Assim como uma série de motivos impulsionaram a cotação do dólar para a máxima histórica ao longo da crise do coronavírus, com a moeda valendo quase R$ 6 em meados de maio, a tempestade perfeita se inverteu e empurrou a divisa de volta para o patamar dos R$ 5.

Chamado de “moeda tóxica” pelo banco Credit Suisse, o real foi a divisa que mais se valorizou entre 30 moedas acompanhadas pela Reuters no movimento recente de desvalorização do dólar. Apenas neste mês, a queda da moeda americana por aqui foi de mais de 8%, bem acima dos 5,3% do segundo colocado nesse ranking, o rand sul africano.

É fato que a liquidez voltou com força aos mercados, através dos inúmeros estímulos dados pelas economias desenvolvidas, e que há um grande otimismo externo com o processo de reabertura de países da Europa e regiões dos Estados Unidos.

Tudo isso reduz a aversão ao risco representado por emergentes como o Brasil.

Mas, além da recuperação da economia global, quais as razões para o real, em particular, ter ganhado mais valor nesse rali recente do que outras moedas emergentes? O 6 Minutos conversou com alguns especialistas sobre esse tema e te responde abaixo.

O real foi a moeda que mais perdeu valor durante a crise

Em primeiro lugar, o real foi a moeda que mais perdeu valor neste ano.

Em 2020, a despeito da queda das últimas semanas, o dólar ainda acumula um avanço acima de 20% sobre a moeda brasileira, que agora é considerada barata pelos investidores.

Essa desvalorização já vinha acontecendo mesmo antes da crise por causa da redução cada vez mais forte da nossa taxa básica de juros –ou seja, o preço que nossos títulos pagam ao investidor estrangeiro se reduziu, diminuindo também a atratividade do Brasil para o capital internacional.

Os impactos da pandemia sobre uma economia ainda frágil e o agravamento da crise política, com conflitos escalando cada vez mais entre os poderes, fizeram com que a moeda brasileira fosse a mais penalizada.

“De repente veio a pancada do coronavírus e tivemos uma performance muito pior do que outras moedas”, aponta o especialista em câmbio da gestora independente de fundos MZK, Gustavo Menezes.

A recuperação da economia mundial e um clima aparentemente melhor entre o Executivo, Judiciário e o Congresso mudaram esse jogo.

“Durante a crise o real chegou a cair 36%, foi moeda que mais se desvalorizou no mundo. É normal que tenha movimentos mais amplos agora, é uma forma de corrigir aos poucos”, explica Jefferson Laatus, estrategista-chefe do grupo Laatus.

Os estrangeiros estão voltando à bolsa

Após fugirem de ativos de risco, com destaque para a bolsa brasileira, a que mais caiu durante a crise, os estrangeiros estão de volta, o que também ajuda a moeda brasileira.

Dados preliminares da B3 ajudam a explicar esse movimento. Foram os investidores de outros países a força motriz por trás do rali recente do Ibovespa: eles colocaram R$ 3,1 bilhões na bolsa brasileira, enquanto que os investidores pessoa física e os fundos de investimento somados, por exemplo, retiraram R$ 3 bilhões.

“Houve uma fuga muito acentuada de ativos financeiros do Brasil, e agora teve esse repique. Essa volta de ativos de risco no mundo inteiro coloca pressão no câmbio”, pondera Menezes.

As exportações de commodities estão se recuperando

Após a retração severa nas exportações de commodities por causa da pandemia, o Brasil retomou  suas vendas externas, e o ingresso desses recursos também ajuda a valorizar o real.

Para se ter uma ideia da importância disso para a formação do preço do dólar, em abril, no auge da crise, a queda nos preços das commodities representou mais de 50% da depreciação do real.

Esse cenário está mudando agora, com a recuperação da economia global.

“As exportações aumentaram bastante, principalmente as de insumos agrícolas. Mas quando a China começa a importar muito, começa a definir preço”, afirma Laatus, que pondera que essa estratégia do gigante asiático tende a frear uma recuperação maior das cotações.

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