Até que ponto o pequeno investidor pode manipular o preço das ações de uma empresa? Uma articulação de pequenos investidores em um fórum virtual dos Estados Unidos fez as ações da americana GameStop, uma rede de lojas físicas de games, darem um salto de 1.665% em menos de um mês.

No Brasil, investidores da resseguradora IRB Brasil se animaram com a notícia e resolveram seguir o exemplo. Eles juntaram cerca de 30 mil pessoas em um grupo do Telegram com o objetivo de promover uma compra coordenada dos papéis da empresa, que em 2020 sofreu revés atrás de revés.

Se conseguissem replicar a tática da GameStop e turbinar a cotação do papel, esses investidores pessoa física da IRB poderiam recuperar as perdas que tiveram – o papel contabiliza recuo de 82,33% nos últimos 12 meses.

Antes de celebrar o empoderamento dos peixes pequenos contra os tubarões, porém, convém dar alguns passos para trás e lembrar conceitos importantes para entender essa história.

Apostar contra também faz parte do jogo

Há muitas maneiras de lucrar com a oscilação de preços de uma ação. A forma mais trivial é comprar o papel na Bolsa e esperar que ele se valorize. Mas também é possível lucrar – de forma totalmente lícita – com a desvalorização da ação. Um dos caminhos para isso são as operações short, em que, no jargão do mercado, o investidor “opera vendido” no papel. Como elas funcionam?

Vamos usar o exemplo do José, que analisa o cenário da empresa fictícia Acme. As ações dela valem R$ 100, mas ele acredita que os papéis irão se desvalorizar. Paulo possui ações da empresa e, como seu horizonte de investimento é longo, não pretende se desfazer delas. José então aluga o papel de Paulo, pagando a ele uma taxa de R$ 5. Com isso, José pode oferecê-lo a outros investidores, por meio de uma venda a descoberto (já que José não é o dono desse papel). Depois, ele terá que comprar o papel de novo e devolver para Paulo.

José então vende esse papel a um terceiro, pela cotação atual, de R$ 100. Se tudo correr como José espera e as ações da Acme de fato se desvalorizarem, mais tarde ele poderá recomprar o papel por, digamos, R$ 40. José devolve a ação para Paulo e, já descontando a taxa de R$ 5, embolsa um lucro de R$ 55 com a operação.

Por outro lado, pode ser que a aposta de José esteja errada e a ação da Acme, em vez de cair, suba de R$ 100 para R$ 160. Ele terá de recomprar o papel e devolvê-lo a Paulo de qualquer maneira, mas agora irá pagar mais caro por isso. José vai desembolsar R$ 160 e, portanto, terá um prejuízo de R$ 65.

Short squeeze: um xeque-mate fora das regras

Assim como José, grandes fundos de investimento também montam posições vendidas em empresas que, na perspectiva deles, irão se desvalorizar. Pelo rumo natural das coisas, era claramente o caso da GameStop.

No passado, ela surfou na onda do crescimento do mercado de games. Mas não soube atualizar seu negócio. Hoje, os usuários não precisam mais se deslocar até uma loja física: podem comprar os jogos online nas próprias plataformas. A rede varejista passou então a sofrer prejuízos e fechou centenas de pontos de venda. Em Wall Street, a aposta geral era na derrocada da empresa.

Quando os internautas se mobilizam e fazem uma compra maciça de ações da GameStop, o preço do papel é inflado artificialmente, a um nível que de outra forma jamais seria possível. Com isso, fazendo um paralelo com nosso exemplo fictício, o papel que José vendeu a R$ 100 passou a valer R$ 1.700 – e ele terá um prejuízo enorme na hora de devolvê-lo a Paulo.

Na vida real, “José” é um grande fundo de investimentos que apostava na baixa da GameStop e, por isso, montou gigantescas posições vendidas no papel. Para evitar um prejuízo ainda maior em meio à disparada do preço, ele é obrigado a correr para o mercado e recomprar a ação alugada, antes da data em que teria de devolvê-la ao dono.

Ocorre que havia uma quantidade enorme de Josés (fundos) na mesma situação, já que a crença no insucesso da varejista era generalizada. Todos esses fundos ficaram desesperados para comprar o ativo ao mesmo tempo. Resultado: o preço das ações da GameStop foi catapultado para a estratosfera.

“A essência do mercado de capitais é que o preço de um título é definido de acordo com sua oferta e demanda. Quanto menos interferência e ruído houver, mais justo será o preço estabelecido”, explica Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos. “E a conduta dos internautas é uma forma de interferência, que fere essa essência. O objetivo do mercado de capitais fica seriamente comprometido”, diz.

Essa disparada agressiva no preço da ação, provocada pela corrida dos investidores que operavam vendidos no papel e são obrigados a recomprá-lo às pressas, é conhecida como short squeeze (porque quem estava operando em short é “espremido”).

Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos, não tem dúvidas de que a intenção dos investidores da GameStop era justamente essa: manipular os preços para encurralar os grandes fundos que haviam apostado na baixa da empresa, em um verdadeiro ataque especulativo.

“Esse grupo viu que o papel da GameStop tinha um altíssimo nível de operação short em relação ao volume total negociado. Mais de 30% das ações da empresa estavam em short“, ele afirma. “É algo que já foi tentado milhares de vezes. Eles viram a oportunidade de forçar o mercado a recomprar uma posição muito grande de um negócio que não tem liquidez.”

Lang acrescenta que esse caminho do short squeeze, que agora acionistas do IRB querem trilhar, não é inédito no Brasil – já houve tentativas semelhantes com ações de empresas como Oi, Cogna e até Via Varejo. E pode ser uma barca furada para o investidor. Afinal, não se trata de uma decisão de compra baseada nos reais fundamentos da empresa, na saúde do negócio, e sim em uma alta artificial no preço do papel.

“[Esses grupos de internet] estão induzindo outras pessoas a fazer uma compra de ações, sem terem um preparo e um embasamento para aquilo. É uma recomendação de compra simplesmente para dar squeeze nos fundos”, observa. “Poucas pessoas no mercado são certificadas para poder dar recomendações. Quão válido é esse pessoal do fórum querer fazer isso? Você não sabe quais são as reais intenções dessas pessoas”, pondera.

Manipulação do mercado é irregular e pode até ser enquadrada como crime

A simples intenção de investidores da IRB Brasil de organizar um short squeeze já foi suficiente para pressionar a cotação das ações da empresa, que chegaram a registrar alta de 18% na última quinta-feira (28).

No dia seguinte, atenta a essa movimentação, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) divulgou uma nota que pode ser interpretada como um recado velado ao grupo de acionistas do IRB. “A atuação com o objetivo deliberado de influir no regular funcionamento do mercado pode caracterizar ilícitos administrativos e penais”, escreveu a autarquia.

Conforme o caso, a conduta pode ser considerada manipulação de preços e enquadrada tanto na Instrução CVM 8, como no artigo 27-C da Lei 6.385/76. Na esfera penal, a pena é de reclusão de um a oito anos, além de multa de até 3 vezes a vantagem financeira que for obtida com a prática.

“A CVM continuamente monitora o mercado para identificar práticas ilícitas e rotineiramente instaura processos sancionadores e aplica sanções pela prática de ilícitos dessa natureza”, prossegue o comunicado.

A autarquia acompanha o fluxo histórico de movimentações de compra e venda das ações das empresas. Normalmente, as manobras das companhias que possam provocar grandes alterações nesse fluxo, como mudanças de estratégia, são comunicadas previamente à CVM pelas próprias empresas.

“Quando a CVM nota que há uma alteração brusca do perfil de negociação das ações, sem que tenha havido algum aviso prévio que justifique isso, ela pode pedir explicações à própria empresa ou a quem tiver operado uma transação muito discrepante”, explica Simone, da Reag.

Por ora, o simples alerta da CVM parece ter desencorajado o grupo de investidores da IRB que pretendia articular a compra coletiva de ações. Na própria sexta, data do comunicado da autarquia, IRBR3 fechou em baixa de 7,7%. Nesta segunda-feira (1º de fevereiro), o papel encerrou o pregão cotado a R$ 7,30.

Ainda que a conduta dos acionistas da resseguradora seja potencialmente nociva ao mercado, Lang acha muito pouco provável que ela consiga detonar um processo de valorização com magnitude comparável ao sofrido pelas ações da varejista americana de games.

“A realidade das duas empresas é muito diferente. A Bolsa brasileira tem uma base de acionistas pessoa física muito menor que a de outros países. E a IRB Brasil não tem uma fatia tão grande assim de ações em aluguel”, compara.

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