O combustível do foguete que impulsionou os mercados em 2019 vai acabar. As taxas de juros nas economias desenvolvidas não vão continuar próximas de zero para sempre e, quando isso deixar de acontecer, a volatilidade voltará aos mercados.

A previsão pode parecer alarmista para quem aguarda um novo ano de recordes nas bolsas, mas merece atenção pela reputação do mensageiro: o bilionário investidor americano Seth Klarman, que comanda um dos maiores fundos hedge do mundo, o Baupost Group, com cerca de US$ 30 bilhões em ativos sob gestão.

Conhecido também como o “Oráculo de Boston”, em referência às semelhanças pelo estilo para investir com o também bilionário Warren Buffett — que é o “Oráculo de Omaha” –, Klarman fez o alerta em sua carta anual do Baupost enviada a investidores no fim de janeiro. Desde então, o tema se tornou tema de debates no mercado financeiro.

A carteira do Baupost obteve um retorno abaixo de 10% em 2019, o que Klarman disse que se deveu a uma combinação de fatores: posições conservadoras, ações de valor (value stocks em inglês) que continuaram a ter um desempenho abaixo do esperado, a falta de boas oportunidades e alguns erros cometidos na gestão do portfólio.

Ações de valor são aquelas cuja cotação está abaixo do que deveria ser se fossem considerados os resultados da empresa. São em tese boas oportunidades de investimento, uma vez que o mercado está subavaliando o seu real valor.

Seth Klarman, que comanda o Baupost Group, um dos maiores fundos hedge do mundo
Crédito: Jeenah Moon/Bloomberg

Mas as oportunidades começaram a aparecer, principalmente no segundo semestre. Para dispor de capital para aproveitá-la, o Baupost passou a se desfazer de muitos ativos que já refletem seu preço justo. O resultado é que o fundo encerrou o ano com o equivalente a 31% do seu portfólio em dinheiro, ou seja, recursos que não estão alocados em nenhum fundo ou ativo de qualquer espécie. É outra semelhança com a estratégia de Buffett.

“Algumas vezes, o mercado te conta uma história, mesmo que os negócios da companhia digam outra coisa. Esse é o caso de muitas ações de valor atualmente, cujas cotações sobem abaixo da média de mercado de forma significativa, mesmo que as empresas tenham um forte fluxo de caixa operacional”, escreve Klarman na carta.

O experiente investidor de 62 anos traça um paralelo histórico e aponta que em apenas outras duas ocasiões as chamadas small caps (empresas com pequeno valor de mercado) de valor americanas se valorizaram tão pouco em termos relativos: antes da Grande Depressão de 1929 e no auge da bolha de tecnologia, em 1999. Ele ressalta que nem todas as ações negociadas a preços baixos são de fato boas oportunidades de compra.

Mas conclui o “Oráculo de Boston”: “Nós acreditamos que a atual onda de venda de ações de valor tem contribuído para alterar os preços, algo que representa uma oportunidade potencial para investidores de longo prazo.”

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