Os investidores estrangeiros, que passaram longe do Brasil por boa parte de 2020, aportaram impressionantes R$ 22,6 bilhões na bolsa brasileira em novembro.

O movimento supera, de longe, as alocações feitas nos meses que fecharam no azul em 2020. Para se ter uma ideia, em junho, agosto e outubro, os estrangeiros tiveram saldo positivo de menos de R$ 3 bilhões na B3.

Até o dia 16 deste mês, o pequeno investidor, o pessoa física, considerado o pilar da bolsa nos meses de vacas magras da pandemia, foi na direção contrária: retirou R$ 8,4 bilhões em recursos, segundo dados da B3. Os investidores institucionais (os fundos de investimento) também ficaram no vermelho (R$ 9,2 bilhões no negativo).

Essa troca de bastão na sustentação do Ibovespa tem nome: realização de lucros.

“Para alguém comprar, alguém tem que vender. E a pessoa física estava bem compradora nos últimos meses. Comprou quando a bolsa estava lá embaixo, barata, e comprou bem. Quando chega o investidor estrangeiro e começa a comprar, isso dá para uma porta de saída para o pequeno vender com lucro”, explica Luís Sales, analista da Guide Investimentos.

Segunda onda no Brasil assusta

Para analistas, essa saída da pessoa física da bolsa também está relacionada a outra questão: o receio da segunda onda de coronavírus, com as notícias sobre um novo aumento de casos de covid 19 e de hospitais lotados, assustaram o investidor de pequeno porte.

“Tem uma realização de ganhos importante e tem um medo mais forte da pessoa física de uma segunda onda, que o estrangeiro, do ponto de vista do Brasil, não está olhando”, diz Sales. “O pequeno está mais cético com essa retomada, principalmente com a alta no número de casos. As pessoas estão sentindo isso no dia a dia. Quem comprou na alta, agora está colocando um pouco do lucro no bolso”.

Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital, aponta outro fator para essa mudança: os papeis que “bombaram” na pandemia estão com um desempenho recente não tão bom.

“No exterior, por exemplo, muitos setores ligados à tecnologia, que vinham tendo altas fortes, pararam de ter essa performance. E os papeis em que os estrangeiros em geral entram, como bancos, petróleo e mineração, estão melhores. Essa diferença de alocação de portfólio está bem concentrada”.

Segundo ele, os bancos vêm sendo uma “grata surpresa” nesse final de ano. “Petrobras e Vale também têm se destacado, muito graças ao investidor estrangeiro”, diz Junqueira.

E daqui para a frente?

A tendência é que esse movimento se mantenha por pelo menos mais alguns meses, segundo analistas.

A razão para isso é que a definição das eleições americanas e a recente divulgação de eficiência acima de 90% de duas vacinas, a da Pfizer e a da Moderna, fez com o apetite por risco dos investidores internacionais aumentasse bastante.

Além disso, o Fed (banco central americano) já indicou que manterá os juros em níveis mínimos por bastante tempo.

Tudo isso tende a exercer uma pressão baixista sobre o dólarem relatório divulgado no início desta semana, o Citigroup apontou que o valor do dólar em relação a uma cesta de moedas pode se reduzir em até um quinto do observado hoje.

“Depois da eleição, e também com o avanço das vacinas, vimos investidores divulgando a intenção de ir para mercados emergentes de forma estrutural”, aponta Junqueira. “Mas temos uma agenda de reformas para andar. Esse será um ponto que vai ou não determinar que essa entrada de estrangeiros seja mais duradoura”.

Para Sales, esse fluxo de investimento estrangeiro pode permanecer pelo menos por três meses. “Começamos a ver um cenário mais positivo para o Brasil e emergentes em geral, em especial commodities, petróleo. Mas tem que ficar atento, não acho que seja um fluxo consistente ainda”.

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