Por essa ninguém esperava: as bolsas de valores do mundo todo tiveram um dia positivo nesta quarta-feira (4), mesmo com as eleições pegando fogo nos Estados Unidos. A diferença de votos entre os candidatos Donald Trump e Joe Biden está apertadíssima em estados importantes, o que faz com que o pleito siga em aberto no país. Para completar, o atual presidente já se anunciou vencedor — embora esteja atrás na contagem de votos — e disse que questionará os votos enviados pelos correios em alguns estados. Em resumo: ninguém sabe, ainda, quem será o próximo presidente dos EUA.

Quem olha para tanta instabilidade pode não entender as razões para a alta dos mercados. O Ibovespa avançou quase 2% nesta quarta-feira (4), puxado pelos índices americanos, que fecharam todos no azul. Na visão dos analistas o otimismo é exagerado, principalmente porque há muitos cenários possíveis à frente.

Se a ideia é buscar alguma explicação para o inesperado, a alta de hoje pode ser desvendada pela seguinte lógica: em um contexto de muitas hipóteses, quando um caminho começa a apontar no horizonte — ainda que seja o caminho tortuoso da judicialização — os investidores sentem-se mais firmes para voltar a apostar.

Ou seja: o mercado parece ter entendido que o caminho para as eleições dos Estados Unidos vai ser o da briga na Justiça pelo resultado, o que deve atrasar a vitória definitiva de um dos candidatos.

Tudo certo, nada resolvido

Os votos começaram a ser apurados ainda na madrugada de hoje, quando começou a ficar evidente que Trump daria mais trabalho do que o esperado. Analistas previam uma vitória de Biden com altas margens, mas não foi isso que aconteceu. Nas primeiras horas de contagem de votos, já foi possível perceber que Trump preservaria a preferência em redutos tradicionalmente republicanos, e que a vitória dependerá dos chamados swing states — estados decisivos, em que a disputa entre democratas e republicanos costuma ser apertada.

Ainda na madrugada, quando todos perceberam que Trump continuava vivíssimo na disputa, os índices futuros das bolsas caíram, mas em seguida engataram uma trajetória firme de alta, que se concretizou em um pregão positivo. O curioso é que os ânimos não mudaram nem mesmo quando Biden começou a ganhar frente de novo.

“Tivemos uma inversão de cenário e as bolsas continuaram em alta. Eu acredito que, de certa forma, havia um fluxo de investidores esperando algum cenário se concretizar para voltar a comprar. Agora que o Trump já se pronunciou, já dá para estimar quais serão os próximos passos”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide Investimentos.

Como está o placar

Até o começo da noite de quarta-feira, Biden acumulava 264 votos no colégio eleitoral, frente a 214 de Trump. São necessário 270 votos para conquistar a presidência, o que significa que Biden está a apenas um estado para conquistar a vitória. Se levar os votos em qualquer um dos estados que aparece na frente na contagem de votos (Nevada ou Arizona), o democrata já alcançará o número mínimo para a eleição.

A questão é que a diferença entre os dois candidatos é pequena nas urnas que ainda estão sendo apuradas, o que indica que a decisão pode ficar para os 45 do segundo tempo. Além disso, Trump já pediu a recontagem de votos em estados em que a vantagem de Biden foi menor que 1%.

O desfecho definitivo até a próxima sexta-feira (6), que era a melhor das hipóteses para os investidores, parece cada vez mais distante. “O movimento de curto prazo é bastante especulativo, por isso eu acredito que estejamos diante de um otimismo exagerado. A verdade a disputa está empatada, o resultado é incerto, e podemos ter amanhã uma queda mais forte das bolsas”, pondera Rafael Panonko, economista-chefe da corretora Toro Investimentos.

A bolsa vai cair amanhã?

Essa é a pergunta que os investidores têm se feito. Para Panonko, a chance de isso acontecer é grande. Se Trump realmente questionar a vitória do oponente, os Estados Unidos podem viver um embate judicial inédito. “A depender da proporção que isso tome, o questionamento pode fazer barulho e dar uma ancorada na alta recente do mercado. Claro que foi importante deixarmos para trás a incerteza inicial, mas ainda vejo muita volatilidade no horizonte à frente”, diz ele.

Outro ponto importante é que as eleições na Câmara e no Senado dos EUA também não saíram como o esperado. Os republicanos caminham para manter a liderança no Senado, e a Câmara deve continuar sob controle dos democratas. Inicialmente, havia o risco de o partido de Trump perder a dominância na primeira casa legislativa.

“Como os democratas não levarão ambas as casas do Congresso, reduz-se a probabilidade de (aprovação de) um massivo pacote de estímulos”, observa Alejandro Ortiz Cruceno, economista da Guide. Essa é uma notícia ruim para os mercados, já que o pacote de estímulo deve ser o principal motor de liquidez nas bolsas, o que poderia ajudar a amenizar as perdas causadas pela pandemia do coronavírus.

Por outro lado, um Senado republicano também poderia barrar pautas democratas, caso Biden realmente vença a presidência. O candidato tem prometido, por exemplo, acabar com o programa de incentivo fiscal de Trump, aumentando os impostos cobrados de empresas. Essa foi a principal medida que fez os investidores torcerem o nariz para a vitória de Biden. Tirar essa preocupação da frente pode ter feito o mercado olhar de forma mais amena a hipótese de uma presidência democrata.

O que o investidor deve fazer?

No meio de tantos cenários possíveis, o investidor fica sem saber se embarca no otimismo ou se foge da volatilidade. Panonko, da Toro, recomenda sangue frio. “O investidor de longo prazo não tem que olhar muito para o movimento dos próximos dias, porque o foco dele está nos efeitos duradouros das eleições”, diz ele. No entanto, embora a dica seja a de não entrar no oba-oba dos otimistas, o investidor deve avaliar se está exposto a algum setor que pode ser prejudicado no longo prazo.

“Estamos falando da definição do líder da maior potência econômica do mundo. Alguns setores podem ser impactados pelas novas políticas, então este é o momento de reduzir posições e reavaliar a carteira”, diz Panonko. Por exemplo: embora esse seja um futuro bastante hipotético, Biden já prometeu que, se eleito presidente, vai impor sanções ao Brasil caso o governo não tome medidas de preservação do meio ambiente.

Já Esteter lembra que apesar da alta de hoje, a bolsa brasileira continua 20% abaixo do ponto registrado um ano atrás, e que alguns ativos têm preços atrativos. Mas o analista alerta: “É importante dizer que o cenário de curto prazo ainda pode ter alguma desvalorização adicional da bolsa, e que o investidor deve ter alguma proteção na carteira, porque sempre podemos ser pegos desprevenidos”.

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