Após apresentar uma alta de mais de 5% em 2020, os novos empréstimos do sistema financeiro no Brasil devem manter a mesma taxa de crescimento em 2021, quando se leva em conta a inflação projetada para o período. A diferença é que tudo aponta para um perfil diferente da expansão de empréstimos neste ano.

Diferentemente do ano passado, quando o destaque da expansão de crédito foram as empresas, nos próximos meses as projeções são de uma retomada mais forte dos financiamentos a consumidores.

Esse cenário mais otimista para pessoas físicas, entretanto, só deve começar a se concretizar no segundo semestre, quando a expectativa é que a a pandemia de coronavírus estará mais controlada e o processo de vacinação mais avançado.

O que aconteceu com o crédito no ano passado? O estoque de crédito (ou seja, o total emprestado na economia) ultrapassou os R$ 4 trilhões, com alta de 15,5% na comparação com 2019, a maior alta desde 2012. As concessões (ou seja, novos empréstimos) cresceram 5,2%, segundo dados do Banco Central.

Essa expansão veio principalmente das empresas, como consequência dos programas do governo de ajuda no enfrentamento à pandemia. Alguns exemplos são o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) e o BNDES FGI (Fundo Garantidor para Investimentos).

“Foi construída uma grande ponte financeira para atravessar a covid em 2020”, explica Nicola Tingas, economista chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

No caso das pessoas físicas, o destaque foram os financiamentos imobiliários. Por outro lado, outras linhas para consumidores cresceram muito pouco ou caíram, devido à retração do consumo como consequência da pandemia.

“O crédito para consumidores foi mais afetado pela paralisação das atividades. A recuperação veio nos últimos meses, principalmente em aquisições de veículos e crédito pessoal”, explica Isabela Tavares, economista da consultoria Tendências.

E quais as projeções para o crédito em 2021? A expectativa é que, com o fim dos programas de financiamento com garantia do governo, a alta do crédito fique mesmo por conta da retomada do consumo.

Para a Tendências, a alta nos novos empréstimos deve ser de 2% neste ano em termos reais (descontada a inflação), o mesmo patamar do ano passado.

“Nessa alta, devem ser as pessoas físicas que voltarão a ganhar destaque no crédito”, afirma Tavares, da Tendências. “Mas a expectativa é que isso ganhe tração no segundo semestre, e que a alta seja gradual por causa das incertezas atuais”, explica ela. “O crédito imobiliário deve continuar em alta, mas em um ritmo um pouco menor”.

Para Tingas, da Acrefi, a “ponte financeira” que foi construída no ano passado para ajudar as empresas a atravessarem a pandemia, ou seja, as renegociações de financiamentos e empréstimos com garantia do governo, deveria ser prolongada.

“Essa ponte deveria ser em parte estendida um pouco mais neste início de ano”, afirma. “Com o fim do auxílio emergencial e a não volta da economia, por causa da segunda onda da covid, vemos essa demanda por uma ajuda financeira maior”. Na avaliação do economista, ficará mais claro, após as eleições para presidência da Câmara e do Senado, se os programas de crédito com garantia pública poderão ser renovados.

 

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