A bolsa de valores brasileira, a B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), inicia 2020 com a chance de atingir um feito inédito: cinco anos seguidos de valorização.

Em 2019, o Ibovespa atingiu o quarto ano consecutivo de alta. O resultado iguala o período entre 2004 e 2007 como a maior série de retornos anuais positivos.

Para analistas de mercado, é improvável que o Ibovespa repita a valorização de cerca de 30% de 2019, mas há sinais positivos suficientes para esperar que o índice atinja cerca de metade disso. Ao menos, é o que aponta a média das principais estimativas.

“A bolsa deve continuar sendo o ativo mais atraente nesse cenário de juros baixos por mais tempo, crescimento acelerando, mesmo que gradualmente, e reformas estruturais acontecendo”, projetou Betina Roxo, analista da XP Investimentos, em análise divulgada pela corretora.

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B3 inicia 2020 na expecCrédito: Shutterstock

Evandro Buccini, diretor de renda fixa e multimercados da Rio Bravo Investimentos, ressalta a busca de empresas por crédito no mercado de capitais e até as lições do recente período de recessão.

“As empresas fizeram a lição de casa na crise, cortaram gastos e estão mais produtivas”, avalia, em entrevista ao 6 Minutos. Também contribui para esse processo a entrada progressiva de pessoas físicas na bolsa de valores, que, com juros mais baixos, migram para a renda variável em busca de rendimentos mais interessantes. Neste ano, o número de CPFs cadastrados chegou a 1,6 milhão de pessoas, o dobro do final de 2018.

A tendência é a bolsa se valorizar. Mas quanto? As estimativas oscilam. Levantamento recente realizado pela Bloomberg com operadores do mercado estima que o mercado fecharia o ano perto de 125.000 pontos.

Mas há quem vá mais longe: a XP projeta que o Ibovespa alcance os 140.000 pontos daqui doze meses, o que faria a alta chegar a pouco mais de 20%. Os percentuais foram calculados com base na cotação do índice na quinta-feira, 26 de dezembro.

A corretora aposta em dois setores para sustentar a alta. “Os primeiros beneficiários são as empresas do setor de consumo, como varejistas, construtoras e aluguéis de carros. Os setores de infraestrutura também são destaques, dado que os retornos de novos projetos podem ser elevados com dívidas a juros menores”, assina a XP, em relatório.

Mas é certo que vá se valorizar? O que pode mudar no meio do caminho? A previsão feita por agentes do mercado tem como base o cenário atual e as principais variáveis já no radar. São esses os fatores que devem ser colocados em observação.

Gestor da corretora Guide, Leonardo Uram afirma que o fenômeno visto em 2019, quando sustos nas negociações entre China e Estados Unidos eram capazes de eclipsar até notícias positivas no Brasil, deve continuar.

“Os principais riscos são o cenário externo, é ano de eleições nos Estados Unidos e o mercado lá fora está nas máximas. O Brasil está inserido no mercado global e um movimento político mais adverso nos Estados Unidos, Inglaterra ou Europa pode ter impacto nos ativos por aqui”, diz. “Mas esse não é o nosso cenário-base, não enxergamos recessão global e acreditamos que o Fed ainda pode reduzir mais os juros se quiser”.

Ao 6 Minutos, Uram afirma que o essencial no cenário local será a confirmação da expectativa positiva disseminada no mercado, de que 2020 marcará uma retomada mais forte da atividade econômica.

Para que isso ocorra, o gestor defende a continuidade da agenda de reformas de saneamento das contas públicas, das taxas mais básicas de juros e da atração de investidores estrangeiros. “Temos que aguardar para ver qual será a real agenda de privatizações e concessões em infraestrutura no próximo ano”, frisa.

Vai ter peixe no lago? Evandro Buccini, da Rio Bravo, usa uma metáfora para explicar qual fator acompanha de perto para os próximos passos da bolsa brasileira. “Para seguir nesse ritmo, vamos precisar ter peixe no lago. Se tiver muito pescador e pouca coisa para pescar, o peixe fica muito caro e ninguém compra mais”.

O analista está falando da perspectiva para novos IPOs (ofertas públicas iniciais, na sigla em inglês) e novas ofertas de empresas já listadas. Recentemente, o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, disse esperar de 20 a 30 ofertas em 2020.

Um fator de atração para que essa companhias façam ofertas é o mercado de crédito, que hoje não possui as condições para abastecer adequadamente a demanda crescente por financiamentos. “Neste ano, já vimos o mercado de capitais ser mais importante que o setor bancário para muitas empresas. Há fatores macroeconômicos, os juros baixos, e políticos, com a restrição do crédito subsidiado antes oferecido por instituições como o BNDES”, argumenta Buccini.

Além dessa participação indireta, diminuindo seu apetite nos financiamentos, o BNDES também deve ter um outro papel importante na bolsa no ano que vem. A direção do banco de fomento já deu vários sinais que pretende vender a participação que a instituição mantém em muitas empresas de capital aberto. Para o presidente da B3, esse é um fator que deve ajudar a bolsa a viver seu recorde em volume de capital em 2020.

Finkelsztain, no entanto, manifestou preocupação com o movimento de companhias que optaram por abrir seu capital fora do Brasil. “A exportação de IPOs é o tema que mais nos preocupa hoje”, disse. “Não deveria ser mais fácil listar lá fora do que aqui”.

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