A cotação do real está perto das mínimas históricas, mesmo quando se leva em conta a inflação. Em tese, essa fraqueza excessiva jogaria a favor da nossa moeda, que tenderia a se valorizar para voltar ao ponto de equilíbrio em relação ao dólar.

Mas as coisas não funcionam assim quando se trata da complexa dinâmica do câmbio. Não por acaso, especialistas no mercado financeiro consideram uma das tarefas mais difíceis fazer projeções para o dólar, ainda mais em tempos de pandemia.

Quer um exemplo? A maior parte do mercado aposta em um dólar de R$ 5 até o final do ano, segundo o Banco Central. Mas tudo pode mudar. O Santander acaba de revisar sua projeção de R$ 4,60 para R$ 5,20.

Real está excessivamente desvalorizado

Desde o ano passado, analistas vêm alertando que a moeda brasileira está excessivamente desvalorizada. Após o dólar chegar perto dos R$ 6 no final de 2020, a divisa recuou, mas ainda se mantém com uma alta de 20% em relação ao início de março, período antes da pandemia de coronavírus.

Ou seja, há uma precificação excessiva dos riscos brasileiros na cotação do real.

Para os estrategistas Gabriel Tenorio e Claudio Irigoyen, do Bank of America, esse prêmio de risco se reduzirá com a vacinação contra a covid-19 em curso, menos ruído político, com o início do andamento das reformas, e maiores taxas de juros –a expectativa é que o Banco Central já suba a Selic na próxima reunião, em março, o que ajuda a atrair recursos para o Brasil e tende a desvalorizar a divisa dos EUA.

“A taxa de câmbio já reflete um prêmio de risco muito grande, no nosso ponto de vista. Em uma perspectiva de longo prazo, a taxa real de câmbio [descontada a inflação do período] já está perto dos níveis históricos mais fracos”, afirmam os especialistas em relatório.

Ainda segundo eles, a cotação do real está entre 10% e 15% abaixo do que consideram o valor justo da moeda, que seria em torno de R$ 4,80.

“Há pontos importantes que vão tirar a pressão do dólar. Os juros vão subir, e assim que isso começar a acontecer, os investimentos atrelados à taxa básica começam a se tornar atraentes, o que traz um fluxo de entrada de moeda americana no Brasil”, aponta Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

Ele afirma ainda que as reformas devem começar a tramitar no Brasil, e a expectativa é positiva pelo fato de o governo ter conseguido garantir aliados nas presidências da Câmara e do Senado. “Temos várias reformas importantes, que dão credibilidade para o país, como a administrativa e também a tributária, que devem começar a andar. Não necessariamente serão aprovadas neste ano, mas isso já vai ajudar a aumentar o otimismo do mercado”.

A retomada da atividade nos EUA e pressões sobre a inflação

Esse processo ainda não começou a acontecer porque há uma avaliação no mercado que o caminhão de estímulos que está sendo preparado para a economia americana pelo governo democrata de Joe Biden pode terminar em uma inflação mais alta do que o esperado.

Em janeiro, mostram dados divulgados na semana passada, os preços ao produtor no país avançaram na maior taxa desde 2009, sugerindo que a variação de preços nas portas das fábricas está começando a subir.

Isso poderia fazer com que o Fed (o banco central americano), eventualmente, opte por subir os juros –apesar de a autoridade monetária dos EUA ter negado, há especulação em torno dessa possibilidade. Uma taxa mais alta nos EUA –hoje está próxima de zero — ajudaria a atrair recursos para o país, encarecendo a divisa.

Esse cenário vem levando alguns analistas a revisarem para cima suas projeções para a moeda americana lá na frente.

“Com os sinais mais fortes de recuperação global, especialmente nos EUA, devemos começar a observar em 2022 uma mudança na retórica do Fed, passando a sinalizar política monetária mais apertada à frente. Nesse ambiente, a tendência é de apreciação do dólar ante outras moedas, entre elas o real”, disse o departamento de pesquisa macroeconômica do Itaú, chefiado por Mario Mesquita, ex-diretor do Banco Central.

Para Laatus, esse movimento é mais especulativo, e deve arrefecer nos próximos meses. Ele lembra que o Fed reiterou sua tolerância com uma inflação acima de 2% pelo tempo necessário para que a média dos preços fique na meta com o tempo. “Apesar de a inflação estar começando a mostrar sinais de aceleração nos EUA, o Fed já deixou claro que uma alta de preços de 2% para ele é um piso. Apenas acima disso vai começar a se preocupar com isso”, pondera Laatus.

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