Os fundos internacionais que compram títulos de dívida pública (conhecidos como bonds) estão de olho em mercados emergentes. Isso porque, para reagir à pressão inflacionária, esses países devem elevar o prêmio de juros de seus papéis.

A TS Lombard recomenda que os fundos comprem dívida local do Brasil, onde um terceiro aumento da taxa básica de juros (Selic) é esperado quando as autoridades se reunirem na próxima quarta-feira. A PineBridge Investments elogiou o discurso duro sobre a inflação da governadora do Banco da Rússia, Elvira Nabiullina, e previu ganhos para os títulos de vencimento mais longo do país.

Os bancos centrais dos países em desenvolvimento se equilibram em uma corda bamba, gerenciando pressões de preços em lugares onde as cicatrizes da hiperinflação são recentes e também nutrindo economias que ainda lutam com a pandemia do coronavírus.

Embora o padrão esteja longe de ser consistente, o boom das commodities e as taxas de câmbio subvalorizadas estão fazendo a chapa esquentar. Nesta semana, as atenções se voltarão para os dados de inflação na Argentina, Índia e Polônia.

“Os investidores irão, em última instância, favorecer os países nos quais os bancos centrais são capazes de se antecipar à inflação”, disse Jon Harrison, diretor-gerente de estratégia macro para mercados emergentes da TS Lombard, em Londres. “É essencial que os bancos centrais reajam proativamente.”

Até agora, Brasil e Rússia se destacam, disse ele.

Brasil e Rússia, os favoritos

O presidente do BC brasileiro, Roberto Campos Neto, disse que está disposto a fazer o que for necessário para manter a inflação do Brasil dentro da meta, e os economistas são unânimes em prever outro aumento nesta semana para a maior economia da América Latina.

Os títulos do país tiveram ganho de cerca de 10% desde o primeiro aumento da taxa em março, enquanto o real se valorizou 9,2%, melhor marca entre as moedas dos pares emergentes durante esse período. Em contraste, um indicador da dívida em moeda local de países em desenvolvimento aumentou menos de 1% este ano.

A Loomis Sayles & Co. é outra fã dos títulos brasileiros e diz que o fortalecimento da moeda deve ajudar a conter o ritmo de crescimento dos preços.

“A valorização limita o número de aumentos, pois diminui o risco de repasse de inflação”, disse Edgardo Sternberg, co-gerente de carteiras de dívida de mercados emergentes em Boston na Loomis Sayles, que administra US$ 346 bilhões. A empresa favorece o segmento mais curto da curva de rendimento e prefere não fazer hedge contra o dólar, disse ele.

Na Rússia, os comentários hawkish (agressivos) do chefe do banco central provavelmente valorizarão o rublo, o que pode ajudar a estabilizar as expectativas de inflação, disse Anders Faergemann, gerente de dinheiro da PineBridge Investments em Londres.

Um quarto aumento nas taxas é “muito provável” em julho, disse Nabiullina em uma entrevista online na sexta-feira, depois de elevar a taxa básica em meio ponto percentual.

Os preteridos

No outro extremo do espectro, os investidores estão evitando os mercados onde os formuladores de políticas estão permitindo que as pressões sobre os preços aumentem. Polônia e Hungria, onde os retornos dos títulos são mais modestos, geraram cautela especial.

“Somos cautelosos nos mercados de baixo rendimento com alta correlação com as taxas básicas e onde os riscos de inflação se tornam mais preocupantes”, disse Mary-Therese Barton, chefe de dívida de mercados emergentes em Londres da Pictet Asset Management Ltd.

O índice anual de preços ao consumidor da Hungria subiu para 5,1% em abril e maio, o mais alto desde 2012 e o ritmo mais rápido da União Europeia, enquanto o nível na Polônia subiu para 4,8%, o mais rápido em uma década.

O índice principal de preços ao consumidor também está acima da meta em países como Turquia, México, Índia, Filipinas e Coréia do Sul, disse o HSBC Holdings Plc em uma nota de pesquisa neste mês.

Independentemente dos esforços dos bancos centrais desses países para conter a inflação, qualquer choque externo de inflação proveniente dos EUA bloquearia até mesmo a postura mais agressiva.

“Um rápido aumento nas taxas dos EUA pode ​​ter repercussões negativas”, disse Michel Vernier, chefe de renda fixa do Barclays Private Bank em Londres. “Vimos isso durante a crise de cólera de 2013, quando os picos das taxas no segmento longo dos EUA causaram grandes fluxos de saída de mercados emergentes.”

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