Passaram maus bocados, e continuam passando”, diz Malta.

Na avaliação do economista, essas empresas possivelmente só se recuperação no médio e longo prazo. “A pandemia não acaba do dia para a noite. É um processo lento, e a receita dessas companhias vai se correndo”, aponta. “Mas é claro, haverá uma demanda reprimida quando a crise passar, o que pode favorecê-las no futuro”.

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