Para uma empresa se tornar mais diversa, não basta só apostar em um discurso bonito. Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub, diz que as companhias precisam viver a diversidade, alocando dinheiro e pensando em estratégias para provocar impactos significativos.

“Para as empresas serem mais diversas, elas não devem só falar, mas viver a diversidade. A cultura organizacional precisa ser pela diversidade. Quando isso acontece, ela atravessa as diferentes áreas e estratégias. As empresas hoje precisam partir para um movimento antirracistas, que é de ação. Como fazemos isso? Com objetivos e metas claras, colocados em uma linha do tempo”, afirma Barbosa.

Há 20 anos, quando Adriana começou a empreender, a vida era mais difícil para empreendedores negros. Apesar da situação ter melhorado, ainda há muito o que ser feito.

“Eu digo que está mais tranquilo do que antes, mas ainda não está mais favorável. O tema está na pauta, existem pesquisas e mais pesquisas falando sobre, temos empresas e consumidores com mais consciência, mas ainda é um longo caminho a percorrer de políticas públicas, de acesso à crédito, de digitalização. Com a pandemia tivemos a passagem digital e muitos empreendedores ficaram à margem”, afirma Adriana.

Leia a entrevista da fundadora da Feira Preta ao 6 Minutos:

Como você começou a empreender? 

Comecei a empreender por volta dos anos 200o, quando eu vinha de uma situação de desemprego. Eu tinha um brechó e passei a vender minhas roupas em feiras de rua e mercados alternativos. Eu era uma empreendedora por necessidade e, ao mesmo tempo, participava das feiras e via pessoas como eu: mulheres negras tentando sobreviver de alguma forma.

Surgiu o desejo de criar uma feira que pudesse dar visibilidade para estas pessoas, sobretudo para mulheres negras e jovens negros. A Feira Preta foi criada a partir desse meu processo.  Eu queria criar um ambiente de impacto, onde mulheres como eu pudessem ter mais qualidade para empreender. E que não fosse só um empreendedorismo por necessidade, mas que mais pessoas pudessem abrir seus negócios por oportunidade.

Como você conseguiu virar aproveitar as oportunidades que surgiram a partir da sua necessidade?

No começo, apesar de ter uma visão de que o empreendedorismo negro pudesse ser um caminho para mim, eu era movida pela necessidade mesmo. Há 20 anos, nós não falávamos sobre questão racial. Hoje, o assunto é pauta, todo mundo fala sobre isso, mas lá atrás não existia essa perspectiva da valorização da pessoa negra enquanto empreendedora e como público consumidor.

Foi preciso conhecer as especificidades do empreendedor negro no Brasil e o cenário demorou muito para se transformar. Apesar de ser uma oportunidade de mercado, da população negra representar um número muito alto de pessoas, era difícil entender isso como uma oportunidade de negócios, pelo racismo ligado à história do Brasil.

Quando o mercado começa a falar e entender o potencial de consumo da população negra no Brasil,  começamos a ser vistos, percebidos e incluídos nas políticas públicas, nas ações, temos mais visibilidade e participamos das narrativas.

Como você enxerga o cenário de hoje? Ainda falta diversidade e inclusão dentro do ecossistema empreendedor?

O cenário hoje é outro porque o assunto está na pauta. Temos ações afirmativas sendo pensadas em âmbito municipal, estadual e federal, e as empresas estão olhando para as especificidades de consumo da população negra. Até 10 anos atrás você não encontrava linha de maquiagem para pele negra como hoje, com várias tonalidades. O próprio processo de transição capilar das mulheres negras também mudou muito o mercado de beleza.

Quem começou a entender essas demanda de consumo foram os próprios empreendedores negros. Não eram as empresas, mas sim esses empreendedores que, de alguma forma, viviam as mesmas dores e traziam soluções para atender a demanda. Hoje já vemos um movimento muito mais aberto, que é algo para celebrar.

Eu digo que está mais tranquilo do que antes, mas ainda não está mais favorável. O tema está na pauta, existem pesquisas e mais pesquisas falando sobre, temos empresas e consumidores com mais consciência, mas ainda é um longo caminho a percorrer de políticas públicas, de acesso à crédito, de digitalização. Com a pandemia tivemos a passagem para o digital e muitos empreendedores ficaram à margem.

Outro ponto importante é que ainda não temos tantos empreendedores negros que produzem em grande escala, em tamanho industrial, na confecção de matéria-prima. Encontramos muitos produzindo produtos final e na área de serviços. Existem muitos na área de moda, por exemplo, mas para você produzir uma camiseta, uma saia, você precisa do fio e do tecido. Essa parte da cadeia de produção de matérias-primas ainda não dominamos a cadeia de produção da matéria prima. Acho que são os desafios para pensar o futuro do empreendedorismo negro.

O que falta para que as empresas brasileiras sejam mais diversas?

Para as empresas serem mais diversas, elas não devem só falar, mas viver a diversidade. A cultura organizacional precisa ser pela diversidade. Quando isso acontece, ela atravessa as diferentes áreas e estratégias. A empresa vive e fala sobre isso. Para fazer essas transformações, a companhia precisa de recursos alocados, estratégias bem definidas, objetivos claros e metas em diferentes áreas.

Então se eu tenho uma área de filantropia dentro da empresa, na estratégia é interessante fazer um recorte de raça. Se eu tenho uma cadeia de fornecedores, dentro dos contratos preciso ter cláusulas antirracistas e uma ação afirmativa para trazer fornecedores negros, mulheres, LGBTQIA+, por assim vai.

As empresas hoje precisam ir para um movimento antirracistas, que é ação. Como fazemos isso? Com objetivos e metas claras, colocados em linha do tempo.

Por onde começar a empreender?

A primeira coisa é entender o que você sabe fazer e do que você gosta. Às vezes olhamos a grama do vizinho e achamos que se fizermos igual vai dar certo, mas na verdade, não. É preciso ter autenticidade, que demanda bastante desenvolvimento pessoal, se conhecer bem.

A segunda é o que eu posso fazer com o que já tenho em mãos. Muitos empreendedores começam sem R$ 1. Quando eu comecei, usava as minhas próprias roupas para vender no brechó. A minha vó começou fazendo coxinhas, que ela só precisava de peito de frango e farinha de trigo.

Quem tiver dinheiro para começar, quando tem uma rescisão profissional, por exemplo, tem que começar pequeno, porque se errar, vai quebrar pequeno. Agora, se gastar tudo de uma vez, sem entender o mercado, sem estudar, sem se planejar, o risco é muito grande.

Por fim, você tem que estudar. Não é porque começou vendendo coxinhas e deu certo que está tudo resolvido. É preciso entender o que é um plano de negócios, um demonstrativo de resultados financeiros, o que é fluxo de caixa, balanço, plano de estratégia, qual o mercado que está inserido, os concorrentes e o seu público. Por mais que o negócio tenha começado de forma intuitiva e está dando certo, para ele crescer, em algum momento será preciso apostar no planejamento, que é algo que só se aprende estudando.

O que você espera dos próximos anos para o empreendedorismo negro?

Eu acredito em um futuro preto. Acho que esse futuro de fato é possível para nós e só o fato de continuarmos existindo, diante de tantas coisas que têm acontecido, já é muito legal. E uma outra perspectiva é a gente ter essa capilaridade da diáspora negra, não só Brasil, mas de relacionar com outros países, como temos feito com a Bolívia, a Colômbia e África do Sul.

Vocês vão realizar o Festival Feira Preta. Como será o evento?

Estamos na segunda edição do festival online. Temos uma parceria de co-realização com o Facebook e estamos produzindo mais de 100 conteúdos dentro do tema: “Existe um futuro preto e ele não se constrói sozinho”, pensando em uma perspectiva de passado, presente e futuro.

Queremos mostrar quais são as histórias que fazem com que estejamos aqui hoje, em diferentes áreas. Desde políticas públicas, empregabilidade, geração de renda, empreendedorismo, tecnologia  ao universo infantil e educação. Estamos trazendo um panorama da cultura negra.

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