Quem vê a rápida recuperação das ações da Bolsa pode nem imaginar que o Brasil possivelmente terá em 2020 a maior queda do PIB da história. A economia deve encolher mais de 6% neste ano, de acordo com as previsões do relatório Focus, elaborado pelo Banco Central. O Ibovespa, no entanto, recuperou quase 80% do valor da cotação máxima, atingida no final de janeiro.

Depois de mergulhar para 63 mil pontos em março, o principal índice de ações brasileiro chegou aos 94 mil pontos na última sexta-feira (5). Para se ter uma ideia da rapidez dessa retomada, os analistas de bancos e consultorias achavam que o patamar dos 90 mil pontos só seria recuperado no final do ano — isso se fosse, já que alguns contavam com o Ibovespa na casa dos 70 ou 80 mil pontos apenas.

O Bank of America (BofA) chegou a prever o índice em 76 mil pontos no final de 2020. Já o Credit Suisse acreditava que a bolsa alcançaria apenas os 91 mil pontos — patamar já superado nesta semana. A retomada foi tão rápida que nenhum dessas casas divulgou ainda novos cálculos.

“É bem verdade que os bancos erraram no começo do ano, quando previam a bolsa no patamar dos 120 ou 130 mil pontos, e que depois erraram de novo nas revisões durante a pandemia. Mas era impossível prever a profundidade do impacto do vírus no mundo e as medidas sem precedentes de injeção de recursos nos mercados tomadas pelos bancos centrais”, explica Henrique Esteter, analista da corretora Guide.

Por que mudou tão rápido? Embora os indicadores econômicos ainda estejam em queda e a curva de contaminação continue ascendente no Brasil, o mercado financeiro não está refletindo nenhuma dessas preocupações. O otimismo recente foi fiado nas boas notícias que vêm do exterior.

No campo da saúde, os investidores estão animados com a possibilidade de uma vacina chegar mais rápido que o esperado. Inicialmente, estimava-se que uma imunização só estaria chancelada em um prazo de 18 a 24 meses, mas há chances de as primeiras doses da vacina serem aprovadas ainda no final de 2020.

No campo da economia, os investidores estão animados com os primeiros indicadores positivos que começam a surgir no radar. A reabertura das economias europeias e o contágio sob aparente controle deram esperança de uma volta à relativa normalidade antes mesmo de uma vacina. Além disso, o mercado de trabalho parece estar saindo do fundo do poço antes que o esperado nos Estados Unidos.

A liquidez é um fator muito importante. Os bancos centrais das principais economias não pouparam esforços em prover recursos para que os governos pudessem estimular as empresas e a renda das famílias. Não se sabe, ainda, qual será o reflexo de toda essa liquidez injetada no mundo de uma só vez, mas no curto prazo isso tem sustentado o apetite de risco dos investidores externos.

“A condução das autoridades monetárias está gerando fôlego para o apetite a risco, além de prover liquidez para o setor privado. Todos estávamos esperando resultados econômicos ruins, mas eles vieram melhores que o esperado. Então essa liquidez se transformou em aposta nos mercados financeiros“, explica Lucas Carvalho, analista da corretora Toro.

Isso beneficia o Brasil? Sim, e outros países emergentes também. Não por acaso, esse ambiente otimista e a injeção de liquidez extra causaram a maior valorização das moedas emergentes em uma única semana desde 2016. Por aqui, o dólar chegou a flertar com os R$ 6, mas despencou para R$ 4,98.

Mas e os problemas entre a China e os Estados Unidos? Antes de o coronavírus ser uma realidade, o mercado ficou muito animado com um possível acordo que encerraria a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. No entanto, não só o acordo não foi para a frente, como os ânimos voltaram a ser acirrados pelo presidente americano Donald Trump.

Além de atribuir a culpa da disseminação do covid-19 ao governo chinês, Trump tem dito que está disposto a cancelar qualquer tentativa de acordo e a retomar a tensão comercial com o gigante asiático. Falas como essa teriam causado muita tensão nos mercados financeiros em outros tempos, mas não agora.

“Os investidores estão ignorando fatos que em outro cenário teriam impacto sobre os índices. Acredito que estamos em um patamar de conflitos entre EUA e China bem relevante, e não acho que a situação esteja tão tranquila. Mas voltamos à questão da liquidez: nunca foi injetado tanto dinheiro na economia como agora”, constata Esteter.

Ele lembra que os juros estão baixos no mundo todo, inclusive aqui no Brasil, o que abre caminho para aplicação em ativos de maior risco.

Mas a turbulência brasileira não atrapalha? O fato de o presidente Jair Bolsonaro estar em pé de guerra com o Supremo Tribunal Federal, o avanço de mortes por coronavírus e os protestos contra o governo não parecem abalar o ânimo do mercado. A visão dos analistas é de que esse ambiente de conflito entre o executivo e os outros poderes já ganhou ar de normalidade, por causa da postura comum do presidente.

“Mercado está mais de olho no viés externo do que nos episódios de Brasília. Toda semana tem algum novo ruído político, mas acredito que a fase mais nebulosa para o governo já passou — exceto, claro, se surgir algo muito extraordinário”, pondera Carvalho, da Toro.

A empolgação não está excessiva? Muita gente tem torcido o nariz para a recuperação da bolsa, apostando em um eventual segundo tombo. Isso porque, na visão desses analistas, o otimismo estaria passando do ponto.

Para Esteter, essa dose de euforia deve ser corrigida com alguma realização de lucros em um futuro próximo. “Eu não descartaria alguma queda do Ibovespa nos próximos dias, porque a alta recente foi muito forte. Porém, não acho que seria uma reversão de tendência, não acredito que vamos voltar para os patamares dos 60 mil pontos, por exemplo”, diz ele.

O analista da Toro concorda com essa estimativa de uma queda no curto prazo, e diz que depois disso deve haver um movimento estacionário no índice. “O mercado vai ficar andando de lado, à espera de novos indicadores e da atuação dos governos”, prevê Carvalho.

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