São muitos os motivos para os juros futuros já apontarem para os dois dígitos: inflação em disparada, parcelamento de dívidas da União para abrir espaço no Orçamento, Bolsa Família reformulado (e ampliado) e crise entre poderes, para citar apenas alguns.

Da mesma forma que a renda variável se beneficiou da forte queda dos juros nos últimos anos, agora também está sofrendo com a competição que taxas mais elevadas representam. Somente em agosto, o Ibovespa já caiu 3%, e encerrou a semana passada na casa dos 118 mil pontos. O Ifix, índice que acompanha os fundos imobiliários, tombou 4,2%.

Esse movimento pode ser notado também nos dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), que mostram que, enquanto os fundos de renda fixa atraíram R$ 53,4 bilhões neste mês até o dia 19, os de ações ficaram no azul em meros R$ 518 milhões.

“A alta dos juros já está afetando a Bolsa, isso é fato. Tem CDB [Certificado de Depósitos Bancários] pagando duas vezes a Selic, título do Tesouro Direto rendendo mais de 10%. Tudo isso atrapalha”, aponta o CEO da casa de análises Ohmresearch, Roberto Attuch Jr.

Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo, avalia que a taxa básica subindo não é o problema principal da Bolsa, mas faz o contraponto de que o aumento do risco fiscal e do risco político atrapalham, e muito.

“Estamos tendo um problema sério. Ninguém gostou da reforma do Imposto de Renda, e há uma preocupação com gastos excessivos. Começam a falar de ‘criatividades’ como parcelamento de precatórios”, afirma. “Também tem a temperatura política, que esquentou. Em vez de todo mundo estar alinhado, o Executivo fica brigando com o Supremo, e o Legislativo entra no meio. Tudo em meio a um ambiente de eleições presidenciais em 2022.”

Para o gestor da Vitreo, outro aspecto do problema é que o BC subestimou a inflação. “Antes, o discurso do Banco Central era de que ia para os juros neutros. Com a inflação surpreendendo para cima, já está claro que vai mirar acima do juro neutro, porque está atrasado.”

Menos crescimento

Além da redução do chamado custo de oportunidade de se investir em Bolsa, há outro impacto da alta dos juros futuros na renda variável: a redução das previsões de crescimento econômico para o ano que vem. Os analistas ouvidos no boletim Focus, do Banco Central, já esperam uma alta do PIB (Produto Interno Bruto) de 2,04% em 2022, projeção que se reduz semana a semana (era de 2,10% há um mês).

Attuch, da Ohm, lembra que determinados setores são especialmente penalizados por esse movimento, como incorporadoras (não à toa, o índice do setor imobiliário já tombou mais de 13% em agosto até agora) e as novatas da Bolsa, que fizeram IPO (abertura de capital) neste ano.

Há ainda um aspecto técnico em meio a todo esse movimento, como lembra João Beck, economista e sócio da BRA: parte dos gestores de fundos de investimento estavam apostando em juros básicos menores. Conforme a realidade foi se impondo, foram obrigados a se desfazer das suas posições. “Houve um desarme grande de posições de fundos que precisaram se desfazer de posições excessivas em apostas de queda de juros”, afirma.

O efeito Delta e as commodities

Mas a Bolsa vem sofrendo também por outra razão: a mudança de humor no mundo em relação a ativos de risco com o avanço da variante Delta do coronavírus. Um dos dados que assustaram os investidores foi que, apesar da vacinação avançada, Israel, onde a população foi imunizada com Pfizer, está enfrentado uma inesperada disparada de casos.

“Muitos países já estão falando em terceira dose da vacina. O ânimo da retomada, que poderia impactar o Brasil, foi afetado”, avalia Knudsen, da Vitreo.

O crescimento global menor do que o esperado também vem desanimando a Bolsa. “O reflexo disso é a queda forte dos preços das commodities, em especial do minério de ferro”, afirma Beck, da BRA, lembrando que a Vale é a empresa de maior peso no Ibovespa.

Na avaliação de Attuch, da Ohm, os dados de Israel, quando analisados detalhadamente, mostram que as vacinas reduzem muito a possibilidade de casos mais graves de covid. “Acredito que o que está pesando mais sobre a Bolsa é mesmo a questão fiscal, e a consequência que pode ter sobre o nosso crescimento.”

E daqui para a frente?

E será que esse cenário continuará tão volátil e ruim para a renda variável pelo resto do ano? Os especialistas se dividem sobre essa questão. “Vai continuar ruim por um tempo”, avalia Attuch. “A não ser que, por algum motivo, a temperatura da crise institucional se reduza, ou que o governo resolva a questão fiscal. Mas não tem nenhum indicativo disso.”

Para outros analistas, esse é um momento em que a Bolsa e os fundos imobiliários estão baratos.

“Muitas empresas estão negociadas a um valor abaixo do que deveriam”, opina Knudsen. “O momento técnico de curtíssimo prazo está ruim. Mas a Bolsa, fundamentalmente, está barata. Todo mundo vai parar, analisar, e a lógica é que o Ibovespa vai voltar a subir.”

É a mesma avaliação de Beck. “A Bolsa precifica um cenário muito dramático à frente. Há uma dicotomia gritante entre os preços de tela e a economia real que tem perfil de dívida melhor que tempos passados e que saiu de uma temporada de balanços com lucros superando o período pré-covid”.

Fundos imobiliários

A alta nos juros vem sendo sentida também nos fundos imobiliários, que viraram queridinhos dos investidores nos últimos anos mas que vêm sofrendo uma debandada nas últimas semanas.

Para Felipe Solzki, sócio e gestor de fundos imobiliários da Galapagos Capital, essa saída  não faz sentido.

“Na minha visão, essa saída é equivocada. O fundo imobiliário tem rendimento real, já que os ativos imobiliários se valorizam junto com a inflação. Por isso dizemos que os fundos imobiliários têm rendimento real. Ainda estamos acima do rendimento de títulos públicos”, diz ele, lembrando que os dividendos dos FIIs são isentos de Imposto de Renda.

 

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