A necessidade de buscar retornos maiores levou o investidor a abandonar os fundos de renda fixa em 2020. Eram tempos de uma taxa Selic que emagreceu até o mínimo histórico de 2% ao ano. Quem saiu ganhando com isso foram os fundos de ações e os multimercado, categorias que, juntas, tiveram incremento de captação de cerca de R$ 170 milhões no ano, enquanto os fundos de renda fixa amargaram perdas próximas a R$ 60 milhões.

De lá pra cá, muita coisa mudou. De um lado, 2021 tem sido bastante desafiador para quem investe em renda variável. De outro, a escalada da inflação obrigou o Banco Central a promover um ciclo de aperto monetário, com altas cada vez maiores da taxa básica de juros. Com isso, a fotografia de novembro de 2021 mostra um cenário totalmente oposto ao do início do ano: tanto os fundos de ações como os multimercado estão se desidratando, enquanto a captação da renda fixa só faz crescer.

Dados fornecidos pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) revelam que, entre 1 e 22 de novembro, os fundos multimercado perderam R$ 3,480 bilhões. Os fundos de ações sofreram uma sangria ainda maior, de R$ 4,984 bilhões. Enquanto isso, o volume captado pelos fundos de renda fixa teve expansão de R$ 40,312 bilhões.

Os fundos cambiais e de previdência também tiveram captações negativas no mês – de R$ 293 milhões e R$ 704 milhões, respectivamente. E os ainda novatos ETFs veem seu mercado crescer aos poucos – em novembro, captaram R$ 340 milhões a mais.

Por que houve essa migração? Nelson Muscari, coordenador de fundos da Guide, observa que houve uma grande piora da percepção do mercado em relação aos fundamentos da economia do país, principalmente com a questão do teto de gastos. Isso abalou a performance do Ibovespa e deixou o investidor menos confortável para se expor a fundos de ações e multimercados, que captam esses abalos de forma mais direta.

“Quando a pessoa física olha a rentabilidade de curto prazo desses fundos e a compara com o retorno do CDI e do Tesouro Direto, turbinado pela Selic em alta, ele acaba migrando para a renda fixa. É um ativo que ele já conhece bem e que não oferece tanto risco”, analisa.

Leitura parecida é feita por Luiz Felippo, sócio da Nord Research. Ele aponta que a Bolsa acumula recuo de cerca de 15% no ano e, de outro lado, os fundos de renda fixa vêm entregando resultados bem superiores ao das classes que perderam recursos.

“O investidor compara os retornos, vê que o crédito [renda fixa] está performando melhor e não tem volatilidade: a cota é lisa, parece uma reta. É uma performance com pouco risco aparente. Isso explica o crescimento dos fundos de renda fixa”, afirma.

É um caminho sem volta? Talvez não. Felippo pondera que essa migração para os fundos de renda fixa foi atraída por uma diferença de ganhos que pode não se sustentar no longo prazo, principalmente nos fundos do tipo high grade, que investem em dívidas de empresas com avaliação de risco mais elevada.

“Para captarem recursos, essas empresas precisam pagar uma taxa maior que a do governo, pois são mais arriscadas. Com o fechamento dos spreads de crédito na pandemia [que aumentou muito as taxas pagas pelos títulos], os fundos de renda fixa foram turbinados, entregando retornos bem maiores do que costumavam”, ele conta. “Olhando para a frente, isso não parece ser sustentável, porque os spreads hoje estão menores. Para um fundo continuar entregando tanto, ele terá que correr muito mais risco.”

Já Muscari acredita que os fundos multimercado tendem a se sair melhor neste ambiente de juros mais altos. “Muitos gestores desses fundos são profissionais formados em tesouraria que se acostumaram a operar juros. Com juros estáveis a 2% ao ano, havia menos operações possíveis de serem feitas. Já nos patamares atuais, eles têm mais espaço para usar a própria expertise”, compara.

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