Somente até o dia 20 deste mês, o fluxo de recursos de estrangeiros em ações, fundos de investimento e títulos da dívida no Brasil já totalizou US$ 6,1 bilhões (o equivalente a R$ 32,4 bilhões) , o maior valor desde janeiro de 2019, de acordo com dados do Banco Central.

Esse caminhão de dinheiro que está voltando ao nosso mercado financeiro após os meses mais duros da pandemia de coronavírus tem a ver com uma espécie de virada de chave no apetite internacional por ativos mais arriscados e com o fato de nossos ativos estarem “baratos” na visão de muitos investidores.

A mudança começou com a definição das eleições americanas (a vitória do democrata Joe Biden) e ganhou corpo com os sucessivos anúncios da elevada eficácia das principais vacinas contra a infecção. Até agora, Pfizer, Moderna e AstraZeneca anunciaram que seus produtos funcionam entre 70% e 95% dos casos.

Em outras palavras, a retomada da vida normal deixou de ser uma dúvida: a questão passou a ser não mais “se houver vacina”, mas “quando as vacinas serão aplicadas”.

“Desde o anúncio das vacinas, há um movimento risk on [favorável à tomada de risco] no mercado mundial, em particular o acionário, com gestores comprando ativos mais arriscados, que foram os que mais sofreram com a pandemia”, explica o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.

O Brasil tende a ser especialmente beneficiado por essa onda de otimismo pelo fato de as ações e a moeda brasileira estarem entre as mais “descontadas”, já que estão entre as que mais tombaram no mundo no mundo no pico da crise.

Para se ter uma ideia, entre março e maio, os três piores meses da pandemia, US$ 32,9 bilhões (ou R$ 175 bilhões) em recursos de fora abandonaram o barco brasileiro. Mesmo com a entrada recente de recursos de estrangeiros em ações e fundos, de R$ 18,4 bilhões de maio para cá, nós ainda amargamos uma saída de mais de R$ 15 bilhões no acumulado de 2020.

Já o dólar, que caiu mais de 7% no mês, ainda acumula alta de mais de 30% no ano, o que já levou o real a ser citado como uma divisa “bem barata” em relatórios.

“[A alta na entrada de recursos estrangeiros] tem muito a ver com o ambiente internacional de ampla liquidez, o cenário de aumento de apetite a risco depois das eleições americanas, com a vitória do candidato democrata, Joe Biden”, pondera Carlos Kawall, diretor da ASA Investments e ex-secretário do Tesouro. “A perspectiva de mais estímulos fiscais ajuda na recuperação da economia mundial como um todo, favorecendo investimentos de risco em moedas emergentes”.

Dúvida sobre o futuro

Na avaliação dos economistas, ainda não é possível dizer se esse movimento observado em novembro terá continuidade.

“Não sei dizer se será uma tendência, ou mera correção. Estes movimentos de rebalanceamento de carteiras costumam ser rápidos’, lembra Schwartsman.

Um risco que o Brasil corre, e que é apontado por 10 entre 10 analistas, é do cenário fiscal ficar no meio do caminho — se houver interrupção da agenda de reformas e se o teto de gastos, mecanismo que limita a alta de gastos à inflação do ano anterior, for desrespeitado.

Para o ex-diretor do BC, esse cenário afugentaria investidores. “Mas ouso dizer que pelo menos em outros mercados, notadamente câmbio e renda fixa, a ausência de reforma já está em boa medida devidamente precificada”.

Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, lembrou que esses fluxos de recursos apresentam muita volatilidade. “Eu diria que os estrangeiros estão voltando, temos visto isso nos últimos seis meses”, afirmou. “Estão recompondo posições, mas é importante lembrar que esses ingressos são muito voláteis”.

O movimento atual vem beneficiando principalmente as chamadas blue chips (as ações de maior valor e peso na bolsa), como Petrobras e bancos, que representam quase um terço do Ibovespa.

Quando vão às compras no Brasil, os estrangeiros tradicionalmente miram papeis de empresas extremamente consolidadas, de baixo risco e alta liquidez (ou seja, que podem ser vendidos com facilidade).

Em grande parte, foram essas as ações que atraíram os recursos de fora.

Investimento direto em queda

Apesar dessa alta na entrada de recursos no mercado financeiro, quando o assunto é investimento direto (ou seja, investimentos produtivos, como construção de fábricas ou aquisição de empresas), o Brasil ainda tem forte queda em relação a 2019.

Em outubro, o investimento direto no país (IDP) somou apenas US$ 1,79 bilhão, segundo o BC –no mesmo período do ano passado, o montante foi de US$ 8,2 bilhões.

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