O Ibovespa afundou quase 4% nesta quarta-feira, marcando a maior queda diária em seis meses, refletindo preocupações com a pauta econômica do país diante do aumento da tensão político-institucional, após declarações do presidente Jair Bolsonaro durante manifestações no Dia da Independência, na véspera. A Bolsa fechou o pregão em queda de 3,78%, a 113.412 pontos.

Uma venda generalizada de ativos brasileiros dominou o mercado doméstico nesta quarta-feira e cobrou seu preço na taxa de câmbio, com o dólar experimentando a maior alta em 15 meses, subindo 2,89%, a R$ 5,326, nesta quarta-feira (dia 8).

O que aconteceu com a Bolsa? O Ibovespa recuou com força, com agentes financeiros repercutindo potenciais desdobramentos de manifestações no país na véspera.

Milhares de pessoas participaram de atos convocados por Bolsonaro no 7 de Setembro, marcados por ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com o chefe do Executivo ameaçando descumprir ordens judiciais.

As falas do presidente elevaram o patamar das discussões na classe política, com partidos condenando as declarações e alguns prometendo monitorar os próximos eventos para avaliar um eventual apoio a um processo de impedimento contra o presidente.

O presidente do STF, Luiz Fux, também reagiu com tom crítico nesta quarta-feira sobre as declarações de Bolsonaro, enquanto o presidente da Câmara dos Deputados adotou um viés menos duro.

Mesmo avaliando que as chances de um impeachment permanecem baixas, analistas chamaram atenção para um aumento no impasse institucional, que pode dificultar negociações de reformas como a tributária e administrativa no Congresso, além de atrapalhar as discussões temas como os precatórios, entre outros reflexos.

“O ruído político aumentou consideravelmente… O investidor fica sem confiança e, na dúvida, vende”, afirmou o sócio e economista da VLG Investimentos, Leonardo Milane.

Para ele, o tom dos discursos de Bolsonaro sinalizam que a situação não deve melhorar do dia para a noite. “Não parece que ele está na iminência de tomar um chá de consciência e começar a reformular o que disse; pelo contrário, a temperatura política esquentou e permanecerá quente por mais tempo.”

A reação negativa também contaminou o mercado de câmbio, com o dólar subindo 2,84%, a 5,3236 reais, maior alta desde junho do ano passado, bem como as taxas dos contratos de DI, com forte aumento da inclinação da curva futura de juros do país.

“O cenário político nacional voltou a preocupar e a aversão ao risco tomou conta”, afirmou o analista da Aware Investments Aldo Filho, acrescentando que traz apreensão o distanciamento entre os Poderes, “cuja sinergia é necessária para a aprovação de medidas relevantes para controle fiscal”.

As negociações ainda tiveram de pano de fundo o declínio dos pregões norte-americanos, com receios sobre os efeitos da variante Delta da Covid na recuperação econômica e incerteza sobre quando os próximos passos do Federal Reserve.

DESTAQUES

– LOCALIZA ON e UNIDAS ON dispararam 8,03% e 7,23%, respectivamente, após a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomendar a aprovação da fusão das duas companhias com a adoção de remédios que mitiguem riscos concorrenciais, que analistas consideraram mais brandos que o esperado.

– ITAÚ UNIBANCO PN caiu 4,74% e BRADESCO PN recuou 5,76%, em meio ao ambiente avesso a risco, após as manifestações na véspera reforçarem perspectivas de desmobilização das pautas econômicas. No setor financeiro, B3 ON desabou 8,38%.

– PETROBRAS PN perdeu 5,63%, descolada da alta dos preços do petróleo no exterior, também sofrendo com o clima tenso no cenário local. Também no radar estão manifestações em estradas federais do Sul do Brasil estão bloqueando pontualmente o tráfego de caminhões nesta quarta-feira.

– VALE ON recuou 2,08%, sofrendo com ajustes ao declínio de 1,9% de seu ADR na véspera em Nova York, em mais uma sessão de queda do setor de mineração e siderurgia, com nova sessão de fraqueza dos preços do minério de ferro. USIMINAS PNA caiu 5,74%, com dados da indústria automotiva brasileira também no radar.

– MÉLIUZ ON, que entrou no Ibovespa nesta semana, desabou 11,36%, a 31,20 reais. Acionistas da companhia aprovaram recentemente desdobramento das ações de 1 para 6. Os papéis serão negociados ex-desdobramento a partir de sexta-feira. Desde a máxima no final de julho, a ação acumula queda de quase 60%.

O que aconteceu com o dólar? Uma onda de “stop loss” (ordens automáticas para minimizar perdas) fez o dólar de uma só vez deixar para trás todas as suas principais médias móveis –de 50 (R$ 5,1988), 100 (R$ 5,2142) e 200 dias (R$ 5,3173). Um eventual fracasso no dólar na quinta-feira em voltar abaixo pelo menos da média de 200 dias pode servir de combustível para mais compras da moeda norte-americana.

Ao longo da tarde, o noticiário mais frequente sobre paralisações em estradas federais por caminhoneiros se somou ao clima já bastante azedo depois do tom belicoso do presidente Jair Bolsonaro em discurso em São Paulo no 7 de Setembro. A leitura de que o chefe do Executivo pode estar mais isolado e mais vulnerável a renovadas pressões por impeachment também pesou.

“Tivemos Joesley Day, coronaday, Petroday e agora BolsonaroDay”, comentou Alfredo Menezes, sócio-gestor na Armor Capital, referindo-se a dias em que houve forte depreciação dos ativos brasileiros.

“O foco agora para o mercado é o movimento de caminhoneiros, notícias de algumas paralisações. Seria horrível para o PIB e o fiscal. Pode ser um grande tiro no pé”, completou.

O mercado já abriu com reação negativa às falas de Bolsonaro na véspera e durante a manhã ficou na expectativa por declarações do presidente do STF, ministro Luiz Fux, e de figuras importantes do Legislativo.

O discurso de Fux foi considerado duro, enquanto o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que a Casa atuará como uma ponte de pacificação entre o STF e o governo. Lira evitou falar de impeachment e pontuou que cada um dos Poderes tem as suas delimitações e deve se limitar a seu raio de ação.

“O incentivo do Bolsonaro é brigar… E agora gasolina, dólar, inflação… todos esses assuntos sumiram (da pauta do governo)”, disse um gestor de uma grande instituição financeira na capital paulista, avaliando que o mercado ainda tem espaço para piorar antes de qualquer alívio mais consistente.

O forte ajuste nos preços reflete ainda a percepção de que o melhor dos cenários agora pode se limitar a evitar uma deterioração adicional.

“(Bolsonaro) esticou demais a corda… Na minha visão o governo já perdeu toda a capacidade de fazer reformas decentes. Agora, quanto menos fizer e gastar tempo com isso, melhor”, disse Joaquim Kokudai, gestor na JPP Capital. O profissional diz que suas posições em caixa (as mais conservadoras) têm espaço para aumento e “provavelmente é o que acontecerá”.

“Se conseguir manter o teto de gastos já vai ser uma ótima notícia”, resumiu o gestor.

O dólar à vista teve sua maior valorização percentual diária desde 24 de junho de 2020 (+3,33%), quando a pandemia de Covid-19 estava no auge em termos de perturbações no mercado.

O patamar do dólar é o mais alto desde o último dia 23 (R$ 5,3823). O real teve, de longe, o pior desempenho entre as principais moedas globais nesta sessão.

Entre outros mercados domésticos, os juros futuros de longo prazo –que medem o custo do dinheiro para investimentos empresariais– chegaram ao fim da tarde em disparada de 27 pontos-base, e o principal índice das ações brasileiras tombou 3,78% (dados preliminares), maior queda desde 8 de março deste ano.

Maiores altas:

Localiza (+8,14%)
Locamérica (+7,23%)
Suzano (+3,53%)

Maiores baixas:

Méliuz (-11,36%)
Via (-9,35%)
Eletrobras (-8,29%)

Com a Reuters

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