As aberturas de capital na bolsa de valores passaram por uma verdadeira montanha russa em 2020. O ano começou com a promessa de 20 operações de listagem no mercado, o que era considerado um prognóstico excelente — seria o melhor ano desde 2007, nesse aspecto. A chegada da crise do coronavírus colocou esses planos na geladeira, e a maioria das empresas que tinham entrado na lista lá no começo do ano começaram a desistir de seus IPOs.

Não levou muito tempo para que tudo mudasse. A pandemia derrubou as bolsas de valores pelo mundo todo, mas, em contrapartida, autoridades monetárias dos países desenvolvidos começaram a despejar rios de liquidez no mercado, o que estimulou o apetite por ativos de risco. Com esse cenário, os planos de abertura de capital voltaram, e até com mais força do que no início do ano. De 20 empresas na fila, chegamos a ter 80 companhias brasileiras falando em IPOs, ainda que alguns deles programados só para 2021. Mas nas últimas semanas esse pêndulo voltou a mudar.

Por que mudou? O aumento de casos de coronavírus na Europa e o medo de novos fechamentos de empresas fez com que as ações perdessem parte do valor recuperado durante o período de grande liquidez. O Ibovespa, por exemplo, recuou dos 105 mil pontos, no final de julho, para 94 mil pontos no final de setembro. Para piorar, o governo brasileiro lançou uma ideia controversa de custear o programa social Renda Cidadã com recursos de precatórios, o que foi considerado uma reedição das pedaladas do governo Dilma, em 2014. Em resumo, o tempo fechou de vez.

“O mercado de IPOs é sempre em janelas, e ele requer um bom timing. Para uma abertura de capital ser bem sucedida, ela depende de boas expectativas, de um cenário futuro promissor e de liquidez. Ainda temos a última parte, mas as expectativas pioraram bastante”, explica Leonardo Nascimento, fundador da gestora Urca Capital Partners.

Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da AF Invest, lembra, ainda, que até mesmo o cenário de liquidez é incerto, diante do impasse entre o Congresso e o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, sobre um novo pacote de estímulo financeiro para combater os efeitos negativos da pandemia sobre a economia.

Isso mexeu com o cenário de IPOs no Brasil? Sim. Algumas empresas que tinham planos para estrear na bolsa já anunciaram que vão deixar para fazê-lo quando as expectativas melhorarem. No caso da BR Partners e da Compass Energia, essa desistência foi quase na hora do “fale agora ou cale-se para sempre”. As duas empresas adiaram os IPOs apenas dias antes de bater o sino da B3. Já a Caixa Seguridade e a Track & Field, que ainda não tinham dado início à etapa final do processo, anunciaram que vão segurar um pouco mais a decisão.

Qual a chance de as operações serem retomadas logo? Tudo vai depender de como os fatores de risco vão evoluir. Na visão dos analistas, a confusão no governo sobre manutenção ou não do teto de gastos e as eventuais medidas criativas para custear o Renda Cidadã terão um peso maior no cenário de curto prazo.

“Se o governo estivesse sinalizando a manutenção do equilíbrio fiscal e se não estivesse ouvindo as vozes que pedem por uma gastança maior, o mercado ainda estaria cauteloso, mas a confiança estaria preservada. Para perder a confiança dos investidores é rápido, mas reconquistar é um processo difícil e lento”, diz Nascimento, da Urca.

Para o gestor da AF Invest, mesmo que as bolsas internacionais voltem a subir e que o cenário de liquidez melhore, a recuperação dos IPOs pode ser travada caso a equipe de Paulo Guedes não faça uma correção de rota. “Por mais que o cenário melhore lá fora, sem dúvida é necessário que o governo tenha um direcionamento melhor em relação ao fiscal. Sem isso dificilmente mercado vai diminuir o estresse”, diz Maciel.

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