O cenário que se desenha no país preocupa cada vez mais o mercado financeiro, com aumento da inflação, crise hídrica, risco fiscal e tensão política. Para este ano, algumas instituições financeiras já projetam Selic a 8,25% ao final do ano. Para 2022, as previsões é de que a taxa de juros chegue a 9% ao ano, acompanhada de um crescimento do PIB de apenas 0,5%.

No Itaú, os analistas fizeram um corte de 1 ponto percentual na previsão do PIB, passando de 1,5% para 0,5%, aumentando as previsões de inflação e taxa de juros. A XP seguiu na mesma linha, com aumento da Selic para 8,5% e corte do PIB de 1,7% para 1,3%.

O JP Morgan e a Órama mantiveram suas previsões de inflação, mas fizeram ajustes na taxa de juros e no PIB para o próximo ano.

InstituiçãoInflaçãoSelic PIB
Itaúde 3,9% para 4,2%de 7,5% para 9%de 1,5% para 0,5%
XPmanteve em 3,7%de 7,25% para 8,5%de 1,7% para 1,3%
Óramamanteve em 4,2%de 8% para 8,5%de 2,1% para 1,8%
JP Morganmanteve em 3,7%de 7,5% para 9%de 1,5% para 0,9%

Previsões para o final de 2021

Pensando no curto prazo, as instituições financeiras também mexeram em suas projeções. A maioria das previsões é de aumento da inflação e do juros e redução de aumento do PIB.

InstituiçãoInflaçãoJurosPIB
Itaúde 7,7% para 8,4%de 7,5% para 8,25%de 5,7% para 5,3%
XPde 7,3% para 8,4%de 7,25% para 8%manteve em 5,3%
Óramade 7,2% para 7,7%manteve em 7,5%de 5,2% para 5%
JP Morgande 7,5% para 7,9%de 7,5% a 8,25%de 5,2% para 5,1%

Por que isso está acontecendo? Pelo aumento das pressões inflacionárias, que foram potencializadas pela crise hídrica mais intensa, risco fiscal e polarização política.

“O Brasil carrega esses instrumentos de indexação muito vivos na memória, da inércia da inflação. O BC precisa efetivamente agir como está agindo para mostrar que está vigilante para cumprir a meta, mas, ao mesmo tempo, fica em uma situação complicada, já que subir os juros reduz a atividade econômica”, afirma Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama.

Em relatório divulgado neste semana, o Itaú afirma que a “situação hídrica gera pressão adicional sobre a inflação corrente, via aumento das contas de luz, e também sobre a dinâmica de preços do ano que vem, através da inércia resultante de um IPCA mais elevado e do risco de novas medidas que visem à redução do consumo de eletricidade”. “Adicionalmente, as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas, em especial no que diz respeito ao cumprimento do teto de gastos em 2022, resultam em pressão mais duradoura sobre a taxa de câmbio, que deve apreciar um pouco menos do que esperávamos anteriormente.”

Para 2022, Espírito Santo diz que o cenário começa a preocupar, porque os dados de inflação começam a se distanciar do centro da meta, que é de 3,5%. “O sinal amarelo acendeu quando o Focus disse que a inflação projetada para 2022 está acima de 4%. Temos que tomar cuidado para não deixar desancorar a expectativa. Na hora que você começa a se afastar, mesmo que gradativamente da meta, traz um desconforto”, afirma Espírito Santo.

Para Gustavo Bertotti, economista chefe da Messem Investimentos, a inflação generalizada é o que mais preocupa o mercado. “O que preocupa é a deterioração das expectativas. Se pegar as últimas semanas do boletim Focus, o que nós vemos é uma expectativa de aumento de IPCA, da Selic, do câmbio e, o que eu vejo como mais preocupante, o PIB caindo”, afirma Bertotti.

“A cada divulgação de inflação reforça a percepção de que o Banco Central precisará levar o juro real ainda mais acima do seu patamar neutro para evitar uma deterioração das expectativas de inflação. Também vemos que a superação dos gargalos de oferta da indústria, que tem comprometido a produção de automóveis, eletrônicos e outros itens, só deve acontecer ao longo de 2022, enquanto os preços de alimentação devem ser impactados pela seca”, afirma Homero Guizzo, economista da Guide Investimentos.

Para Bertotti, o avanço da vacinação e a reabertura ajudam à retomada econômica no segundo semestre, mas a polarização política e a crise hídrica, podem complicar o cenário e fazer com que novas revisões surjam, aumentando ainda mais o nível de inflação, juros e reduzindo o PIB.

E o BC?

Nesta semana, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que o Copom (Comitê de Política Monetária) vai fazer o que for necessário para controlar a inflação. “Mas a gente também gostaria de dizer que isso não significa que o BC vai reagir, que vai ter alterações no plano de voo, a cada dado de alta frequência que sai. Ou seja, algumas coisas a gente tem comunicado, já tinha antecipado, algumas coisas de disseminação (de inflação) estão um pouco piores de fato na ponta, mas a gente tem um plano de voo que a gente olha num horizonte mais longo. Isso não significa que você não vai atingir o objetivo de estabilizar, de fazer a convergência da inflação à frente”, completou.

 

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