O resultado financeiro da Via, dona das redes Casas Bahia, no terceiro trimestre foi ofuscado pelas preocupações do mercado com o tamanho de seu passivo trabalhista. A companhia revisou suas provisões para pagamentos de ações trabalhistas de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,5 bilhões.

Isso aconteceu depois do número de novos processos disparar 82% no primeiro semestre de 2021 na comparação com igual período de 2020. O valor médio dos processos cresceu 32% de 2020 a 2021 em comparação aos anos de 2019 e 2020.

Em conferência com analistas nesta manhã, a Via disse que foi vítima de um esquema de escritórios especializados em captar ações trabalhistas contra empresas. “Metade das ações são de profissionais especializados em fazer captações de ações, oferecendo dinheiro para funcionário ativo entrar com ação ou indicar alguém”, disse Orivaldo Padilha, VP de Finanças da Via.

A notícia desse passivo gigantesco não caiu bem no mercado. “Reconhecemos as conquistas sólidas da atual administração. No entanto, também temos que reconhecer que o anúncio inesperado [do passivo trabalhista] revelou um legado negativo que nós (e o mercado) não estávamos levando em consideração, o que poderia levar a um menor poder de fogo para promover o crescimento nos próximos trimestres”, diz o Credit Suisse.

Para os analistas do Credit Suisse, o legado trabalhista trará impacto para os próximos resultados financeiros da Via. “Chegamos a uma projeção de prejuízo de R$ 486 milhões para 2022, ante lucro de R$ 419 milhões. […] Essa surpresa nos leva a adotar um tom mais cauteloso com a Via.”

Mas que ações trabalhistas são essas? São mais de 20 mil processos trabalhistas, com valor médio de R$ 113 mil. Mas há ações mais antigas, movidas por ex-funcionários com mais tempo de casa e salários mais altos que chegam a R$ 400 mil.

“Mais de 90% do reforço de nossas provisões são de processos antigos. Processos que ficaram muito tempo na Justiça fruto da redução do quadro de pessoal. De 2014 a 2017, a Via passou por um processo de redução de pessoal, terceirização e digitalização”, disse Orivaldo Padilha, VP de Finanças da Via.

Por que os valores dos processos são tão altos? Segundo Padilha, muitas indenizações antigas foram corrigidas pela TR + 1%. “Em alguns casos, essa correção representou de 200% a 400% do CDI. Isso encareceu as ações antigas. Há uma discrepância de valor entre os processos novos, fruto do turnover natural, e os antigos, de funcionários com salários mais altos.”

Por que tantas ações? Padilha disse que a companhia foi vítima de escritórios especializados em captação de ações trabalhistas. “Metade das ações são de profissionais especializados em fazer captações de ações, oferecendo dinheiro para funcionário ativo entrar com ação ou indicar alguém. Isso representou metade das ações deste ano. Empresas como bancos e telecom já tinham sido alvos desses escritórios, fizeram o dever de casa e deixar se ser alvos fáceis. Agora, eles miraram o varejo.”

Segundo ele, a Via mudou suas rotinas jurídicas para contra-atacar esses escritórios. “Prevemos que esses escritórios terão mais dificuldade daqui para a frente. Ficará mais difícil a entrada de novas ações e vamos ter mais sucesso na defesa. Fizemos uma revisão de nossos processos jurídicos e de escritórios parceiros para sermos mais eficientes.”

Por quanto tempo esse passivo impactará o resultado da Via? Até 2024, seguindo essa estimativa abaixo:

  • 4º tri de 2021: R$ 100 milhões a R$ 200 milhões
  • 2022: R$ 900 milhões a R$ 1 bilhão
  • 2023: R$ 600 milhões a R$ 700 milhões
  • 2024: R$ 300 milhões a R$ 400 milhões

“A maior parte das ações mais caras já terão sido pagas até 2022. Restará um número menor e de ações mais baratas e com isso devemos entrar no padrão do mercado [de passivo trabalhista] no final de 2023 e principalmente em 2024, que é de 0,68 por venda líquida”, disse Padilha.

O CEO da Via, Roberto Fulcherberguer, disse que a empresa não produz mais esse tipo de passivo trabalhista. “Esse passivo guarda relação com passado da companhia. A Via não produz mais esse passivo. As novas ações são fruto de um turnover médio de 6 a 8 meses, com valor infinitamente mais baixo que essas do passado. Mudamos a forma de nos relacionar com os novos processos. Temos uma tese de defesa renovada. Existem processos em que a parte ganhou porque não compareceu ninguém [da Via para defendê-la]. Essa possibilidade não existe mais.”

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