Uma frase que de vez em quando é lembrada no mercado financeiro é que há formas melhores de se perder a reputação do que projetar o que vai acontecer com o dólar. Essa brincadeira com a imprevisibilidade do câmbio parece mais atual do que nunca, já que a moeda dos EUA anda especialmente volátil.

Independentemente dessa dificuldade, o fato é que muitos analistas vêm apostando que o real, uma das moedas mais castigadas pela pandemia, ganhará valor neste ano. É só olhar as expectativas do boletim Focus: a pesquisa aponta uma queda da divisa americana, que ontem fechou em R$ 5,50, para R$ 5 no final de 2021.

Essa é a média das projeções, mas muita gente que entende do riscado aposta em queda para baixo desse patamar.

Afinal, quais são os fatores que estão ajudando o dólar a subir neste início de ano? E porque o mercado aposta em uma desvalorização mais para a frente?

Onda azul, juros mais altos no futuro

A princípio, uma política fiscal expansionista, como a prevista para acontecer nos Estados Unidos, tende a enfraquecer o dólar. Mas por que então a moeda americana vem subindo com força? A razão é que nos últimos dias houve uma aposta que o tamanho da ajuda será tão grande que irá pressionar a inflação, forçando o Fed (banco central americano) a elevar taxas de juros no futuro.

Quando o democrata Joe Biden ganhou as eleições presidenciais nos EUA, no final do ano passado, a expectativa era de uma Câmara dominada pelos democratas mas um Senado ainda nas mãos de republicanos, o que daria um equilíbrio de forças em decisões como estímulos.

Mas a eleição recente de dois senadores democratas no estado da Georgia, que determinou o domínio do partido de Biden também entre os senadores, acabou consolidando um cenário de blue wave (onda azul, em referência à cor do Partido Democrata).

A legenda, tradicionalmente, tende a conceder mais incentivos à economia, e Biden já falou em um pacote de US$ 2 trilhões em investimentos em infraestrutura para impulsionar a atividade.

“Muita gente está achando interessante sair de emergentes e ir para os Estados Unidos aproveitar essas expectativas de crescimento gigantesco, por conta do alto grau de estímulos que os democratas vão colocar no mercado. Soma-se isso a elevação de juros futuros, que acaba sendo positiva para alguns tipos de investimento”, explica Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

Cenário fiscal ainda mais incerto com alta de casos de Covid

Outro fator que acaba determinando um real mais desvalorizado é o incerto cenário fiscal no Brasil.

O fato de o candidato da oposição à presidência da Câmara, Baleia Rossi, já ter dito diversas vezes que defende a prorrogação do auxílio emergencial ou aumento do Bolsa Família neste ano vem preocupando os investidores, que temem que o governo fure seu teto de gastos em 2021 para financiar mais medidas de assistência social.

O alto crescimento de casos de coronavírus no país e dúvidas sobre a implementação do plano de imunização, que tendem a atrasar a recuperação econômica brasileira, aumentam essas dúvidas.

Para Otávio Aidar, estrategista-chefe e gestor de moedas da Infinity Asset, há uma série de razões para a alta do dólar, mas não há justificativa para o tamanho da distorção em relação a outras moedas de países emergentes.

“Em relação a outras moedas, o real está em um dos períodos mais distorcidos da história”, afirma. “Mais até que o ano passado inteiro. A moeda brasileira continua apanhando mais que as outras”.

Movimento é pontual, dizem analistas

Apesar dessas incertezas, especialistas acreditam que esse movimento de fortalecimento do dólar é pontual e se reverterá em algumas semanas. A principal razão para isso é que a moeda americana ainda está com valorização de mais de 30% na comparação com o início do ano passado.

Em outras palavras, o real está “barato”, o que pode fazê-lo se beneficiar no momento em que o dólar virar e perder força no mundo. Isso é esperado porque, apesar de pressionar a inflação, os estímulos econômicos nos EUA tendem a colocar mais dinheiro em circulação, reduzindo o valor da divisa.

“Essa alta é pontual. A gente tem total clareza de que o dólar tende a voltar um pouco, daqui a uns dias, algumas semanas. Tanto que o BC não está atuando com força porque sabe que é algo bem pontual”, afirma Laatus. “Em breve, também veremos a taxa de juros começar a subir no Brasil e a agenda de reformas andar, e isso atrai investimentos para o país”.

 

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